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Por dentro da mansão de R$ 100 milhões da 'rainha das criptomoedas' em Londres

O quadro Lenin Vermelho, de Warhol, fica sobre a lareira - Knight Frank
O quadro Lenin Vermelho, de Warhol, fica sobre a lareira Imagem: Knight Frank

17/11/2021 11h23Atualizada em 17/11/2021 11h52

O julgamento de um caso de lavagem de dinheiro na Alemanha revelou detalhes sobre a compra de uma cobertura de luxo em Londres por uma grande estelionatária de criptomoedas.

No podcast "The Missing Cryptoqueen" (A Rainha das Criptomoedas Desaparecida, em tradução livre), produzido pela BBC, os repórteres Jamie Bartlett e Rob Byrne explicam como a criminosa Ruja Ignatova explorou os serviços de advogados e gestores de bens no Reino Unido — que continuaram a oferecer seus serviços mesmo depois que ela sumiu. Ela segue desaparecida.

Um ex-porteiro do prédio de apartamentos de luxo Abbots House no bairro de Kensington, em Londres, relembra como ele conheceu a Dra. Ruja Ignatova em 2016, quando ela retornava de uma viagem de compras com seus dois guarda-costas búlgaros.

"Os pobres homens vinham atrás dela como burros de carga, com dificuldade e um tanto ofegantes — eles deviam estar carregando 20 sacolas cada um", conta James (seu nome fictício).

Ignatova vinha esbanjando dinheiro com produtos de marca — Jimmy Choo, Prada e Calvin Klein — sem se importar com as despesas.

Pouco depois, James deu uma olhada no interior do apartamento de cobertura de Ignatova, com quatro quartos, completo com piscina.

"Ela tinha um quadro de Andy Warhol jogado no armário e isso partiu meu coração, porque fui aluno em uma escola de artes", relembra o ex-policial.

Era um retrato da atriz Elizabeth Taylor. Outro quadro de Warhol, o Lenin Vermelho, ficava na parede, em cima da lareira. À esquerda de um sofá, em outra sala de estar, ficava uma cópia do quadro Queen Bubblegum (Rainha Chiclete, em tradução livre) de Michael Moebius, que mostra a Rainha Elizabeth 2ª soprando uma bola de chiclete.

A revista britânica Private Eye estimou posteriormente que o apartamento continha obras de arte no valor de 500 mil libras (R$ 3,75 milhões), adquiridas na Galeria Halcyon, de Londres. O apartamento é avaliado em 13,5 milhões de libras (R$ 100 milhões).

James se perguntava se Ignatova estava deliberadamente transformando seu dinheiro suspeito em bens que pudessem ser facilmente movimentados, para evitar que eles fossem confiscados.

No dia 17 de setembro, o advogado alemão de Ignatova, Martin Breidenbach, foi a julgamento em Münster, na Alemanha, acusado de lavagem de dinheiro por transferir 20 milhões de euros (R$ 128 milhões) para um escritório de advocacia em Londres para financiar a compra do imóvel de luxo.

Duas outras pessoas também foram para o banco dos réus, enfrentando acusações ligadas ao desvio de milhões de euros das atividades fraudulentas de Ignatova, que totalizaram 4 bilhões de euros (R$ 25,6 bilhões). A operação consistia em vender algo que não existia: uma criptomoeda falsa, chamada por ela de OneCoin.

Quando a compra foi assinada, em agosto de 2016, reguladores financeiros de pelo menos um país europeu já haviam emitido avisos sobre a OneCoin. Alguns meses antes, Ignatova havia se declarado culpada de fraude e outras acusações em um tribunal alemão, depois da falência de uma fábrica de metais que ela havia comprado, deixando 150 pessoas desempregadas em 2011.

Mas isso não era conhecido pelo grande público.

Advogados da Locke Lord — escritório de advocacia norte-americano com escritório em Londres — expressaram preocupação sobre a origem dos 20 milhões de euros sendo transferidos. Essa preocupação ficou evidente nos e-mails internos revelados posteriormente em uma ação judicial nos EUA.

