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O que deve fazer uma 'au pair' e por que esse trabalho está sendo considerado por alguns como escravidão moderna

Tim Stokes e Alpa Patel

BBC News

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    Anna Souto, de 25 anos, viajou da Espanha para o Reino Unido em setembro

    Anna Souto, de 25 anos, viajou da Espanha para o Reino Unido em setembro

As chamadas "au pair" são pessoas - em sua maioria jovens mulheres - que viajam a um país diferente para ajudar uma família a cuidar dos filhos pequenos. Em troca, elas recebem moradia, comida e um pouco dinheiro.

Trata-se de uma prática muito comum em países da Europa e nos Estados Unidos. Em alguns casos, porém, a falta de legislação sobre a atividade suscita uma discussão: será que ela representaria uma forma de "escravidão moderna", conforme denunciam alguns?

A palavra "au pair" significa "pareado" ou "igual a", uma referência ao tratamento que espera-se ser dado a essas pessoas, que seriam consideradas membros das famílias para as quais trabalham. O objetivo desse tipo de troca seria permitir que elas aprendam uma língua diferente e tenham contato com outra cultura.

Mas uma especialista no mercado de "au pair" no Reino Unido diz que a forma como essas pessoas são recrutadas e tratadas lembra o "Velho Oeste".

Rosie Cox, da Birbeck, Universidade de Londres, defende há anos que sejam tomadas medidas para evitar que essas jovens sejam exploradas.

Ainda que não existam números oficiais, Cox estima que podem existir cerca de 100 mil "au pair" trabalhando somente no Reino Unido, e que cerca de 75% delas vivem em Londres.

Ela afirma que o sistema de trabalho nessa área se tornou um "vale tudo" na última década, com a expansão da União Europeia.

A especialista avalia que as trabalhadoras costumavam ter um pouco mais de proteção na época em que o governo britânico exigia vistos de trabalho para aquelas que vinham de países não pertencentes ao bloco europeu.

Mas desde que essa regra mudou, diz Cox, "ninguém está se responsabilizando pela segurança das  'au pair'" .

O governo britânico tem defendido sua posição. Por meio de um porta-voz, afirma que o programa é uma "oportunidade de experimentar a cultura estrangeira enquanto se ajuda uma família com seus filhos e o trabalho doméstico leve".

E acrescentou: "Se uma 'au pair' for vítima de escravidão moderna, o que inclui trabalho forçado ou obrigatório, escravidão, servidão ou tráfico humano, isso deve se reportado à polícia imediatamente".

Fim das recomendações

A maioria das "au pairs" no Reino Unido vêm da própria Europa - boa parte da Espanha. Elas e as famílias costumam se conhecer por meio de agências ou sites.

Mas não existe nenhuma regulamentação que controle o trabalho destas agências. E muitas trabalhadoras denunciaram maus-tratos e cargas de trabalho excessivas por parte das famílias anfitriãs.

"Com a decisão de eliminar os vistos, criaram essa zona de vazio regulatório das "au pairs". Foi um equívoco", opina Cox.

A especialista argumenta que, sob a vigência do sistema atual, tanto essas trabalhadoras quanto as famílias que as empregam estão em risco, uma vez que não se pede antecedentes criminais a nenhuma das partes.

"Você pode ter, por exemplo, sido condenado por abuso sexual e ainda assim receber uma "au pair" na sua casa", exemplifica.

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'Com a decisão de eliminar os vistos, criaram essa zona de vazio regulatório', diz Cox

Ela acredita que as autoridades precisam estabelecer uma definição clara sobre o que é uma "au pair", quais são suas funções e quais regulações devem ser aplicadas às agências que as gerenciam.

"Essas empresas precisam ser responsabilizadas pelas situações que criam", acrescenta.

'Desconfortável e insegura'

Em sua primeira experiência como "au pair" no Reino Unido, Ellie (nome fictício) foi trabalhar para uma família no sudeste da Inglaterra.

A jovem diz que se viu em uma casa onde "os filhos eram violentos, pois viam a mãe sendo violenta com o pai".

"Eu fiquei muito desconfortável e insegura. A mãe gritava o tempo todo", conta.

Além disso, a jovem relata que tinha de executar tarefas que iam muito além do seu dever como "au pair". Os pais ainda a faziam trabalhar nos finais de semana, mesmo após terem dito que esses dias seriam livres.

Ellie afirma ter acreditado que trabalharia entre 30 e 40 horas semanais, mas que acabou chegando a 70: começava às 6h e terminava somente às 20h ou 21h.

"Quando você é uma "au pair", você espera que a família te acolha como se fosse parte dela. Não que te trate como uma escrava doméstica."

'Te pago muito e você não faz nada'

Isabella (nome fictício) também relata ter tido uma péssima experiência ao ser recebida em uma casa de Londres, onde sua função seria cuidar da limpeza e das crianças.

"No começo, a mãe me disse: 'Você é parte da família, não se preocupe'. Mas duas semanas depois o tratamento era outro: 'Te pago muito e você não faz nada'."

A jovem conta que acabou trabalhando mais de 12 horas por dia, inclusive nos finais de semana.

E que não encontrou muita compreensão nos momentos em que enfrentava dificuldades.

"Ela me disse: 'Eu sou uma mãe, então entendo que você queira falar com a sua. Mas não pode fazer isso enquanto está trabalhando para mim'", diz.

"Ela me assustou. Depois de duas semanas, fugi para um hostel."

Boas experiências

Mas nem todas as histórias são traumáticas - há muitos casos em que a experiência é boa para os dois lados.

Anna Souto, de 25 anos, viajou da Espanha para o Reino Unido em setembro, após encontra a família anfitriã em um site e conversar com ela via chat.

"Desde meu primeiro minuto em Londres, senti que era parte da família. Eles são realmente muito gentis comigo."

Anna diz que consegue ter bastante tempo livre.

"As crianças são amorosas comigo, é muito fácil cuidar delas. Estão sempre me pedindo um abraço."

Maggie Dyer, que gerencia uma empresa responsável por alocar aspirantes a "au pair"em famílias, afirma que muitas jovens não se dão conta dos riscos que correm ao decidir viver com uma família que não conheciam antes.

"Elas chegam sozinhas aqui. Logo, estão muito vulneráveis", diz.

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Maggie Dyer ajuda jovens que desejam encontrar uma família que as receba

"Conheci uma menina que veio com a promessa de morar com um casal e seus filhos em Londres. Mas quando chegou ao aeroporto, uma pessoa a levou para a periferia da cidade. Ali ela se deu conta de que não havia esposa. Era só o homem e seus filhos."

Dyer relata que muitas candidatas a procuram em busca de uma nova família depois de terem passado por uma situação difícil.

"Algumas delas trabalham o tempo todo. São maltratadas pelas famílias. Soube de uma menina que vivia trancada, não a deixavam nem sequer ir para suas aulas de inglês."

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