Youtubers da crise: canais crescem oferecendo dicas de finanças pessoais

Paula Adamo Idoeta

Da BBC Brasil, em São Paulo

  • Reprodução

    Canais de finanças pessoais ocupam nicho pequeno, porém crescente no YouTube

    Canais de finanças pessoais ocupam nicho pequeno, porém crescente no YouTube

Onde investir meu FGTS? Previdência Privada vale a pena? O que a queda da Selic muda na minha vida? Discussões desse tipo, geralmente áridas para a maioria da população, estão ganhando mais adeptos - e uma roupagem mais pop - na internet.

Em meio à crise econômica, quando mais gente precisa se virar com menos dinheiro, canais de finanças no YouTube veem seu público crescer, em busca de dicas mais acessíveis sobre onde investir - ou, antes disso, sobre como garantir que o salário sobre no fim do mês.

A supervisora de vendas Luciana Pessoa, de 36 anos, de São Bernardo do Campo (SP), "ganhava bem e gastava bem" até o começo deste ano, quando perdeu o emprego e viu que precisava fazer seu dinheiro render.

"Trabalho desde os 17 anos, mas sempre gastei tudo o que ganhei e nem sei para onde foi", conta à BBC Brasil. "Quando peguei minha rescisão, queria investir, mas vi que só conhecia a poupança."

E foi no YouTube que Pessoa aprendeu a aplicar seu dinheiro em CDB e Tesouro Direto. Fã do canal Me Poupe!, da jornalista Nathalia Arcuri, e do consultor financeiro Gustavo Cerbasi, Luciana hoje só lamenta não ter começado a pensar nas suas finanças pessoais mais cedo.

"Aprendi sobre os pequenos gastos do dia a dia que a gente faz sem perceber. Se tivesse tido esse conhecimento antes, teria um patrimônio maior", avalia ela, que já consegue poupar mais agora que voltou a trabalhar. "Quero aprender mais sobre renda variável para investir na bolsa quando tiver mais estudos e mais dinheiro."

O Me Poupe! - que se intitula "o primeiro canal de entretenimento financeiro do Brasil" - passa dos 700 mil inscritos, mesclando piadinhas com dicas de como investir, economizar no dia a dia e cultivar "hábitos de milionários". Alguns de seus vídeos têm mais de 1 milhão de visualizações.

"Não é só a crise (que atrai o público), mas também a linguagem - mais simples e menos sisuda, sem economês", diz Nathalia Arcuri à BBC Brasil. "Meu objetivo é despertar o interesse de quem não está interessado em finanças pessoais."

Além disso, Arcuri vê também uma facilidade de acesso maior a investimentos de renda fixa, como o Tesouro Direto. "Pessoas que nunca imaginaram que poderiam investir conseguem agora fazê-lo com pouco dinheiro e risco baixo."

Outros canais de temática parecida (mesmo que com algumas diferenças de estilo e conteúdo), como O Primo Rico e o Blog de Valor, também têm crescido em número de inscrições e visualizações - além de em engajamento, segundo seus criadores.

"O aumento de interesse é perceptível. Existe uma demanda reprimida: não se fala em finanças na escola. E, no entanto, é algo com que precisamos lidar desde (a compra do) primeiro lanche até a morte", opina o educador financeiro André Bona, responsável pelo Blog de Valor, cujo público-alvo são as pessoas que já conseguiram reservar algum dinheiro para investir e querem aprender as opções mais vantajosas.

O Primo Rico, produzido por uma equipe de 20 pessoas, também foca mais nos investidores do que nos endividados. Seu vídeo mais popular, "Como juntar 195 mil reais em quatro anos", teve 750 mil visualizações.

Nicho crescente

Os números desses canais são bem modestos em relação aos campeões do YouTube - o humorista Whindersson Nunes, por exemplo, tem 22 milhões de inscritos em seu canal -, mas "é um nicho crescente, associado a um movimento mais amplo que tenta tornar acessíveis temas mais técnicos", diz à BBC Brasil Breno Soutto, da consultoria de marketing digital e inteligência de mercado ELife.

Essa abordagem simplificada "faz com que o alcance (desses canais) cresça por meio de replicações, curtidas e comentários, que tornam o conteúdo visível a mais pessoas".

E, ainda que esse nicho não faça, por sua própria natureza, frente às maiores audiências das redes sociais, "o Facebook, por meio de sua plataforma Facebook Audience Insights, diz que o Brasil tem entre 10 e 15 milhões de pessoas que se interessam ativamente (comentam, dão likes ou outras reações, compartilham, etc) por economia por mês", completa Soutto.

Ao mesmo tempo, para muitos consumidores brasileiros, ter finanças equilibradas ainda é um luxo: segundo a Serasa, o número de inadimplentes no país chegou a 60,6 milhões em julho.