O prédio Abbots House, no bairro de Kensington, em Londres - Google - Google
O prédio Abbots House, no bairro de Kensington, em Londres
Imagem: Google

Mas as empresas de Ignatova foram aprovadas nas análises de compliance do escritório, de forma que os advogados procederam à compra do imóvel, em conjunto com o Grupo Aquitaine, uma companhia da ilha de Guernsey (dependência britânica no Canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França) que oferece serviços de paraíso fiscal a clientes abastados.

A cobertura havia sido reformada pela incorporadora de imóveis de luxo Candy & Candy depois de um incêndio ocorrido quando era a residência londrina da cantora Duffy. O corretor do imóvel foi Knight Frank. Mas a compradora do apartamento permaneceu desconhecida do público, graças ao sigilo do paraíso fiscal britânico.

Segundo a escritura do imóvel, o proprietário é a Abbots House Penthouse Limited — uma das 12 mil empresas de fachada de Guernsey com proprietários anônimos que detêm propriedades na Inglaterra e no País de Gales — o que significa que o nome de Ignatova não precisaria aparecer na escritura britânica, nem nos registros públicos da Ilha do Canal.

Outras empresas de Guernsey foram indicadas como diretores (ou "representantes") e, dois meses depois que a oferta de Ignatova foi aceita, a Aquitaine foi relacionada como o "agente local" da companhia em Guernsey. Simultaneamente, o endereço da Locke Lord em Londres foi mencionado nos documentos da cobertura no registro de imóveis.

Aparentemente, isso foi suficiente para ocultar da polícia londrina a compra do imóvel por Ignatova. Em setembro de 2019, a polícia de Londres informou aos investidores da criptomoeda OneCoin, vítimas da fraude, que "não conseguiu identificar nenhum ativo da OneCoin no Reino Unido".

A verdade somente foi revelada dois meses mais tarde, em e-mails lidos no julgamento por lavagem de dinheiro de um ex-funcionário da Locke Lord nos EUA, Mark Scott.

Alguns moradores da região afirmam que se lembram da sua infame ex-vizinha, mas soubemos que ela permaneceu lá apenas por um curto período, em 2016.

Naquele ano, Ignatova aparentemente estava se preparando para fincar raízes em Londres. Ela abriu um escritório no sofisticado edifício em 1 Knightsbridge (a 1 km do Palácio de Buckingham) e comemorou seu 36º aniversário com uma festa suntuosa no Victoria & Albert Museum. Também soubemos que ela estava planejando matricular sua filha em uma escola particular do Reino Unido algum dia.

Ruja Ignatova comemorando seu aniversário no Victoria & Albert Museum, em Londres - OneCoin - OneCoin
Ruja Ignatova comemorando seu aniversário no Victoria & Albert Museum, em Londres
Imagem: OneCoin

Mas a maior parte dos 650 m² da "cobertura definitiva", como descreveu a Candy & Candy, permaneceu vazia. Até onde sabemos, Ignatova não visitou seu apartamento em Kensington em 2017 — até que, em 25 de outubro daquele ano, ela embarcou em um voo da Ryanair de Sófia, na Bulgária, para Atenas, na Grécia, e desapareceu da face da Terra.

James, o antigo porteiro, costumava visitar o apartamento diariamente para ventilá-lo. "Parecia uma estufa", segundo ele. O calor do verão e a luz direta empenaram as portas e desbotaram as valiosas obras de arte. Às vezes, ele espantava pombos que entravam por uma porta que não fechava completamente.

Outras pessoas relacionadas à OneCoin às vezes vinham se hospedar no apartamento. Em julho de 2018, o irmão de Ignatova, Konstantin — que assumiu como chefe da operação fraudulenta alguns meses depois do desaparecimento da titular — postou uma selfie tirada no interior da cobertura.

Konstantin, irmão da Dra. Ruja Ignatova, em foto tirada dentro da mansão - Konstantin Ignatov - Konstantin Ignatov
Konstantin, irmão da Dra. Ruja Ignatova, em foto tirada dentro da mansão
Imagem: Konstantin Ignatov
O divã onde Konstantin, irmão da Dra. Ruja, tirou a selfie acima - Knight Frank - Knight Frank
O divã onde Konstantin, irmão da Dra. Ruja, tirou a selfie acima
Imagem: Knight Frank

James também se lembra de visitas de amigos de Konstantin e identificou Frank Schneider, chefe de segurança de Ignatova, como outro visitante que passou algum tempo na cobertura depois que ela desapareceu.

