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Inflação: Por que os preços nos EUA dispararam para o nível mais alto em 3 décadas

Consumidores americanos fora de um mercado com carrinhos cheios de compras - Getty Images
Consumidores americanos fora de um mercado com carrinhos cheios de compras Imagem: Getty Images

11/11/2021 08h39

O custo de vida nos Estados Unidos disparou.

A taxa de inflação em outubro chegou a 6,2% no acumulado dos últimos 12 meses, o valor mais alto registrado no país em 30 anos, segundo o órgão de estatísticas do governo americano. Em comparação, o índice no Brasil já está em 10,25%.

Alimentos, combustíveis, automóveis e habitação são alguns dos produtos cujos aumentos de preços impulsionaram este recorde histórico nos EUA.

Como no Brasil, o aumento da inflação tem sido uma preocupação crescente para os consumidores à medida que o poder de compra diminui. Produtos como carne, peixe e ovos subiram mais do que outros alimentos, e os preços da gasolina atingiram o pico nos últimos sete anos.

A inflação está acelerando à medida que a economia se recupera dos efeitos da pandemia de covid-19, o consumo da população aumenta e os gargalos persistem nas cadeias de abastecimento que afetam o fluxo normal de produtos em nível global.

Questionado sobre a inflação, o presidente americano, Joe Biden, disse que reduzir o índice é uma de suas "principais prioridades".

Mas o que está por trás dessa alta e o que pode ser feito para tentar contê-la?

Problema com múltiplos fatores

Em entrevista à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC), Elijah Oliveros-Rosen, economista sênior da consultoria S&P Global Ratings, afirmou que o salto inflacionário "foi influenciado pelos preços dos produtos de energia", bem como pelos gargalos no fluxo global de produtos, aumento das commodities e o alto custo de moradia.

"Os preços da energia devem continuar subindo nos próximos meses, mas, ao mesmo tempo, o impacto dos gargalos nas cadeias de abastecimento deve diminuir", acrescentou.

É o que sente na pele a americana Bessy Clarke, em relação ao preço da gasolina. "Em geral, toda semana, ele vai cada vez mais alto." Ela costumava gastar US$ 23 (R$126) para encher seu tanque e agora não consegue fazer isso por menos de US$ 30 (R$ 164), cerca de 30% de aumento.

"Estou pensando em como limitar meus deslocamentos", diz a garçonete de Nova Orleans, que também enfrenta alta do preço da comida. "Mesmo no restaurante onde trabalho, o preço da carne subiu e agora temos que repassar esse preço para o consumidor."

No Brasil, com o encarecimento da gasolina (por diversos fatores, incluindo a alta do dólar e a instabilidade política), o preço médio do combustível aumentou quase 40% nos últimos 12 meses, segundo dados oficiais do governo brasileiro. O etanol subiu 65%.

Outro fator que tem contribuído para o aumento da inflação nos EUA é a escassez de trabalhadores, situação que tem feito subir os salários em alguns setores da economia, levando empresas a repassar a alta do custo para os produtos comercializados.

O número de pessoas deixando seus empregos indica que os salários vão subir a uma taxa anual entre 4% e 4,5%, escreveu Michael Pearce, economista da consultoria Capital Economics.

Os americanos estão deixando seus empregos a uma taxa recorde que atingiu 4,3 milhões de pessoas em agosto, quase 3% da força de trabalho. É um fenômeno conhecido como "a grande renúncia", outra das consequências econômicas deixadas pela pandemia.

Há também a falta de produtos, causada por problemas nas cadeias de abastecimento em todo o mundo durante a pandemia. O consenso entre os especialistas da área é que a chamada "crise dos contêineres" não será totalmente resolvida até o próximo ano. E os mais pessimistas acreditam que pode se estender até o início de 2023.

O problema é que o aumento da inflação, as dificuldades no mercado de trabalho e a escassez de alguns produtos "são problemas interligados", disse David Wilcox, pesquisador do Peterson Institute for International Economics em Washington, em entrevista à BBC News Mundo.

Aumento de juros entre as consequências

Além de aumentar o custo de vida dos cidadãos comuns e tornar as operações comerciais mais caras, a inflação recorde pressiona o Banco Central americano (Fed) para aumentar as taxas de juros antes do previsto.

"As taxas de juros conseguem conter um pouco essa piora (do cenário inflacionário) ao segurar a atividade econômica e os preços", explicou o economista Silvio Campos Neto, da consultoria Tendências, à BBC News Brasil. Isso porque, ao elevar os custos do crédito, elas fazem as empresas e consumidores gastarem menos e os estimula a poupar mais - uma vez que o dinheiro poupado é remunerado a uma taxa de juros maior.

O Fed, responsável pela política monetária da maior economia do mundo, anunciou um aumento das taxas de juros (o custo do dinheiro) para o próximo ano. E, em paralelo, deu início a uma redução gradual de seu programa de compra de títulos, lançado para apoiar a economia após a crise causada pela pandemia.

A expectativa de analistas do mercado financeiro é de que, por conta das pressões inflacionárias, o Fed possa antecipar a alta das taxas, movimento que influencia diretamente os mercados financeiros e a economia global.

Por enquanto, a meta do Fed é se aproximar de seu objetivo de manter a inflação em uma faixa flexível em torno de 2%. Lembrando que atualmente ela está em torno de 6%.

"O aumento da inflação é preocupante, mas temos que ter calma, porque não é um indício de que veremos uma escalada permanente", avaliou Hugo Osorio, subgerente de Estratégias de Investimento da empresa Falcom Asset Manager, em entrevista à BBC News Brasil.

Segundo análises divulgadas pelo Fed, as pressões inflacionárias atuais são "transitórias", o que justificaria sua decisão de não antecipar uma alta do custo do dinheiro. No entanto, outros economistas estão céticos e argumentam que o aumento da inflação será mais permanente.

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