"Esse número recorde, que vem depois de um boom de crédito no Brasil, mostra que as pessoas não souberam lidar (com suas finanças)", diz a gerente da Serasa Consumidor, Carolina Aragão, agregando que o cenário atual dos brasileiros tem uma combinação explosiva: endividamento, desemprego alto e falta de cultura de poupar para emergências.

"O YouTube pode ser uma ferramenta essencial para democratizar essas informações. Dá para criar bons hábitos mesmo com pouco dinheiro: a organização é chave para tirar a cabeça para fora d'água e depois pensar adiante, em como poupar."

Alguns dos próprios youtubers estão entre os que aprenderam a duras penas o valor do dinheiro - e nesse processo descobriram que havia um mercado a ser explorado.

"Quando entrei no mercado financeiro, aos 17 anos, perdi em uma semana os R$ 5 mil que meus pais haviam acumulado para mim", conta Thiago Nigro, de 26 anos, responsável pelo Primo Rico.

"Comecei a estudar, abri minha própria empresa e comecei a fazer vídeos na internet para captar mais clientes. Logo vi que (havia espaço) para algo maior que isso."

Hoje, ele toca, além do Primo Rico (com site e canal), um documentário sobre o tema riqueza.

Maiara Xavier, dona de um canal com seu nome, conta que era uma típica "consumista endividada" quando começou a se interessar por finanças pessoais, dez anos atrás. Deixou de lado a carreira de webdesigner para focar nesse tema.

"Tento passar a ideia de que mesmo que você invista R$ 1 ou R$ 1 milhão, a rentabilidade é a mesma", argumenta. "Isso dá poder a quem tem pouco dinheiro, que pode começar (a poupar) com o que quer que tenha."

Patrocínio

Com o crescimento de seus canais, esses youtubers passaram a despertar o interesse de patrocinadores, como corretoras de valores e aplicativos de finanças.

Já André Bona, que já fazia carreira como educador financeiro antes de migrar para a internet, diz que faz questão que sua fonte de receitas venha da venda de cursos e materiais didáticos do Blog de Valor, e não de patrocínios.

"Não aceito oferta de corretoras ou bancos", afirma. "Acho que é um desafio desse processo de crescimento (desse nicho), de não apenas reverberar o que o mercado financeiro quer (divulgar). Se você tem patrocínio, fica de mãos atadas para criticar."

Para Nathalia Arcuri, o patrocínio é uma forma de viabilizar o canal de forma gratuita e com constantes melhorias para o público. "E só fecho com patrocinadores que aceitam nossos pré-requisitos, para não perdermos nossa credibilidade", diz.

E a maior exposição na internet atrai, invariavelmente, mais críticas e "haters". Arcuri diz que ficou particularmente incomodada quando, ao publicar o vídeo em que conta como alcaçou seu primeiro R$ 1 milhão em investimentos, leu comentários do tipo "só conseguiu porque é bonita" ou "juntou o patrimônio com o do marido".

"É fácil fazer críticas acobertado por um ícone (de perfil virtual)", diz. "Só respondo comentários críticos em tom respeitoso, para não deixar que um trabalho que tem propósito corra o risco de ser estragado por meia dúzia de pessoas."

Bons hábitos

Do ponto de vista do consumidor, é cada vez mais importante buscar informação qualificada que se encaixe em seu momento de vida, diz Aragão, do Serasa Consumidor.

"Busque vídeos que reflitam a sua situação real e como sair dela - para algumas pessoas, que estão com a renda comprometida, isso significa primeiro aprender a se organizar financeiramente e depois chegar na etapa de aprender a investir."

Na mesma linha, todos os entrevistados concordam que o desafio é cultivar nos consumidores não apenas o conhecimento sobre um portfólio de investimentos, mas ensinar que finanças equilibradas dependem também de autoconhecimento, perseverança e... paciência.

"As pessoas precisam antes de tudo acreditar que conseguem chegar lá, seja onde isso for - acumular R$ 1 milhão ou simplesmente ter liberdade financeira", defende Thiago Nigro.

"A galera vê os investimentos como um fim, mas na verdade é uma ponte para realizar coisas", explica Bona. "É preciso entender qual o que mais se adequa à minha necessidade real - por exemplo, uma viagem (no curto prazo) ou o planejamento da aposentadoria (um plano de longo prazo). O conhecimento tem que trazer benefícios reais, senão você fica apenas com teorias lindas (de finanças pessoais)."

"O segredo do processo de enriquecer é a consistência. Mesmo que seja começando com R$ 50, é preciso ter consistência em sempre juntar esses R$ 50", defende Maiara Xavier.

Arcuri, por sua vez, diz que o principal hábito que deseja ensinar a seus seguidores é "exercitar o foco diariamente".

"Boa parte dos problemas financeiros das pessoas é por elas não saberem o que querem, por não saírem de sua zona de conforto, exercitar a disciplina e definir metas."

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