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'Desemprego produtivo': como usar o tempo livre para aumentar suas chances de trabalhar

Ana Luiza Daltro - De São Paulo para a BBC Brasil

  • Getty Images

Rodrigo Freire e Vanessa Guarany têm 32 anos, moram em São Paulo, são profissionais com boa formação e experiência em grandes empresas. Mas dividem outra característica: estão entre os 14 milhões de brasileiros que procuraram emprego entre fevereiro e abril deste ano, de acordo com o IBGE.

"É provável que nunca tenhamos enfrentado um desemprego tão grave e persistente como nesta última crise", sugere Ricardo Haag, diretor no Brasil da consultoria de recrutamento Page Personnel.

"Mas o caminho (ao emprego) passa por não se deixar abater. Candidatos precisam seguir se qualificando e buscando sua vaga. Não se vitimizar é a chave. É preciso se colocar em uma posição de procura intensa, perseverança e bastante networking", diz o executivo.

Driblar o desânimo e colocar essas instruções em prática certamente não é fácil. A BBC Brasil consultou especialistas sobre como fazer do período de desemprego um momento produtivo em diferentes sentidos.

Aprendizado

Uma dica básica e essencial é buscar o aprendizado - uma das melhores maneiras de se utilizar melhor o tempo que esteja sobrando.

Formado em Publicidade pelo Mackenzie (SP), Rodrigo Freire trabalhou em uma empresa de telefonia entre 2010 e 2015 e perdeu o emprego em um corte em 2016.

Com cursos de pós-graduação e extensão na bagagem, ele desde então trabalhou por dez meses em uma função temporária e tem aproveitado para fazer cursos online sobre temas como motivação nas organizações, gerenciamento de projetos e recursos humanos.

"São conteúdos familiares para mim, mas que envolvem coisas que não faziam parte das minhas atividades diretas. Quero expandir minhas competências para disputar vagas fora dos pontos centrais da minha área. Enquanto isso, entrei em grupos de freelancers no Facebook e tenho abordado profissionais de RH de empresas que possuem vagas com o meu perfil", diz.

Presidente do PageGroup no Brasil, o holandês Gil van Delft acredita que essa é uma boa estratégia.

"Em um momento de desemprego, qualquer coisa voltada à educação vale muito a pena, seja um curso pago ou conteúdos gratuitos. Tudo isso aumenta seu conhecimento e sua rede de contatos. Em uma aula ou coffee break de uma palestra você pode conhecer aquela pessoa que irá lhe dar seu próximo emprego", afirma.

Investir em conhecimento também conta pontos em uma das características mais valorizadas pelos recrutadores hoje em dia: a disposição para o autoaprendizado.

"O mercado quer ver iniciativa por parte do profissional e mede o quanto a pessoa corre atrás de conhecimento, já que algumas correm mais atrás do que outras", diz van Delft.

Plataformas de e-learning como Veduca e Coursera podem ser úteis. E manter a postura de buscar o autoaprendizado após a recolocação também não é má ideia.

Autoanálise

Formada em Turismo pela Anhembi Morumbi, Vanessa Guarany tem passagens por agências de turismo e de eventos. Deixou o emprego em uma grande farmacêutica em março, em comum acordo com a companhia, porque estava insatisfeita com transferências para áreas sem relação com suas experiências.

"Durante minha carreira vivi momentos de muito estresse, em que tudo o que queria era passar um dia em casa sem fazer nada. Mas quando se é demitido sofre-se com o estresse do desemprego. Desta vez escolhi focar nas coisas boas enquanto o próximo trabalho não vem", diz ela.

"Estou investindo em meu inglês, que não utilizava no último emprego. Estou amadurecendo e me questionando profissionalmente, pensando sobre o que realmente sou e quero. A gente emenda um emprego no outro e acaba vivendo no automático, sem parar muito para refletir", completa.

Ou seja: por pior que seja não ter emprego, a situação pode favorecer o tipo de autoanálise capaz de levar o profissional a novos caminhos, eventualmente mais certeiros e felizes.

Pausas na carreira, ainda que forçadas, também são muito úteis para retomar de forma mais disciplinada os cuidados com a saúde - não raro deixados de lado em momentos mais intensos de trabalho.

