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'Londongrado': como Londres se converteu no principal destino dos oligarcas russos

26/03/2022 11h18

No coração do luxuoso bairro de Belgravia, no centro de Londres, existe um lugar conhecido por alguns como "Praça Vermelha".

Com suas elegantes mansões de cinco andares e impecáveis jardins particulares com quadras de tênis, Eaton Square não se parece em nada com a famosa praça de Moscou, na Rússia. Mas as duas praças têm um ponto em comum: a grande quantidade de cidadãos russos que frequentam os dois lugares.

Há mais de uma década, a elite russa vem monopolizando a região, comprando propriedades de milhões de dólares em Eaton Square e em muitos outros endereços privilegiados da capital britânica. Considerada um dos bairros mais exclusivos de todo o mundo, Belgravia converteu-se, em meados de março, no centro dos protestos londrinos contra o dinheiro russo no Reino Unido, depois que um grupo de manifestantes ocupou uma mansão em Belgrave Square n° 5.

Avaliada em dezenas de milhões de dólares, a propriedade pertenceria a Oleg Deripaska, um oligarca aliado do presidente russo Vladimir Putin que sofreu sanções do governo britânico depois da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Do balcão da opulenta mansão, um dos manifestantes afirmou aos jornalistas que eles queriam usar o edifício para dar refúgio aos ucranianos obrigados a abandonar seu país devido à guerra.

"Exigimos que esta propriedade passe a pertencer aos refugiados ucranianos. Suas casas foram destruídas e essa pessoa [Deripaska] apoiou a guerra", declarou o jovem.

Os manifestantes descreveram a mansão como "asquerosamente luxuosa", detalhando que ela tem cerca de 200 quartos com "muitas coisas de que um ser humano normal nunca precisaria", incluindo um cinema e várias obras de arte.

'O sistema jurídico britânico foi a principal motivação'

A organização anticorrupção Transparência Internacional identificou pelo menos 1,5 bilhão de libras (US$ 2 bilhões ou R$ 9,8 bilhões) em propriedades no Reino Unido pertencentes a cidadãos russos com fortunas inexplicadas, ou vinculados ao Kremlin.

Mas os milionários russos não compraram apenas mansões por toda a cidade de Londres, mas também clubes de futebol da Premier League (a primeira divisão inglesa), como o Chelsea, grandes fazendas na Escócia e até meios de comunicação, como o jornal London Evening Standard.

Mark Hollingsworth, autor do livro Londongrad: From Russia with Cash - The Inside Story of the Oligarchs ("Londongrado: da Rússia com dinheiro - a história secreta dos oligarcas", em tradução livre), afirma que tudo começou no final da década de 1990.

"Depois que ganharam muito dinheiro com as privatizações, oligarcas como Mikhail Khodorkovsky quiseram retirar seu dinheiro da Rússia porque temiam ser perseguidos ou que suas fortunas fossem confiscadas", afirmou ele à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC). "Eles então transferiram o dinheiro para companhias offshore, depositários offshore e para outras jurisdições. Por fim, o dinheiro chegou a Londres, com a compra de propriedades, investimentos e contas bancárias."

"Sou muito aberta ao dizer que, por tempo demais, Londres foi o lugar aonde as pessoas vinham lavar dinheiro sujo", segundo admitiu recentemente a ministra do interior do Reino Unido, Priti Patel.

Os especialistas afirmam que os oligarcas russos vieram em duas ondas. A primeira foi a partir de 1990, durante o governo do então presidente russo Boris Yeltsin. Companhias estatais foram vendidas na época a baixos preços para um seleto grupo de magnatas em troca de benefícios.

Já a segunda onda foi impulsionada por Vladimir Putin com contratos com o Estado russo. No início dos anos 2000, muitos oligarcas temiam ser perseguidos por Putin - como viria a ocorrer com Khodorkovsky, que era o homem mais rico da Rússia e um dos mais ricos do mundo, segundo a revista norte-americana Forbes. Mas grande parte do seu poderio econômico evaporou da noite para o dia, quando ele foi acusado pelo governo russo de fraude e sonegação de impostos durante a década de 1990.

