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Show de Lionel Richie é triste lembrete da crise imobiliária na Cidade do Cabo

Liezel Hill

04/03/2016 14h48

(Bloomberg) - Quando Lionel Richie cantar sucessos dos anos 80 como 'All Night Long' para o Cape Town Stadium lotado na Cidade do Cabo no fim deste mês, os empreiteiros que construíram o lugar na África do Sul ficarão com a vontade de que o boom imobiliário tivesse a mesma resistência que essas músicas.

O estádio de 4,5 bilhões de rands (US$ 287 milhões) foi projetado pela Murray Roberts Holdings e pela Wilson Bayly Holmes-Ovcon para a Copa do Mundo de 2010, que desencadeou uma onda de construções. Agora, ambas as empresas com sede em Johannesburgo estão eliminando postos de trabalho e lutando contra uma carteira de pedidos mais magra porque o governo do presidente Jacob Zuma concede uma quantidade menor de contratos de engenharia civil e construção de grande escala, dos quais as grandes empresas dependem.

A crise dos preços das commodities também fez com que os contratos de engenharia e mineração desaparecessem e as quatro maiores empresas de construção do país demitiram mais de 20.000 funcionários permanentes e temporários na África do Sul e em outros mercados nos últimos dois anos. Os executivos dizem que é provável que haja mais demissões devido à desaceleração econômica do país.

"Não vemos uma melhoria no curto prazo", disse o CEO da WBHO, Louwtjie Nel, em uma entrevista na semana passada. "Achamos que vamos continuar sob pressão durante mais ou menos um ano, então só precisamos esperar e realizar projetos bons".

As empresas construtoras Aveng, Group Five e Murray Roberts perderam mais da metade do valor de mercado nos últimos dois anos enquanto a perspectiva piorava. O setor também está tentando sair de um escândalo de conluio relativo a contratos da Copa do Mundo que resultou em multas pesadas para 15 empresas e poderia provocar reformas profundas na regulamentação do setor, disse o comissário de concorrência Thembinkosi Bonakele em uma entrevista na semana passada.

Copa do Mundo

Depois da Copa, a economia da África do Sul vem enfrentando blecautes e uma seca rigorosa, além dos efeitos da queda de preço das commodities. O ministro da Fazenda Pravin Gordhan projetou na semana passada que o crescimento deste ano será de 0,9 por cento, o ritmo mais lento desde a recessão de 2009.

Uma parte grande e cada vez maior do investimento sul-africano em infraestrutura vem sendo destinada a equipamentos, como locomotivas, e não à construção civil, de acordo com Marc Ter Mors, diretor de pesquisa de ações da SBG Securities, com sede em Johannesburgo. Além disso, os projetos estão sendo divididos em partes, o que possibilita que empresas construtoras menores possam concorrer mais, disse ele.

As empresas construtoras também foram prejudicadas por greves trabalhistas e pelo cancelamento de contratos de mineração. Elas reagiram diminuindo a quantidade de funcionários e outros custos e aumentando a rigidez para decidir em quais contratos ofertar a fim de melhorar as margens e a lucratividade.

Projetos de mineração

Nem todas as empresas foram afetadas na mesma proporção. As ações da WBHO caíram 6,2 por cento em Johannesburgo nos últimos dois anos, na comparação com a queda de 84 por cento da Aveng e de 59 por cento da Murray Roberts, porque a empresa se beneficia da atividade de construção na Austrália e está menos exposta ao setor de mineração que algumas das concorrentes. As empresas internacionais de mineração cortaram os investimentos em projetos de construção e expansão de minas porque os preços dos metais despencaram.

Embora as carteiras de pedidos do setor tenham se beneficiado de um boom da construção residencial e comercial na África do Sul, ele também poderia desacelerar devido ao aumento dos juros, disse Roelof Brand, analista da Avior Capital Markets na Cidade do Cabo. E só os novos projetos de construção não serão suficientes para sustentar o setor, disse o CEO da Aveng, Kobus Verster, a repórteres depois da apresentação dos resultados da empresa.

"Não temos megaprojetos capazes de manter milhares de pessoas empregadas durante vários anos", disse Verster. "Para conseguir realmente uma mudança de ritmo precisamos que o tão esperado e prometido programa de infraestrutura seja realmente implementado no país".