Konstantin foi preso no aeroporto internacional de Los Angeles, nos EUA, no dia 6 de março de 2019, acusado de formação de quadrilha. Já Schneider, ex-chefe da agência de espionagem de Luxemburgo, foi detido na França em abril deste ano, a pedido de autoridades norte-americanas. Espera-se uma decisão sobre a sua extradição ainda este mês.

James conta que Schneider estava tentando organizar a venda da cobertura, mas nossas fontes informaram que ela acabou sendo alugada.

Fotografias de um anúncio de aluguel de 2019, também com Knight Frank, mostram o Lenin Vermelho ainda sobre a lareira. Não há sinal do retrato de Liz Taylor, mas um olhar atento pode identificar o rosto da própria Ruja Ignatova em um prato especial, que foi presente de um dos seus principais promotores. Ficamos sabendo que ela odiava o prato.

A cozinha e o prato com o retrato da Ruja Ignatova. Conta-se que ela o odiava - Knight Frank - Knight Frank
A cozinha e o prato com o retrato da Ruja Ignatova. Conta-se que ela o odiava
Imagem: Knight Frank

Enquanto o apartamento estava sendo preparado para aluguel, representantes da Aquitaine entravam e saíam dele. Um deles trocou as fechaduras. Um antigo funcionário de Ignatova conta que outro carregou sacos de objetos de luxo.

O escritório de advocacia Locke Lord também continuou a oferecer seus serviços para Ignatova muito depois do seu desaparecimento.

Uma carta aceita como prova no julgamento do ex-funcionário Mark Scott nos EUA demonstrou que, em 12 de julho de 2018, o sócio do escritório londrino da empresa James Channo escreveu para Ignatova sobre suas propriedades no Reino Unido.

"Acreditamos que é importante rever a forma de manter seus interesses imobiliários no Reino Unido", escreveu ele.

A carta, endereçada à Ignatova em um endereço em Sófia, foi enviada dois meses antes da prisão de Scott em 2018, nove meses depois do súbito desaparecimento dela e 22 meses depois que a Financial Conduct Authority (FCA, o órgão regulador financeiro do Reino Unido) publicou uma advertência a potenciais investidores, revelando que a polícia de Londres estava investigando a OneCoin. Investigações sobre a OneCoin ou suas companhias afiliadas haviam também sido anunciadas em diversos outros países.

Para definir o escopo do trabalho que ele gostaria de fazer por 600 libras (R$ 4,5 mil) por hora, Channo também enviou versões por e-mail para Konstantin e para Frank Schneider, sempre salientando que a comunicação por e-mail "não era totalmente segura".

A carta não continha detalhes específicos sobre as propriedades no Reino Unido, mas Channo alertou a Ignatova sobre a necessidade de reavaliar suas holdings de propriedades no Reino Unido, "considerando questões como impostos, máxima discrição possível da holding e simplicidade de estrutura".

A incorporadora a descreveu como a"cobertura definitiva"; e a piscina tem teto retrátil - Candy - Candy
A incorporadora a descreveu como a"cobertura definitiva"; e a piscina tem teto retrátil
Imagem: Candy

Uma declaração da Locke Lord e de James Channo afirma que a carta era uma oferta de serviços jurídicos "em formato padrão", que foi revelada pela Locke Lord para os promotores norte-americanos e não resultou na realização de trabalhos para Ignatova.

Um trecho interessante da carta confirmou a informação recebida das nossas fontes — que a cobertura não era a única propriedade da estelionatária no Reino Unido. No quinto andar da Abbots House, existe um apartamento de dois quartos menos luxuoso que, segundo o ex-porteiro James, hospedava os guarda-costas dela.

Os registros do Reino Unido mostram que o proprietário de 11 Abbots House também é uma companhia de fachada de Guernsey, a Abbots Property Limited, também registrada no endereço da Aquitaine.

O apartamento menor também foi comprado em 2016, por 1,9 milhão de libras (R$ 14,25 milhões). O nome da Dra. Ruja Ignatova também foi excluído da documentação, mas nossas fontes afirmam que era ela quem estava por trás da aquisição.

