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Opinião: Líderes do Brasil já não parecem tão intocáveis

Mac Margolis

07/03/2016 13h26

(Bloomberg View) - Durante os últimos dois anos, enquanto os brasileiros assistiam a um escândalo de corrupção cada vez amplo levar a economia e alguns dos nomes mais famosos da política e dos negócios para o descrédito, eu mantive uma conversa contínua com o insatisfeito dono da mercearia do meu bairro.

"Você realmente acha que vão chegar até o Lula?", zombava Avelino outro dia em seu mercadinho, no Rio de Janeiro, referindo-se ao extremamente popular ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quem ele culpa pela sorte desfavorável do país. "Rá, até parece".

Mal posso esperar para ver o que o Avelino tem a dizer agora. Na manhã de sexta-feira, a Polícia Federal iniciou a 24ª fase da Operação Lava Jato, a grande investigação sobre propinas e tráfico de influência na Petrobras.

Pouco depois do amanhecer, a polícia chegou a 33 endereços em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Bahia com mandatos de busca. Onze pessoas foram levadas para prestar depoimento, inclusive Lula, a esposa e os três filhos do casal.

Nenhuma acusação foi apresentada e Lula não foi preso nem algemado, mas foi difícil não perceber o simbolismo de ver um líder antes adorado -=que era reverenciado por tirar milhões da pobreza e por dizer a verdade ao povo-- ser colocado em um carro da polícia e ser levado sem delongas para interrogatório.

Sim, a polícia e os promotores conseguiram expor o saqueio da Petrobras visando magnatas mandachuvas, lobistas e ex-dirigentes políticos sob suspeita de suborno ou de vender favores.

Mas enquanto a Lava Jato se desenrolava, críticos como meu amigo Avelino se perguntavam quão longe a lei chegaria e quem entre as atuais autoridades do país seria poupado.

É verdade que a sucessora de Lula, a presidente Dilma Rousseff, vem lutando contra uma campanha de impeachment, mas por supostas transgressões fiscais, não por corrupção.

Depois, há quase três dúzias de parlamentares em pleno cargo que foram citados há um ano pelo procurador-geral Rodrigo Janot como suspeitos no caso da Petrobras. Ele não pode levá-los a julgamento sem o imprimatur do STF.

Agora, a bolha da invencibilidade poderia estar começando a desinflar. Lula está sendo investigado por um rol de supostas transgressões, como deixar que provedores do governo pagassem reformas em sua casa e aceitar doações e pagamentos por palestras de empresas acusadas de subornar autoridades a fim de obter contratos com a Petrobras.

Ainda há um longo caminho até o banco dos réus, nem falar em prisão, mas o fato de que ele também seja alvo de uma investigação assim indica que até os mitos devem obedecer à lei.

E Lula não é o único político aparentemente intocável a cair. A prisão do marqueteiro da presidente Dilma Rousseff, João Santana, levantou dúvidas sobre ela ter financiado sua campanha de reeleição em 2014 com propinas da Petrobras.

E, na quinta-feira, o STF decidiu julgar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, por supostamente ter aceitado uma propina de um provedor da Petrobras. Essa decisão faz de Cunha o primeiro presidente da Câmara da história a ser obrigado a enfrentar julgamento no STF do Brasil.

E graças a uma pequena revolução no sistema judiciário do Brasil, talvez o arrastão chegue a escalões ainda mais altos. Até pouco tempo, ninguém podia ser preso no Brasil enquanto todas as apelações possíveis não fossem esgotadas - uma indulgência nascida do louvável princípio de que se deve conceder proteção total aos inocentes.

Na realidade, essa lei praticamente garantia a impunidade permitindo que réus poderosos com advogados espertos obstruíssem os tribunais com ordens judiciais e apelos infinitos.

No mês passado, o STF fechou essa via de escape ao decidir que qualquer pessoa condenada por um crime em uma instância inferior, e cuja sentença tenha sido confirmada no processo de recurso, deve ir direto para a prisão.

O que ajudou a fechar o caso contra Cunha e a colocar Lula no radar dos investigadores foi o depoimento de suspeitos de crimes que concordaram em delatar nomes em troca de uma punição mais amena.

O Brasil está melhor por essa decisão, mas não daria para adivinhar isso pelo clima nas ruas, onde a opinião pública já se polarizou acentuadamente e os manifestantes contrários ao governo pretendem fazer pressão pelo impeachment no dia 13 de março.

É improvável que isso detenha a Lava Jato. A Polícia Federal, que tem uma quedinha pelos clássicos, chamou a última operação de "Aletheia", ou "busca pela verdade", em grego. Acho que o Avelino aprovou.