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Pressão, críticas e muitos 'nãos': Por que ser ministro da Fazenda é o 'pior emprego do mundo', na visão deste livro

Alan Marques/Folhapress/19.dez.2014
Traumann: "Todo ministro dorme com uma espada sobre a sua cabeça, segurada apenas por um fio" Imagem: Alan Marques/Folhapress/19.dez.2014

Mariana Alvim

Da BBC News Brasil, em São Paulo

02/12/2018 11h09

A julgar pela história de seus antecessores, o economista Paulo Guedes caminha para assumir, a partir de 2019 no governo de Jair Bolsonaro (PSL), o que é considerado o "pior emprego do mundo": o de ministro da Fazenda do Brasil.

É assim que o jornalista e ex-ministro da Comunicação Thomas Traumann classifica o cargo no livro O pior emprego do mundo - 14 ex-ministros da Fazenda contam como tomaram as decisões que mudaram o Brasil e mexeram no seu bolso, lançado em setembro pela editora Planeta.

Com o livro, o autor destaca a sensibilidade da posição, sob forte escrutínio da opinião pública e passível de cair na forca da demissão a qualquer momento. Afinal, como apontou Traumann em entrevista por telefone à BBC News Brasil, o ministro da Fazenda é essencialmente aquele que "diz não". Os louros, claro, são a coroação em um posto com grande poder, proporcional aos seus riscos.

Se a história recente do Brasil mostra ministros da Fazenda com poder comparável ao de primeiros-ministros em outros países, declarações de Bolsonaro indicam que Guedes terá força ainda maior: os ministérios da Fazenda, Planejamento e Indústria serão fundidos em um "superministério" da Economia.

Traumann indica, porém, que tamanho poder não é inédito: é algo comparável ao alcance de ministros que ocuparam a pasta nos governos de João Figueiredo e Fernando Collor.

O que perpassa a trajetória de todos os titulares da Fazenda, porém, é a urgência de demandas na economia e a necessidade de articulação política com o Congresso. Guedes não escapará disso.

No curto prazo, Traumann aponta para questões complexas e mais imediatas que chegarão à mesa do ministro, como o subsídio ao diesel e o reajuste do salário mínimo. Em um cenário mais amplo, Guedes terá de encarar os desafios que são a "bola da vez" nas urgências econômicas de anos recentes: o ajuste fiscal e a contenção do desemprego.

Traumann é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e foi porta-voz da Presidência e ministro no governo de Dilma Rousseff (PT), além de editor e repórter em veículos como Folha de S. Paulo, Veja e Época. É também consultor e realiza pesquisas na Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP-FGV). Vive no Rio de Janeiro e tem 51 anos.

Confira os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - Por que ser o ministro da Fazenda é o "pior emprego do mundo"?

Thomas Traumann - O Brasil é um país que vive sob um pronto-socorro econômico. O tempo todo nós temos uma crise; só muda, digamos, a prioridade. Nos anos 70 e 80 você tinha a dívida externa e a inflação; nos anos 90, a fragilidade externa brasileira, depois, as grandes crises internacionais. Hoje, você tem o ajuste fiscal e desemprego.

Então, o ministro da Fazenda nunca tem um dia calmo. Em segundo lugar, a responsabilidade dele em função disso é muito grande. Ele tem muito poder e acaba funcionando como o primeiro-ministro do governo. É quem tem que responder à grande pergunta do governo: seja crescer, conter o desemprego, combater a inflação...

Pra completar tudo isso, ele é demissível a qualquer momento. Ele tem o ônus do poder, mas não o bônus.

BBC News Brasil - O que você destacaria como desafios para o próximo ministro em 2019?

Traumann - Aparentemente, o cenário externo estará mais hostil: a disputa comercial entre China e Estados Unidos vai ampliar, a situação não será de bom humor no mercado mundial, vamos dizer assim.

Existe a possibilidade de uma pressão inflacionária no início do ano também, pois a safra começou a ser plantada em setembro com o dólar muito alto. Então, é óbvio, com a importação de equipamentos, fertilizantes, a safra custou mais caro para ser produzida.