Questionada pela BBC sobre seus negócios com Ignatova, a Aquitaine respondeu que não faria comentários a respeito.

Após o desaparecimento de Ignatova, o endereço de 11 Abbots House aparentemente serviu para uma outra função: a de depósito secreto que, segundo nossas fontes, chegou a abrigar dois grandes cofres.

Soubemos que ele era o primeiro destino de objetos de valor recolhidos às pressas da cobertura pelos funcionários da criminosa, com a ajuda de um funcionário da Aquitaine, antes de ser alugada.

O local para onde foram transportadas as roupas de luxo, joias, sapatos e parte das obras de arte permanece um mistério — como quase tudo relacionado a ela.

Um ex-funcionário conta que seus sapatos Louboutin, "muito cobiçados", provavelmente foram doados para caridade, mas ele não sabia informar o destino de todos os seus pertences.

É possível que algumas respostas sejam conhecidas no outro lado do Canal da Mancha, na ilha de Guernsey.

A existência dessas propriedades em Londres é uma notícia interessante para milhões de vítimas da fraude da OneCoin, que pedem a venda dos bens da Dra. Ruja para que seus rendimentos sejam distribuídos entre os investidores.

Mas as complexas estruturas de propriedade — das quais as empresas de fachada de Guernsey podem ser apenas o princípio —poderão dificultar a obtenção de provas de que Ruja Ignatova é a proprietária legal.

Desde o megavazamento de dados conhecido como Pandora Papers, militantes vêm clamando repetidamente pelo registro dos proprietários de offshores, que foi prometido pelo governo do Reino Unido, mas ainda não executado. Em 2019, após pressão dos parlamentares, Guernsey e outras dependências britânicas se comprometeram a publicar os nomes dos proprietários de companhias sediadas nas suas jurisdições, mas não antes de 2023.

A defensora das vítimas, Jen McAdam, afirma que a notícia de que advogados, gerentes de bens de offshores e corretores de imóveis no Reino Unido estavam envolvidos na compra de imóveis em Londres pela Dra. Ruja Ignatova encheu-a de raiva e repulsa.

"É quase certo que essas propriedades foram compradas com o dinheiro das vítimas da OneCoin que passaram os últimos cinco anos enfrentando sofrimento emocional inimaginável e imensas perdas financeiras", afirma ela. "Agora não é hora das companhias manterem silêncio sobre o seu envolvimento. Agora é a hora delas serem abertas, transparentes e contarem a verdade. Nós queremos respostas."

A BBC estima que os investidores perderam mais de 100 milhões de libras (R$ 750 milhões), somente no Reino Unido.

Jen McAdam também criticou a polícia londrina por encerrar sua investigação sobre a OneCoin em setembro de 2019 sem apresentar nenhuma acusação.

Um porta-voz da polícia comentou: "A força [policial] forneceu assistência aos colegas estrangeiros responsáveis pela aplicação da lei sobre suas investigações e continuará a fazê-lo. Aconselhamos aos investidores com os quais interagimos a entrar em contato direto com as organizações de aplicação da lei correspondentes."

Os advogados de James Channo e da Locke Lord (o escritório de advocacia empregado por Ruja Ignatova na compra dos imóveis de Kensington) salientaram que a OneCoin nunca havia sido seu cliente. Eles afirmaram que o trabalho de Mark Scott para a OneCoin era independente da Locke Lord, que só tomou conhecimento desse trabalho depois que Scott foi acusado de lavagem de dinheiro, quase dois anos após sua saída da empresa.

O corretor de imóveis Knight Frank declarou à BBC: "Nós sempre cumprimos com nossas obrigações legais e regulamentares ao conduzir transações financeiras e, quando necessário, interagimos com as autoridades competentes".

O advogado alemão da Dra. Ruja Ignatova, Martin Breidenbach, nega a acusação de lavagem de dinheiro. Estima-se que seu julgamento se prolongue até o mês de maio.

Você pode ouvir o podcast "The Missing Cryptoqueen" (em inglês) no site BBC Sounds. A busca pela Dra. Ruja Ignatova continua e novos episódios do podcast estão previstos para 2022.

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