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Dúvidas do mercado limitam atratividade de dívidas verdes

Anna Hirtenstein

07/03/2016 12h55

(Bloomberg) -- As empresas estão pensando duas vezes se participam dos mercados de títulos verdes em um momento em que a atenção dos grupos ambientalistas eleva o nível de exigência do que constitui um título amigável ao clima.

Após quadruplicar de tamanho de 2012 a 2014, ampliado pelos investidores que monitoram o desempenho ambiental além do rendimento, o mercado de títulos verdes deverá desacelerar pelo segundo ano consecutivo, segundo a Bloomberg New Energy Finance.

O crescimento caiu para 28% no ano passado e em 2016 poderá avançar apenas 4%, para US$ 50 bilhões, disse a empresa de pesquisa com sede em Londres.

"Quando você começa a emitir títulos verdes, atrai a atenção de muitas pessoas interessadas", disse Michael Ridley, diretor de bonds verdes e crédito corporativo do HSBC em Londres. O potencial para controvérsia está tornando as empresas cautelosas, disse ele.

A Engie SA é um exemplo. Em 2014, a empresa de energia francesa usou títulos classificados como verdes para seduzir fundos de pensões alemães, franceses e britânicos a comprar um total recorde de 2,5 bilhões de euros (US$ 2,8 bilhões) dos títulos.

Embora tenha dito que a dívida financiaria "crescimento sustentável" a partir da energia da biomassa, eólica e hídrica, a empresa não mencionou, em um prospecto de 171 páginas, todas as consequências ambientais de seus projetos.

A Engie, à época chamada GDF Suez, usou parte do dinheiro captado para terminar a usina hidrelétrica de Jirau, no Brasil. O projeto abastece milhares de residências com seus 3,75 gigawatts de energia livre de combustíveis fósseis, mas também inundou 362 quilômetros quadrados de habitat.

Grupos conservacionistas disseram que o projeto deslocou quatro tribos indígenas e ameaça erradicar espécies de peixes de um dos maiores afluentes do Rio Amazonas.

De sua parte, a Engie disse, em email de resposta a perguntas, que continua monitorando o impacto ambiental da usina e que os auditores da Associação Internacional de Hidreletricidade reportaram um "desempenho muito bom em termos de sustentabilidade".

Calote verde?

A usina brasileira se transformou, desde então, em um exemplo revelador das armadilhas para os emissores. Na ausência de uma definição uniforme que detalhe o que constitui um investimento verde, as empresas podem escolher projetos financiados pelos títulos.

Isso, em contrapartida, tem dado espaço para que grupos ambientalistas critiquem as empresas que identificam como traidoras dos princípios verdes.

Mesmo que os títulos verdes possam atrair "um leque mais amplo de investidores" e "melhorar a reputação de um emissor", segundo um relatório de 2015 da KPMG, os investidores também podem "pedir sanções para um calote verde, aquele no qual um título é pago na íntegra, mas o emissor quebra as cláusulas verdes acordadas".

O prêmio exigido pelos investidores para manter títulos verdes da Engie em vez de títulos soberanos similares aumentou para 79 pontos-base, contra 76 pontos-base em setembro de 2014, quando os grupos ambientalistas aumentaram a pressão sobre a empresa.

O título de 1,375% da Engie para maio de 2020, classificado em A1 pela Moody's, era negociado a 104,26 euros e tinha um rendimento de 0,27% em 4 de março.

Padrões reais

"É preciso que haja padrões reais, que precisam ser monitorados", disse Karen Orenstein, analista de política internacional da Amigos da Terra em Washington que fez campanha contra o projeto brasileiro da Engie. "Não pode ser que cada corporação ou banco decida o que é verde ou não. Nós seríamos contra incluir grandes hidrelétricas nos títulos verdes".

A Amigos da Terra se uniu a outros dois grupos ambientalistas, International Rivers e Banktrack, para pressionar a Engie e outras empresas que emitem títulos verdes. Com a ausência de regulação, empresas nucleares, incineradoras de resíduos e até de combustíveis fósseis também poderiam lucrar com os títulos.

'Propenso a controvérsia'

A pressão maior azedou o apetite de algumas empresas por títulos verdes, segundo Ridley, do HSBC. "Você realmente arrisca seu pescoço, considerando que poderia ter simplesmente continuado com seu negócio alegremente emitindo títulos não verdes e fazendo isso muito bem", disse ele.

Alguns subscritores estão até mesmo aconselhando os clientes a não emitirem os títulos por causa da fiscalização maior.

"Nós chegamos a rejeitar empresas", disse Jonathan Weinberger, diretor-gerente de engenharia de mercados de capitais do Société Générale.