"Hoje vou à academia todos os dias, coisa que nunca fazia. Até ioga e natação estou fazendo. Estou me arrumando mais também", diz Vanessa.

Gil van Delft, do PageGroup, chama a atenção para a importância da manutenção da saúde e da disposição durante as fases de desemprego. "Por razões óbvias, vemos aqui na consultoria muitas pessoas desempregadas. E é impressionante o quanto muitas delas estão fisicamente bem e equilibradas, enquanto outras estão desesperadas e se tratando muito mal", alerta.

Atividades paralelas

Durante uma licença médica quando ainda estava no último emprego, Vanessa entrou em contato com a ONG Instituto C, que atende crianças em parceria com a Santa Casa.

Passou então a dedicar um dia por semana ao projeto, ajudando nas áreas de comunicação e eventos. Hoje, em meio à busca por trabalho, já não pode ir toda semana à ONG, mas exerce o trabalho voluntário de casa.

O publicitário Rodrigo também passou a se dedicar a uma atividade que, ao menos por enquanto, não lhe rende dinheiro. Criou um canal no YouTube (Canal Zero) em que publica vídeos sobre temas diversos, como cinema, games, culinária e dicas para quem quer morar sozinho.

"Decidi fazer para me manter ocupado e seguir exercitando habilidades de edição e escrita. Acabei aprendendo a falar para a câmera e a me expressar melhor, e aprendi na marra coisas como Google Analytics e Facebook Ads", conta. Com um ano e meio de atividade, o canal possui hoje cerca de 2,3 mil assinantes e 82 mil visualizações dos vídeos.

Reprodução/YouTube
Rodrigo Freire aproveitou período sem emprego para criar canal de variedades no YouTube

O mercado vê com bons olhos a dedicação a atividades paralelas como essas. E há outras possibilidades que acrescentam ao desenvolvimento pessoal e profissional.

"Praticar um esporte em alto nível, por exemplo, pode ajudar muito em sua avaliação em um processo seletivo, pois mostra resiliência, produtividade e capacidade de correr atrás de um sonho", afirma Gil van Delft, triatleta nas horas vagas.

Ele diz que recrutadores costumam procurar, em entrevistas de emprego, provas de episódios na vida profissional ou pessoal em que o candidato manifestou resiliência - a capacidade de se recobrar da má sorte ou de mudanças.

Cita como exemplo um candidato que vendeu o primeiro carro para poder fazer um curso de inglês no exterior - e efetivamente aprendeu o idioma.

"Valorizamos demais esse esforço de uma pessoa para realizar seus sonhos. As gerações Y (de nascidos entre 1980 e 1994) e Z (do final dos anos 1990) querem muita coisa na vida, têm muita ambição e vontade, mas às vezes falta disposição para correr atrás e senso de responsabilidade e flexibilidade. Falta resiliência", resume.

Trabalho temporário

Gil van Delft chama a atenção para outra coisa que deveria estar no radar de quem busca emprego: o mercado temporário.

"As vagas temporárias dão a chance de ter uma experiência em uma empresa, de conhecer o seu ambiente e cultura. Fora a questão da renda e a chance de efetivação, maior agora que o mercado está retomando contratações. Nós, recrutadores, também preferimos alguém que esteja trabalhando temporariamente do que alguém que não trabalhe", diz.

Para ele, as pessoas no Brasil tendem a ver o trabalho temporário com preconceito, como um quebra-galho. "Mas isso aos poucos está mudando. Na Europa e nos EUA é comum que pessoas na faixa dos 30 anos trabalhem em lojas e restaurantes quando estão desempregadas. Muitas vezes empresários perguntam a essas pessoas o que eles faziam antes de trabalhar ali, e v oportunidades surgem nestas conversas", considera.

O executivo afirma, contudo, que trabalhos temporários sem relação com a área profissional de um candidato não devem ser mencionados no currículo, que costuma ser o primeiro filtro num processo de seleção.

"Se a informação é jogada no currículo, o recrutador pode pensar que você se desviou do seu objetivo. Mas em uma entrevista pessoal é possível dar o contexto da situação. Essa é a hora em que você pode e deve mencionar os trabalhos que não têm a ver com sua área. O que importa é a necessidade, a vontade do candidato de produzir, fazer alguma coisa. Valorizo muito isso, e o mercado também", afirma.