Outra coisa é que tem decisões muito imediatas e importantes a serem tomadas. Subsídio do diesel, vai manter? Tem que decidir isso até 31 de dezembro. Salário mínimo, tem até abril para decidir qual vai ser a regra do reajuste.

Sem contar a grande emergência, que o Brasil está numa situação fiscal muito complexa. Nas circunstâncias atuais, se o nada for feito, o país não cumpre o teto de gastos no final do ano.

O mercado está feliz com o Bolsonaro agora, mas a gente conhece o mercado: a felicidade vai e volta.

BBC News Brasil - Você apresenta no livro os presidentes e ministros da Fazenda como duplas às vezes menos harmoniosas, às vezes mais. A dupla Jair Bolsonaro e Paulo Guedes tem algum paralelo?

Traumann - (João) Figueiredo (presidente na ditadura militar, entre 1979 e 1985) e (Antônio) Delfim (Netto, que ocupou na gestão a Secretaria de Planejamento, responsável por questões econômicas), me parece muito claro. Figueiredo, apesar de ter sido excelente em cálculos, não tentou interferir no dia a dia da economia.

Ele claramente entregou a economia primeiro para o (Mário Henrique) Simonsen (ministro da Economia e Planejamento nos anos 70) e depois para o Delfim. Não era a prioridade dele.

Então, ele deu essa autonomia, passando o "superministério" para outro e focando em outra agenda. O Figueiredo, no caso, para a abertura (processo de transição da ditadura para o regime democrático), e o Bolsonaro, para os costumes e a segurança.

BBC News Brasil - A perspectiva do superministério no governo Bolsonaro, com o controle por Guedes da Fazenda, Planejamento e Indústria, é comparável ao alcance de Delfim?

Traumann - Sim. A gente tem dois casos de "superministros".

O primeiro é no governo Figueiredo, com o nome Seplan (Secretaria de Planejamento), mas que era a mesma coisa, mandava em tudo: inflação e preços, gastos estatais, controle de orçamento... E o Collor também montou uma estrutura igual à do Bolsonaro, com a junção da Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio.

BBC News Brasil - O governo Bolsonaro também pode repetir o "Exército Brancaleone de Collor", como você lembra no livro (assim ficou conhecida a equipe econômica de Collor, em uma referência ao cômico e debilitado exército retratado no filme L'Armata Brancaleone, de Mario Monicelli)?

Traumann - Espero que não! (Risos.) Mas é inegável que haja muitas semelhanças nos primeiros dias de Bolsonaro e Collor: pequeno partido, o discurso antipolítico, liberal na economia, a ideia de trazer estrelas para o governo... Mas não significa que as coisas vão ser iguais.

BBC News Brasil - No livro, você coloca a fragilidade do cargo da seguinte forma: "Todo ministro da Fazenda do Brasil dorme com uma espada de Dâmocles sobre a sua cabeça, segurada apenas por um fio fino que pode ser rompido a qualquer momento". Paulo Guedes, com todo o poder a ele prometido, também dorme com essa espada sobre sua cabeça?

Traumann - Claro. A crise é tão grande que ninguém espera que as coisas vão se resolver em pouco tempo. A lua de mel acaba e vem o dia a dia. A reforma da Previdência, por exemplo. Quando você fala de forma genérica, ninguém é contra a reforma.

Mas quando você começa a decidir como vai ser, qual vai ser o regime para algumas categorias, para homens e mulheres, aí vem a política. O Congresso é muito sensível às corporações.

BBC News Brasil - Você acha que o novo governo tem ou está trabalhando para ter uma base forte no Congresso para assuntos econômicos?

Traumann - É claro que esse governo gosta de superlativos, o superministério da Economia, da Justiça, mas precisa do superministério da política. Ele vai precisar de uma equipe política muito mais robusta do que tem hoje.

BBC News Brasil - Bolsonaro representa vários ineditismos, tanto em termos de campanha eleitoral como em agenda. Há ineditismos também na economia?

Traumann - Sim, pela agenda liberal. Se o Paulo Guedes tiver o poder que se promete ter, vamos ter um governo que vai realmente reduzir o Estado. Isso é inédito. Pela primeira vez, tem alguém falando para empresários, fazendo uma agenda claramente para empresários.

BBC News Brasil - Essa centralidade do ministro da Fazenda no Brasil é comparável a outros países?

