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Otimistas duelam com pessimistas no mercado de dívida brasileiro

Ye Xie e Paula Sambo

07/03/2016 11h27

(Bloomberg) -- Após decepcionar investidores de títulos com perdas de 34% nos últimos três anos, o mercado de dívida brasileiro se tornou um campo de batalha entre aqueles que apostam no potencial de alta dos ativos e os catastrofistas.

A condução coercitiva para depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na sexta-feira, apenas reforçou o argumento dos caçadores de pechinchas que apostam que as notas do país estão muito baratas para serem ignoradas.

O rendimento médio da dívida local é de mais de 14% em um momento em que cerca de US$ 7 trilhões em títulos de governos oferecem retorno menor do que zero.

Para os que estão no grupo otimista, como Koon Chow, estrategista do Union Bancaire Privée, crescem as chances de a presidente Dilma Rousseff, sucessora escolhida a dedo por Lula, sofrer impeachment - um passo que pode abrir o caminho para o Brasil aprovar reformas necessárias para tirar o país da recessão mais profunda em mais de um século.

"Este pode ser o ponto de inflexão", disse ele, de Londres.

Mas, para o estrategista da RBC Capital Markets, Daniel Tenengauzer, o episódio com Lula apenas agrega mais risco a um País que luta com a espiral de endividamento e com uma moeda sobrevalorizada.

"A história dos fundamentos do Brasil não melhorou", disse Tenengauzer em nota a clientes na sexta-feira. O impeachment de Dilma "vai postergar as reformas necessárias".

A divergência do mercado evidencia quão difícil se tornou prever o futuro de um país que parece surpreender os investidores a todo momento. A prisão do proeminente banqueiro André Esteves, em novembro, por suposto envolvimento no escândalo de subornos que agora enlaça Lula, estancou uma recuperação dos ativos financeiros do País.

Michael Hasenstab, da Franklin Templeton, tem sido um dos mais otimistas com o Brasil. Conhecido por sua posição contra a corrente ao comprar dívida depreciada irlandesa e húngara durante a crise europeia, ele dobrou sua posição em títulos locais brasileiros para US$ 5,9 bilhões no quarto trimestre, segundo dados compilados pela Bloomberg.

A aposta foi bem recompensada até o momento com o ganho de 15% das notas em dólar no acumulado do ano, no topo entre os de melhor desempenho dos mercados emergentes.

"Vislumbramos um caminho de recuperação, a despeito da probabilidade de volatilidade contínua neste ano", disse ele no site da Templeton no dia 23 de fevereiro. "Como um todo consideramos o país economicamente forte; é apenas o mix de políticas que precisa ser corrigido".

Há outros sinais de que o Brasil dobrou a esquina, segundo Chow, do Union Bancaire Privée, que cita o recuo do déficit em conta-corrente para a mínima em três anos com o declínio das importações e o aumento das exportações.

O resultado é a evidência real de que a depreciação de quase 60% da moeda desde o fim de 2011 está ajudando a restaurar parte da competitividade do País.

Yacov Arnopolin, gerente de recursos do Goldman Sachs Asset Management em Nova York, vê a inflação atingir um pico após acelerar para 10,7% em janeiro, mais do que o dobro da meta do governo.

O Banco Central provavelmente não cumprirá seu objetivo de desacelerar a inflação para 4,5% no curto prazo, mas ele aposta em títulos de curto prazo do Brasil e em papéis mais longos atrelados à inflação.

Ainda há muito risco. Em março, o produto interno bruto per capita do país terá caído 10% após dois anos de recessão, lembrando a depressão que tomou conta do Brasil durante a chamada década perdida dos anos 1980, segundo o Goldman Sachs.

O Citigroup estima que a dívida pública chegará a 80% do PIB no ano que vem, contra 52% em 2013.

O fato de Lula ter de prestar depoimento "certamente é bom para o sentimento do mercado, mas não vai tirar a economia da recessão e diminuir a dívida das corporações e dos consumidores", disse Kieran Curtis, que administra US$ 1,3 bilhão em ativos de mercados emergentes na Standard Life Investments em Londres.

Marcelo Assalin, que administra US$ 7 bilhões como chefe de dívidas de mercados emergentes na NN Investment Partners, disse que está reduzindo suas posições em títulos brasileiros porque os múltiplos não estão mais atrativos. Ele cita a valorização de 6,4% do real em relação ao dólar neste ano, o maior entre as principais moedas do mundo.

"O quadro dos fundamentos é sombrio", disse ele, de Haia. "A partir de agora é preciso alguma cautela".