Khodorkovsky passou quase uma década na prisão e vive atualmente no exílio. Ele afirma que foi vítima de um grupo de funcionários corruptos, sob liderança de Putin. Eles temiam suas ambições políticas e queriam repartir entre si seu império empresarial.

Mark Hollingsworth explica que, para evitar perseguições políticas, os oligarcas consideravam que Londres era o melhor lugar para guardar seu dinheiro e mantê-lo seguro. Se as autoridades russas pedissem a extradição de algum deles, seus advogados sabiam que o Reino Unido não os repatriaria à Rússia porque eles não teriam um julgamento justo.

"Acredito que o sistema legal britânico foi a principal motivação para que muitas pessoas colocassem seu dinheiro neste país", acrescenta Hollingsworth, que também é jornalista investigativo. Naquela época, já havia em Londres muitos advogados, corretores de imóveis, banqueiros, consultores e contadores oferecendo ajuda para que os oligarcas pudessem movimentar e ocultar seu dinheiro na capital britânica.

A compra do clube de futebol Chelsea por Roman Abramovich em 2003 atraiu a atenção de muitas pessoas no Reino Unido. As pessoas começaram a se perguntar quem eram os oligarcas e de onde vinha o seu dinheiro.

Legado imperial

O professor de Direito da Universidade de Londres Kojo Koram argumenta que o "dinheiro sujo" estrangeiro na capital britânica vem de muito antes dessa época.

Em janeiro de 2022, Koram publicou seu livro Uncommon Wealth: Britain and the Aftermath of Empire ("Riqueza incomum: o Reino Unido e as sequelas do império", em tradução livre). O livro explica como o legado imperial do Reino Unido influenciou seus sistemas legais e financeiros.

"Londres abriu as portas à riqueza não apenas dos oligarcas russos, mas também aos da Arábia Saudita, da Nigéria e aos multimilionários chineses. Todos usam Londres como porta para o mundo offshore, devido à forma como a cidade se reposicionou após o declínio do império britânico", declarou ele à BBC News Mundo.

"Isso pode também ser observado no conjunto de territórios britânicos de ultramar: nas ilhas Cayman, nas Ilhas Virgens Britânicas e nas Bermudas, que são atualmente três dos principais paraísos fiscais do mundo", acrescenta Koram.

O polêmico esquema de 'vistos dourados'

Muitos oligarcas russos chegaram ao Reino Unido mais recentemente, graças a um sistema de "vistos dourados" que foi suspenso pelo governo britânico em fevereiro deste ano, depois de muita pressão interna e internacional sobre os vínculos econômicos entre Londres e a oligarquia russa.

Em 2008, o governo britânico abriu oficialmente as portas do país para milhares de multimilionários de todo o mundo, criando o esquema de vistos chamado em inglês de Tier 1, outorgado a empreendedores que investissem 1 milhão de libras (US$ 1,4 milhão, R$ 6,5 milhões) no país. Em 2014, esse montante foi elevado para 2 milhões de libras (R$ 13 milhões).

O programa permitia que os titulares desses vistos solicitassem residência permanente no Reino Unido, junto com suas famílias. E a rapidez na concessão da residência dependia do montante de dinheiro investido: dois anos para quem investisse 10 milhões de libras (US$ 13,6 milhões, R$ 65 milhões), três anos para 5 milhões de libras (R$ 32,5 milhões) e cinco anos para quem investisse 2 milhões de libras.

Outros países europeus, como a Espanha, Grécia e Portugal, oferecem sistemas similares com menos investimento. A Espanha, por exemplo, exige o desembolso de apenas 500 mil euros (US$ 552 mil, R$ 2,7 milhões) na aquisição de um ou mais imóveis em solo espanhol, em troca de um visto dourado. Mas, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, tanto a Espanha quanto Portugal e a Grécia suspenderam a emissão de vistos dourados para cidadãos russos.

Dados do Ministério do Interior do Reino Unido indicam que foram emitidos 2.581 vistos de investidor para cidadãos russos desde a introdução do programa.

