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Fundo especulativo investe em títulos venezuelanos e ganha muito

Ben Bartenstein

08/03/2016 13h30

(Bloomberg) - Quando Carmelo Haddad e Francisco Ghersi investiram metade do dinheiro de seu fundo hedge em um título venezuelano prestes a vencer em meados de janeiro, apenas dois resultados eram possíveis: o negócio poderia dar muito errado ou poderia pagar fabulosamente.

Afinal, as chances de que a Venezuela iria fazer o pagamento no dia 26 de fevereiro estavam longe de serem boas. Atormentada pela turbulência política, a economia estava à beira do colapso com a queda nos preços do petróleo privando o governo de uma renda muito necessária.

Na época, os investidores colocavam a chance da Venezuela de dar um calote nos próximos 12 meses em 80%-- de longe a maior probabilidade do mundo.

A Venezuela fez o pagamento de US$ 1,5 bilhão, entregando aos fundadores da Knossos Asset Management um retorno de 12% em apenas 45 dias - ou um lucro de 150% em base anualizada.

"Toda vez que um título morre, as pessoas têm sua própria história de guerra", disse Haddad, que juntamente com o colega Ghersi, nativo de Caracas, supervisiona os US$ 40 milhões de ativos do fundo. "Tivemos nossos altos e baixos. Foi doloroso com os rumores, mas estávamos confortáveis com o negócio ou não teríamos apostado tanto nele".

O par colheu inesperados lucros em títulos da Venezuela de um refúgio sem janelas em um shopping center de Caracas desde 2011, quando levantaram US$ 1,5 milhão com a ajuda de amigos e familiares para fundar a Knossos.

O fundo, que investe todo seu dinheiro em ativos da Venezuela, retornou 29% no ano passado, quando a dívida do país com classificação especulativa ganhou apenas 6,7%.

Desde a sua criação, o fundo superou o ganho médio nos mercados emergentes todos os anos, exceto um.

Na semana passada, a Knossos contratou Daniel Urdaneta, um trader do Banco Caribe Curaçao, como seu quinto funcionário em tempo integral, indicando que o objetivo do fundo de hedge é ampliar sua base de investidores na América do Norte e Europa.

Haddad, 40 e Ghersi, 48, dizem que sua vasta rede de contatos locais ajuda a tomar decisões de investimento mais informadas do que os gestores de fundos estrangeiros, que muitas vezes são desencorajados pela volatilidade do mercado de títulos da Venezuela.

Dominando o touro

Haddad, que se formou em economia pela Universidade de Indiana, em 1997, trabalhou como trader de moedas na BBO Financial Services antes de começar o fundo. Como a dimensão da comunidade financeira local da Venezuela é pequena, Haddad e Ghersi dizem que se conheceram antes de iniciar a Knossos.

Também iam à mesma academia. Ghersi completou um triatlo Ironman na Áustria, enquanto Haddad correu a Maratona de Nova York.

Haddad e Ghersi agora estão comprando títulos vendidos pela empresa estatal de petróleo da Venezuela, que vencem em outubro.

As notas já ganharam 10%, para US$ 0,70, desde que a Venezuela pagou seus títulos soberanos no final de fevereiro. A Knossos já investiu mais de 10% dos seus ativos em participação de Petroleos de Venezuela, a produtora de petróleo conhecida como PDVSA.

Para Lucas Toro, estrategista de renda fixa na Helm Securities, os investimentos da Knossos são muito arriscados pelo estado precário da Venezuela.

Toro estima que a probabilidade de que a PDVSA fará o pagamento em outubro é de cerca de 35%.

É fácil ver porque Toro é tão pessimista. Em janeiro, o banco central disse que a economia sul-americana encolheu 7,1% no terceiro trimestre do ano anterior, enquanto sua taxa de inflação subiu para 141,5%.

A Venezuela depende do petróleo, que caiu 63% nos últimos dois anos, para quase toda sua receita de exportação. Enquanto isso, o presidente Nicolás Maduro, sucessor escolhido do falecido Hugo Chávez, enfrenta crescente oposição do Congresso, tornando improvável a aprovação de reformas econômicas necessárias.

Mas Haddad e Ghersi estão bem cientes de como as coisas estão arriscadas em seu país.

Ainda assim, estão apostando que podem entender bem este caos e lucrar com ele. Ghersi aponta que o logotipo do fundo é uma adaptação do famoso afresco do Touro Saltando que adornava o antigo palácio de Cnossos, em Creta, na Grécia.

"Nós representamos o cavaleiro do touro, tentando dominar e controlá-lo", disse ele.