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Greve chega ao 9º dia enfraquecida, mas ainda com churrasco, 'fake news' e pedido de renúncia de Temer

Felipe Souza/BBC
Caminhoneiros fazem churrasco em ponto de concentração em Embu das Artes (SP) Imagem: Felipe Souza/BBC

André Shalders e Felipe Souza

Da BBC Brasil em São Paulo

29/05/2018 20h51

Em seu nono dia, a greve de caminhoneiros que parou o país perdeu força nesta terça-feira (29). Com a pauta econômica atendida desde domingo (27) e a entrada em cena dos militares para tentar liberar as rodovias, o abastecimento de itens como alimentos e combustíveis para postos de gasolina e aeroportos começa a ser normalizado.

Mesmo assim, o último balanço da Polícia Rodoviária Federal (PRF), fechado às 18h de terça-feira, mencionava 616 pontos de concentração dos motoristas em estradas do país.

O número é maior do que o divulgado pela PRF na tarde de segunda-feira, quando eram 556 pontos. Nas últimas horas, no entanto, existiam apenas três pontos nos quais o trânsito estava bloqueado.

Em Brasília, o comando da PRF reconheceu que havia um aumento no número de protestos --mas disse que o número de caminhões parados em cada um deles tinha diminuído em relação ao dia anterior.

Além disso, parte das aglomerações seria formada por moradores de cidades próximas, e não por caminhoneiros, disse o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, almirante Ademir Sobrinho.

"A população (que vive nas cidades próximas aos protestos) tem diversos anseios, e isso está fazendo com que haja várias aglomerações (nas estradas)", disse Sobrinho.

Ontem, o desabastecimento começou a diminuir --aeroportos de Brasília e de Belo Horizonte receberam combustíveis, por exemplo, e dos 54 aeroportos administrados pela Infraero no país, apenas nove estavam sem combustível.

Em 11 das 26 capitais brasileiras já havia gasolina e etanol disponíveis na maioria dos postos, apesar de o problema persistir em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras capitais do Sul e do Sudeste.

Entidades pedem fim da greve, grupos ignoram

No começo da tarde, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), uma das principais entidades representativas da categoria, lançou nota pedindo o fim do movimento.

"Entendemos que daqui para frente só haverá prejuízo aos caminhoneiros, de modo que a CNTA e todas as entidades sindicais de sua base pedem a compreensão pelo fim da paralisação."


Nas ruas e nas redes sociais dos caminhoneiros, porém, a história era outra. A BBC Brasil acompanhou as movimentações online e visitou um bloqueio na rodovia Régis Bittencourt, na altura do quilômetro 280, próximo à cidade de Embu das Artes, na Grande São Paulo.

Os manifestantes que ainda não se desmobilizaram mantêm uma pauta política confusa, que pede a renúncia do presidente Michel Temer (MDB) e também uma intervenção militar no país.

Na Régis Bittencourt, caminhoneiros ouvidos pela BBC dizem que não se contentam com as medidas anunciadas pelo governo, principalmente a redução de R$ 0,46 do preço do diesel nas refinarias nos próximos 60 dias.

"Queremos que essa medida seja estendida até no mínimo depois das eleições. Queremos a renúncia de Michel Temer e uma intervenção militar para organizar essa bagunça no país. Não somos representados por nenhum sindicato e vamos ficar na beira da estrada até nossas pautas serem atendidas", disse o caminhoneiro Paulo S. Silva.

Em Brasília, deputados federais receberam no plenário da Casa o caminhoneiro Wallace Landim, o "Chorão". Com vídeos no Facebook vistos por dezenas de milhares de pessoas nos últimos dias, Chorão disse que os R$ 0,46 de redução não eram suficientes, e que as entidades sindicais com as quais o governo negociou até domingo não representavam os motoristas autônomos.

Ao longo do dia, circularam nos grupos de WhatsApp vários áudios com ameaças de represálias a quem se deslocasse com os veículos pelas estradas ou tentasse abastecer o carro em postos de gasolina --embora os próprios administradores dos grupos dissessem se tratar de "fake news". Uma das mensagens, por exemplo, era falsamente atribuída à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

Almoço comunitário

Toneladas de alimentos, como arroz, feijão, molho de tomate, macarrão e óleo desembarcam há uma semana no posto de combustível onde estão concentrados os motoristas em Embu das Artes.

São doações vindas de cidades vizinhas e até de outros estados, segundo os manifestantes. Mas o que impressiona é a quantidade de carne.

Nesta terça-feira, a reportagem da BBC Brasil presenciou um churrasco que durou ao menos cinco horas no principal ponto de encontro dos grevistas na rodovia. Nesse tempo, foram distribuídos mais de 3.000 pães com carne assada a caminhoneiros e moradores da região, pelas contas dos voluntários que organizavam o "evento".

Eram quatro churrasqueiras funcionando com sua capacidade máxima enquanto dezenas de voluntários se dividiam como numa linha de montagem para cortar pães, fatiar as carnes, assar e distribuir.

Além disso, centenas de litros de refrigerante, suco e água foram distribuídos por hora. Para agilizar a distribuição, os voluntários colocavam o conteúdo das garrafas em galões com uma espécie de torneira.

Os doadores, porém, são anônimos. Questionados pela reportagem, os voluntários que servem as refeições não disseram o nome de nenhum deles.

"Eu até sei o nome dele, mas não vou falar", disse o pedreiro Risomar Vaz, que está desempregado e trabalha como voluntário ajudando os caminhoneiros desde o início da greve.

Assim como as cerca de 20 pessoas entrevistadas pela reportagem, ele disse que ajuda porque defende a renúncia de Michel Temer e uma intervenção militar.

O único doador revelado pelos voluntários foi uma transportadora cuja garagem fica em frente ao posto. A empresa disponibilizou seus banheiros e vestiários para os caminhoneiros tomarem banho e se trocarem.

Mórmons

Sensibilizados com a falta de higiene relatada pelos caminhoneiros, alguns moradores de Juquitiba se deslocaram diariamente cerca de 35 km para levar doações aos manifestantes. Eles são seguidores da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conhecidos como Mórmons.

Por meio de redes sociais, como Facebook e WhatsApp, eles pedem doações e as levam diariamente aos caminhoneiros. Nesta terça-feira, o item mais procurado era a bermuda.

Isso porque parte dos caminhoneiros está há dias sem trocar de roupa e sem uma opção mais confortável para as horas mais quentes do dia.

Assim como os caminhoneiros e outros voluntários entrevistados, Trevizan apoia a intervenção militar. "Hoje, eu vejo como a única forma de colocar ordem no país. Muitos veem isso como um erro quando olham para trás.

Mas hoje um governo militar não seria nos mesmos moldes porque a gente não permitiria censuras, por exemplo. Temos nossos meios de comunicação, como o WhatsApp e uma imprensa livre", afirmou.

A imprensa, aliás, é alvo de críticas dos caminhoneiros. Segundo eles, os meios de comunicação mentem ao relatar a possível influência de partidos políticos no movimento ou supostas ameaças que grevistas estariam fazendo aos motoristas que tentassem abandonar a paralisação.

Até o início da noite, o grupo continuava ocupando as laterais da pista da Régis, apesar da desmobilização que já vinha ocorrendo em diversas outras estradas.

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