"O sistema de vistos dourados fez com que tudo se tornasse muito mais fácil. Tudo o que os oligarcas precisavam fazer era comprar uma propriedade por dois milhões de libras em Londres ou em Surrey [sudeste da Inglaterra]", explica Mark Hollingsworth. "Na verdade, foi dada a eles a oportunidade comprar seu ingresso no Reino Unido - e, para a maioria dos oligarcas, cinco milhões de libras não é muito", acrescenta ele.

Recebidos 'de braços abertos'

Depois de investigar por dois anos a interferência russa no país, o comitê de inteligência do Parlamento britânico publicou em 2020 um relatório assegurando que a influência russa no Reino Unido é o "novo normal".

"Os sucessivos governos receberam os oligarcas russos e seu dinheiro de braços abertos e existem muitos cidadãos russos com vínculos muito próximos a Putin que estão bem integrados no cenário comercial, político e social, particularmente em 'Londongrado'." O relatório acrescenta que poucas perguntas foram feitas sobre a origem das consideráveis fortunas.

Outro informe publicado dois anos antes pelo Comitê de Assuntos Exteriores do Parlamento concluiu que o Reino Unido simplesmente "fez vistas grossas" para a lavagem de "dinheiro sujo" russo através de Londres.

Hollingsworth concorda que o governo britânico preferiu ignorar o problema e simplesmente decidiu ser "complacente". "Foi preciso ocorrer uma guerra para que o governo britânico se ocupasse dos oligarcas e de Londongrado", lamenta ele.

Koram, da Universidade de Londres, acredita que o governo ignorou esse tema por muito tempo porque considerava que seria economicamente benéfico para o Reino Unido.

"Eles achavam que, como o Reino Unido é um grande centro legal e financeiro, seria possível o trânsito de enormes somas de dinheiro por todo o país e pelos seus territórios de ultramar", assinala ele. "Mas não é assim para os britânicos comuns. Uma das consequências dessa posição do Reino Unido como um tipo de centro offshore foi o aumento dos preços de moradia no país, especialmente na capital."

Será o fim de Londongrado?

Depois que Londres impôs sanções a mais de mil pessoas e entidades russas, incluindo mais de 50 oligarcas e suas famílias, com patrimônio líquido combinado de 100 bilhões de libras (R$ 650 bilhões), muitas pessoas acreditam que este poderá ser o fim de Londongrado.

Entre os que sofreram sanções, encontram-se o dono do clube de futebol Chelsea, Roman Abramovich, bem como o oligarca Oleg Deripaska e o presidente do banco russo VTB Andrey Kostin. Eles tiveram seus bens no Reino Unido congelados.

O governo britânico os descreve como indivíduos "cujos impérios comerciais, riqueza e conexões possuem estreita associação com o Kremlin", vínculo este que foi negado por Abramovich.

"A maioria dos oligarcas nunca morou fisicamente em Londres, mas eles tinham seus bens e dinheiro aqui. Passavam tempo aqui, educavam seus filhos aqui... mas essas sanções marcam o fim de Londongrado", opina Hollingsworth. "Com tanta hostilidade contra eles e contra os empresários russos que apoiam Putin, eles agora sabem que precisam se mudar e esconder seu dinheiro em outro lugar."

Já Kojo Koram acredita que o governo britânico precisa ir mais longe. "É preciso que haja uma mudança real. Não só mudanças legais, mas também com relação à atitude política que convida o dinheiro estrangeiro, além de mudanças no enfoque do Reino Unido com relação aos seus territórios de ultramar", afirma ele.

É possível, como afirma Koram, que Londres continue recebendo fortunas de procedência duvidosa de todo o mundo. Mas, para os oligarcas russos que costumavam frequentar os restaurantes mais luxuosos de Mayfair, no centro de Londres, e passear nos jardins privados de Belgravia, o "sonho britânico" de Londongrado ou de Moscou-sobre-o-Tâmisa, como também é conhecida, parece ter chegado ao fim com a chamada "guerra de Putin".


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