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As palavras de Draghi também importam se o BCE lançar estímulo

Alessandro Speciale e Jeff Preto

08/03/2016 15h34

(Bloomberg) - O kit de ferramentas monetária de Mario Draghi inclui um item um pouco enferrujado que ele não quer que ninguém se esqueça: orientação de expectativas.

O presidente do Banco Central Europeu prometeu pela primeira vez em 2013 que as taxas de juros seriam baixas "ou mais baixas" por um período prolongado, e as autoridades decidiram em janeiro que era preciso reafirmar essas palavras para tranquilizar os investidores quanto à disposição para manter a flexibilização da política monetária.

Agora, como os mercados estão sinalizando ainda mais flexibilização nesta semana, que vai deixar as taxas mais perto do limite inferior --onde quer que seja-- Draghi poderia precisar reforçar sua orientação para garantir que qualquer pacote de estímulo atinja o alvo.

A lição aqui é a experiência de dezembro, quando os rodeios de Draghi ao dizer que o corte da taxa anunciado seria "adequado e ponto final" ajudou a desencadear uma queda forte do mercado.

Uma maior ênfase na duração e na intenção do BCE desta vez poderia ajudar a convencer os investidores de que qualquer estímulo anunciado não teria por que ser o último.

"Além da ação concreta por parte do BCE, a comunicação sobre a possibilidade de novas medidas também é importante para reduzir as chances de repetir a 'decepção' de dezembro", disse Nick Matthews, chefe de pesquisa europeia da Nomura International em Londres.

Isso "iria transmitir os sinais certos quanto à possibilidade de novas reduções das taxas e ressaltar que as taxas de juros vão continuar baixas e que a política continuará adaptando-se às circunstâncias por um longo tempo".

O tamanho de qualquer estímulo novo talvez seja tão importante quanto a orientação das expectativas, mas os bancos centrais precisam convencer o mercado de que vão se ater ao programa.

Além da promessa relativa às taxas, o BCE se comprometeu até agora a comprar 60 bilhões de euros (US$ 66 bilhões) por mês de títulos até "pelo menos" março de 2017, a reinvestir o dinheiro dos vencimentos de dívida na flexibilização quantitativa (QE, na sigla em inglês) e a ampliar o balanço do BCE.

Ampliação da QE

A campanha de estímulo do BCE tem como cenário uma recuperação lenta, mas constante, que, no entanto, não está resultando em uma inflação mais alta.

O aumento de gastos de famílias e governos impulsionou o crescimento no quarto trimestre, quando a produção cresceu 0,3%, mostraram os dados finais divulgados pela agência de estatísticas da União Europeia na terça-feira.

Ampliar a QE implicaria que as taxas não vão subir enquanto o programa não acabar. Draghi poderia até dizer que os custos dos empréstimos ficarão nos níveis atuais ou abaixo deles durante algum tempo depois do fim das compras de títulos.

A introdução de um sistema em camadas para a taxa de depósito, uma opção que os responsáveis têm discutido, liberaria mais espaço para cortar a taxa ainda mais abaixo de zero para aliviar o fardo sobre os bancos. Isso daria credibilidade à orientação.

Caso o banco central queira usar estratégias emprestadas de seus pares, o Federal Reserve dos EUA e o Riksbank da Suécia oferecem modelos.

"Para realmente ter um impacto, o BCE teria que mudar sua estrutura para algo como uma previsão de taxa, como na Suécia, ou o dot plot do Fed", disse Anatoli Annenkov, economista sênior do Société Générale, em Londres. "No entanto, não é um conceito que tenha sido particularmente eficaz em outras jurisdições".

Orientação de expectativas

A orientação é mais fácil na teoria do que na prática. Em agosto de 2013, o presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney, vinculou seu compromisso com os juros à taxa de desemprego, mas voltou atrás poucos meses depois porque o desemprego caiu mais rápido do que o esperado.

No início de 2014, o Fed foi forçado a mudar sua orientação de expectativas depois de um ano. O objetivo era um desemprego de 6,%, mas esse nível foi alcançado muito antes de que o banco central estivesse preparado para aumentar as taxas de juro.

Em março de 2015, o Fed abandonou a garantia de que teria "paciência" para aumentar as taxas, como parte de seus esforços para mudar suas políticas de forma mais adaptativa, tomando decisões em cada reunião.

Posteriormente, na declaração de outubro, reintroduziu o conceito de orientação de expectativas, mencionando especificamente sua "próxima reunião" como candidata para um aumento das taxas.

"O BCE de antes elevaria os juros antes da hora, estrangulando uma recuperação tímida", disse Christian Odendahl, economista-chefe do Centre for European Reform, com sede em Londres.

"Os mercados precisam saber que o BCE está disposto a permitir que a inflação dispare durante um tempo, até que a recuperação se firme, antes de voltar a normalizar os juros. Mas, com orientações que apontam para a mesma linha de sempre, eles não vão conseguir isso".