Traumann - Acho que o único país comparável seria a Argentina, que sempre teve crises econômicas como as nossas. Fiz um pouco de pesquisa lá.

Mesmo assim, nas crises, o ministro da Fazenda teve mais centralidade no Brasil do que na Argentina. No Brasil, você realmente tem uma situação em que é mais dramática a influência direta do Estado no dia a dia das pessoas: da alíquota de importação do celular ao patrocínio da Caixa Econômica ao time de futebol. Tudo passa pelo Estado.

BBC News Brasil - A importância do cargo tem a ver também com condições de governabilidade no país, frequentemente chamado de "presidencialismo de coalizão"?

Traumann - Tem, porque o ministro da Fazenda passa a precisar ter uma enorme relação no Congresso. Vamos lembrar da gestão do (Henrique) Meirelles (ministro da Fazenda entre 2016 e 2018). Quais foram os grandes projetos dele como ministro? A emenda do Teto de Gastos, que teve que passar pelo Congresso; a reforma trabalhista, também; a reforma da Previdência, tinha que passar no Congresso (a proposta não avançou na gestão do ex-ministro).

BBC News Brasil - Apesar de não jogar sozinho, o ministro da Fazenda acaba carregando culpas sozinho?

Traumann - Acho que isso faz parte da descrição do cargo. É um cargo muito poderoso, e as pessoas gostam de poder, então, elas acabam querendo estar ali.

BBC News Brasil - É bem comum vermos, não só no caso do titular do Ministério da Fazenda, a evocação de dualidades como a figura do técnico e a do político. Como essas duas caraterísticas têm permeado o cargo do ministro da Fazenda?

Traumann - No fundo, pelo histórico, os políticos se saem melhor do que os técnicos.

Os técnicos têm uma autoridade de formação que é inegável, mas (têm dificuldade) em função exatamente dessa relação que é necessária com o Congresso, as corporações e a indústria. Isso é um cargo político. É (preciso) cortar verbas sem que as pessoas coloquem barricadas contra. Por que ele vai desagradar. Por natureza, ele o ministro da Fazenda, é aquele que diz não.

BBC News Brasil - Que ministros exemplificam esse perfil mais político?

Traumann - Fernando Henrique Cardoso (ocupou o cargo entre 1993 e 1994) e Antonio Palocci (ministro da Fazenda entre 2003 e 2006) conseguiram usar a experiência prévia na política para jogar o Congresso a favor deles e tinham uma equipe técnica. Então, eles conseguiram se tornar grandes relações públicas, rostos, das decisões.

BBC News Brasil - Mas quais seriam os indicadores desse sucesso dos dois, na sua avaliação?

Traumann - Fernando Henrique assume em 1993 depois que o governo tinha tido três ministros em um ano. Ele assume, consegue formar uma equipe muito boa debaixo dele; consegue uma carta branca do então presidente, Itamar Franco, para fazer o que tinha que ser feito; e consegue aprovar o Plano Real, um plano econômico que deu certo e que mobilizou a base aliada, o PSDB e o PFL.

No caso do Palocci, ele assume em uma situação também muito crítica, pressionado pelo FMI, inflação anualizada com tendência a 20%, dólar acima de R$ 4. Ele adota uma conduta ortodoxa, com dois anos muito duros de economia, e isso lhe deu a capacidade de fazer o país voltar a crescer depois.

Com a política, ele conseguiu conduzir uma equipe técnica para uma política forte de ajuste fiscal.

BBC News Brasil - Já do outro lado, você consegue pensar em algum ministro representativo da sina dos técnicos?

Traumann - Um caso complexo, mas que mostra isso, é o da Zélia Cardoso de Mello (titular da pasta entre 1990 e 1991). Ela assume e impõe o confisco sem o menor traquejo político, de comunicação. Acaba sendo massacrada.

Um outro caso, de um técnico também excelente, é o do Joaquim Levy (ministro em 2015). Assume com um diagnóstico muito preciso do que tinha que ser feito, de ajuste fiscal, e é torpedeado antes de tomar posse. Já tinha gente articulando a derrubada dele, então, em um ano ele ficou ali tentando (se equilibrar). Acaba sendo engolido pelo sistema.

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