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Opinião: O que o relatório de empregos precisa mostrar

Mohamed A. El-Erian

03/03/2016 14h14

(Bloomberg View) - Para resistir aos ventos contrários da desaceleração do crescimento mundial e da persistente volatilidade financeira, o relatório de empregos dos EUA que será publicado na sexta-feira (4) precisa mostrar a continuidade de uma criação de empregos sólida, um maior crescimento salarial e uma indicação de que a porção ativa da força de trabalho está em alta.

Isso é também o que os mercados exigem com o tempo, mesmo que implique um panorama ainda mais confuso para os responsáveis monetários do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e a volatilidade financeira que poderia resultar.

Um total de 150 mil ou mais empregos novos consolidaria uma impressionante sequência de dois anos e meio de criação de empregos que ajudou a reduzir a taxa de desemprego, normalmente mais acompanhada, para 4,9% --uma queda de mais da metade em relação ao valor registrado no auge depois da crise - e tornou os EUA um dos principais motores da geração de empregos do mundo.

Esse crescimento impressionante dos empregos não se traduziu, de modo geral, em salários significativamente mais altos, pelo menos até agora.

O relatório de empregos referente a janeiro, publicado no mês passado, sugeriu que isso talvez esteja mudando.

A confirmação dessa melhoria em termos de salários, junto com a recuperação gradual da proporção ativa da força de trabalho, é fundamental: ela impulsionaria o aumento do consumo para ancorar a economia dos EUA, que investe mais e cujo impulso interno é suficiente para superar a desaceleração da China, o crescimento contido da Europa e do Japão e também a contaminação adversa das crises recentes provocadas pela instabilidade dos mercados financeiros.

As autoridades do Fed também esperam esses três elementos favoráveis no relatório de sexta-feira, embora ao custo de tornar ainda mais delicadas e finamente equilibradas suas decisões de política econômica para o curto prazo.

Especificamente, as melhorias mais abrangentes do mercado de trabalho estimulariam o banco central a dar continuidade a seu cuidadoso processo de normalização da política econômica, o que incluiria dois outros aumentos de 25 pontos-base neste ano - embora o ambiente internacional não esteja nada receptivo.

As Bolsas, especialmente no início, talvez não aceitem que o Fed esteja de novo em ação.

Afinal, elas se tornaram bastante dependentes do apoio contínuo à liquidez dos bancos centrais, sistemicamente importantes, de todo o mundo (em particular o Fed, o Banco Central Europeu e o Banco Popular da China).

No entanto, no longo prazo, fundamentos econômicos e corporativos sólidos serão os motores que possibilitarão que os mercados acionários dos EUA mantenham os níveis atuais e subam.

De fato, talvez eles tenham se tornando a única coisa capaz de proteger e fomentar as ações de modo sustentável.

Isso é especialmente verdade agora que medidas monetárias pouco convencionais e outros tipos de engenharia financeira parecem estar cada vez mais esgotados, que o "capital paciente" está menos disponível e que uma quantidade cada vez maior de bancos centrais parece mais preocupada com os danos colaterais e consequências imprevistas do prolongado excesso de dependência de medidas experimentais para fomentar a liquidez.

Não importa o que alguns dizem sobre as possíveis inconsistências no curto prazo entre um relatório de empregos forte e um mercado acionário que é altamente dependente dos bancos centrais: realmente existe um alinhamento significativo no longo prazo.

Uma melhoria desses três aspectos no mercado de trabalho é uma condição imprescindível para ancorar um crescimento inclusivo maior, uma desigualdade menor e uma estabilidade financeira real.

Todos nós precisamos desse resultado. Ele teria uma chance ainda maior de se concretizar se os políticos estivessem dispostos a implementar todo o leque de políticas que eles têm à mão, em vez de continuarem a colocar quase todo o fardo das políticas nas costas dos bancos centrais.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.