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Por que ser 'podre de rico' na China deixou de ser bem visto

Waiyee Yip - BBC News

14/06/2021 07h02

Uma diária de 650 yuans (R$ 520) é suficiente para bancar a alimentação de um dia? Não é, de acordo com Su Mang, ex-editora-chefe da revista Harper's Bazaar China, cujos comentários sobre o assunto durante um reality show causaram uma onda de fúria nas redes sociais chinesas.

"Temos que comer melhor, não posso comer com um padrão tão baixo", acrescentou ela no programa, em que 15 celebridades estão morando juntas. Chocados com seus comentários, internautas apontaram que tem de se virar com diárias de alimentação de menos de R$ 24 por dia.

Embora Su, conhecida como "O Diabo da China Veste Prada", tenha dito que tudo fora um "mal-entendido" ? que os 650 yuans teriam sido o valor do cachê no programa de que participou ? o público não ficou convencido.

"Ela pode tentar explicar, mas a verdade é que as celebridades são elitistas sem perceber", escreveu uma pessoa no Weibo, mais famoso serviço de microblogging da China.

O caso dela é apenas o mais recente em que o público se revolta com uma personalidade por causa de sua riqueza.

No início deste ano, Annabel Yao, a filha mais nova do fundador da gigante de eletrônicos Huawei, Ren Zhengfei, causou indignação na internet quando disse que batalhou para chegar onde está. "Nunca me tratei como uma chamada 'princesa' ... Acho que sou como a maioria das pessoas da minha idade, tive que trabalhar muito, estudar muito, antes de poder entrar em uma boa escola", disse ela em um documentário de 17 minutos anunciando sua carreira como cantora.

Compartilhando o filme em sua conta no Weibo, a jovem de 23 anos, cujo pai tem uma fortuna estimada em US$ 1,4 bilhão (R$ 7,2 bilhões), disse que assinar um contrato com uma empresa de entretenimento foi um "presente especial de aniversário" que ela deu a si mesma.

'Não merecem'

Por anos, os ricos e famosos da China são conhecidos pela ostentação, exibindo seus carros e bolsas de luxo online ? muitas vezes para a inveja de seus seguidores. Mas, cada vez mais, qualquer tipo de exibição de riqueza, intencional ou não, está sendo recebida com hostilidade e desdém.

Pessoas como Su e Yao estão sendo criticadas porque muitos acreditam que as celebridades, assim como os chamados fuerdai - os herdeiros dos novos ricos da China - simplesmente não merecem suas rendas altíssimas.

"Quando se comparam com as celebridades e seus empregos aparentemente 'fáceis', as pessoas notam e reclamam do quanto trabalham e do quanto que recebem", diz Jian Xu, da Universidade Deakin, que pesquisa a cultura da mídia chinesa.

Haiqing Yu, professor de estudos de mídia da Universidade RMIT de Melbourne, na Austrália, acrescenta que "os comentários de Su Mang irritaram as pessoas porque estão revelando algo que a China tenta esconder" ? que algumas pessoas têm demais, enquanto outras sobrevivem com muito pouco.

A diferença de riqueza na China é gritante. Embora a renda média anual do país seja de 32.189 yuans (de R$ 25,8 mil), ou cerca de 2.682 yuans (R$ 2,3 mil) por mês, de acordo com dados oficiais, Pequim agora tem mais cidadãos bilionários do que qualquer outra cidade do mundo.

Segundo o ranking de bilionários globais Hurun Report, os chineses da lista tem fortunas que totalizaram, em 2020, a soma recorde de US$ 1,5 trilhão - o que é, grosso modo, metade do PIB do Reino Unido.

O fato de os ricos ostentarem abertamente sua riqueza é imediatamente mal visto. Embora isso seja comumna maioria das nações com grande desigualdade de renda, a China está em uma posição particular, dizem os especialistas.

Por muito tempo, as pessoas tiveram a impressão de que poderiam alcançar "prosperidade comum" ? algo que o ex-líder supremo Deng Xiaoping disse ser o objetivo, mesmo que isso significasse que certas pessoas e regiões se tornassem ricas primeiro.

"Mas, depois de mais de 40 anos desde a abertura do país, os ricos estão ficando mais ricos, deixando os outros para trás, que ficam desencantados e se sentindo impotentes", acrescentou Xu.

Às vezes, a raiva é exacerbada pelo que Xu chama de "expectativa de que as celebridades contribuam mais (para a sociedade), visto que são publicamente conhecidas e têm um poder simbólico".

No mês passado, por exemplo, houve indignação quando foi revelado que a atriz Zheng Shuang recebia diariamente cerca de 2 milhões de yuans (R$ 1,6 milhão) por um papel na TV, totalizando 160 milhões de yuans (R$ 128 milhões) para todo o projeto.

"Funcionários comuns que ganham 6 mil yuans (R$ 4,8 mil) por mês precisariam trabalhar continuamente por 2.222 anos, provavelmente desde a dinastia Qin, para ganhar isso", escreveu uma pessoa no Weibo.

Mas o público ficou ainda mais irritado porque Zheng já estava imersa em polêmica. No início deste ano, ela se envolveu em uma discussão sobre barriga de aluguel ? que é ilegal na China ? quando ela foi acusada de abandonar dois filhos nascidos de mães de aluguel no exterior após se separar do marido.

Ganhar rios de dinheiro passa a ser um problema para quem deixa de ser considerado um bom modelo de comportamento.

É também por isso que, em 2018, houve pouca simpatia pela atriz Fan Bingbing quando esta foi mantida em prisão domiciliar por sonegação de impostos, embora fosse uma das estrelas mais populares do país.

A arte do humilde fanfarrão

O desprezo pela ostentação também é ligado à noção de que pode sinalizar uma falta de cultura ou educação, dizem especialistas.

À medida que a classe média da China cresceu, os cidadãos urbanos mais instruídos interpretaram a ostentação de riqueza "como falta de sofisticação ou de que a pessoa veio de 'classe baixa'", diz John Osburg, autor de Anxious Wealth: Money and Morality Among China's New Rich (Riqueza ansiosa: dinheiro e moralidade entre os novos ricos da China), acrescentando que também pode ser um sinal de insegurança sobre o papel ocupado na sociedade.

Ainda assim, o apetite do país por luxo não vai desaparecer tão cedo. De acordo com a empresa de pesquisa de mercado Euromonitor International, a China ultrapassou o Japão como o principal mercado de luxo pessoal na Ásia-Pacífico e espera-se que o crescimento das vendas volte aos níveis pré-pandêmicos até o final do ano.

Para os ricos, a chave, então, está em poder indicar sucesso mas de uma forma mais discreta.

Yu observa como, para alguns, isso gerou um movimento de "ostentação humilde". "Alguns dos ricos agora tentam se exibir de forma velada, em vez de apenas mostrar fotos de bens materiais", disse ela.

Por exemplo, a influenciadora MengQiqi77 ? conhecida por compartilhar atualizações regulares de seu estilo de vida luxuoso ? uma vez "reclamou" no Weibo sobre a carência de postos de recarga de carros elétricos em seu bairro.

"Portanto, não tivemos escolha a não ser nos mudar para uma casa maior com garagem privada para o Tesla do meu marido", escreveu ela.

Em outra ocasião, ela comentou que seu marido tinha sido "pão duro" ao escolher usar um terno de cashmere Zegna que custava "apenas 30 mil yuans (R$ 24 mil)".

Claro, não demorou muito para que essas postagens também gerassem críticas e piadas por parte dos internautas.

Parece que não há solução fácil para os ricos e famosos da China.


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