Entrevistas 2.0

Não faz tanto tempo assim, a maioria das vagas de emprego eram publicadas em jornais. Interessados enviavam cartas sem sequer saber se seriam lidas. No mundo digital de hoje, a comunicação é mais eficiente, mas as exigências cresceram e se transformaram rapidamente.

"Os processos seletivos mudaram muito dos últimos cinco anos para cá. Cada vez mais as empresas utilizam testes online ou digitalizados para avaliar candidatos. É preciso saber como se sair bem nesses testes, pois eles funcionam também como um primeiro filtro no assunto tecnologia", diz van Delft, do PageGroup.

Divulgação
"Valorizamos demais esse esforço de uma pessoa para realizar seus sonhos. As gerações Y (de nascidos entre 1980 e 1994) e Z (do final dos anos 1990) querem muita coisa na vida, têm muita ambição e vontade, mas às vezes falta disposição para correr atrás e senso de responsabilidade e flexibilidade. Falta resiliência", diz Gil van Delft, do PageGroup

É possível encontrar testes do gênero na internet - e, portanto, praticar a habilidade em respondê-los.

Outro ponto fundamental é cuidar do chamado perfil digital, conceito que inclui informações presentes em redes sociais ligadas ao trabalho, como o LinkedIn, e a própria postura pessoal nas redes sociais em geral - algo que empresas têm avaliado mais e mais.

Nem toda a tecnologia do mundo pode, contudo, substituir o contato direto, especialmente em etapas avançadas de uma seleção. Por isso, afinar o discurso e a atitude para as entrevistas presenciais também é importante.

"Uma sugestão é ensaiar as principais mensagens, de preferência colocando-as em ordem cronológica. Durante as entrevistas, é comum o candidato comentar uma situação que aconteceu há pouco tempo, depois falar sobre algo que ocorreu há um ano e logo voltar a um fato mais recente. Isso não é bem visto", defende Raphael Falcão, da empresa de recrutamento Hays Response.

Candidatos a uma vaga de trabalho também devem se preparar para "entrevistar" a empresa que pode vir a contratá-los - algo que contraria o senso comum, diz Ricardo Basaglia, diretor-executivo para o Brasil da recrutadora Michael Page.

"Entrevistar a empresa é uma postura muito bem vista", explica. "O candidato pode e deve perguntar qual o perfil da companhia e da vaga em questão. Em caso de substituições, por exemplo, vale até questionar por que a pessoa que estava no posto não deu certo".

Networking

Muitos profissionais em busca de um novo (ou melhor) emprego têm dificuldade em fazer networking (estabelecer uma rede de contatos de trabalho) - não sabem como se portar nesses momentos sem parecer desajeitados, informais ou interesseiros demais.

Dar a cara a tapa, no entanto, é imprescindível, afirma Gil van Delft. "É preciso praticar e perguntar muito a recrutadores, headhunters e empresas de recolocação sobre como as coisas funcionam no seu mercado. Para quem, onde e em que grupos você deveria se apresentar. A curiosidade é uma das habilidades mais importantes na hora de construir uma carreira. Se eu pergunto uma coisa, eu automaticamente vou ter algo a mais do que aquilo que foi falado para todos."

Deixar claro que se está à procura de emprego pode parecer óbvio, mas é necessário, sobretudo em tempos de redes sociais, quando aparências podem contar mais do que a realidade.

"Muitas vezes as pessoas colocam a data de início em um cargo e deixam aquilo lá, sem o aviso de encerramento. Alguns profissionais têm vergonha de deixar claro que estão desempregados. Mas, se você comunica de forma clara que aquele trabalho acabou, tudo muda. Contatos podem ver isso e avisar um chefe ou conhecido", diz van Delft.

"Em transição", "em busca de novo desafio", "buscando recolocação" - tanto faz. O importante é deixar claro aos contatos e eventuais curiosos que você não está mais trabalhando onde estava.

Ou, em outras palavras, dar mais peso ao próprio desenvolvimento humano e profissional e menos às opiniões alheias que muitas vezes sequer sabemos quais serão. Eis um belo ponto para a lista da autoanálise, aliás - estejamos empregados ou não.

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