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Desafio cambial do BCE é ressaltado por chicotada do iene

Candice Zachariahs

09/03/2016 09h16

(Bloomberg) -- A lição de humildade sofrida por Haruhiko Kuroda nos mercados de câmbio mostra o que Mario Draghi irá enfrentar nesta quinta-feira (10): que mesmo as mais fortes decisões de política monetária podem ser superadas pelos acontecimentos.

Quando o presidente do Banco do Japão surpreendeu os investidores adotando taxas de juros negativas, em 29 de janeiro, ele causou apenas uma breve queda do iene.

Depois disso, a demanda por proteção aumentou com o temor de que a desaceleração na China retardará o crescimento global e a medida de Kuroda, por si só, ampliou o sentimento negativo. A moeda acabou registrando seu melhor mês desde 2008.

Agora, Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, caminhará sobre a mesma corda bamba: os analistas preveem que ele está se preparando para reduzir a taxa de depósito já negativa da zona do euro e expandir o programa de flexibilização quantitativa, algo que ele sinalizou pela primeira vez há um ano.

Os banqueiros centrais sempre ressaltam que a fraqueza cambial não é um objetivo da política monetária, mas há poucas dúvidas de que ela oferece um estímulo econômico bem-vindo.

Quanto a isso, a decisão de Draghi pode vir em um cenário mais benigno do que o de Kuroda depois que a alta das ações e das commodities nos últimos 30 dias levou os fundos especulativos a aumentarem as apostas pessimistas no euro pela primeira vez neste ano.

Momento vital

"O momento é tudo", disse Jonathan Lewis, diretor de investimento em Nova York da Fiera Capital, onde ele ajuda a administrar cerca de US$ 10 bilhões.

"Havia tantas coisas ruins acontecendo na época que era difícil para Kuroda fazer-se ouvir. Draghi, por sua vez, poderia gerar mais impacto porque o mundo está saindo do choque sofrido em janeiro e fevereiro".

Lewis disse que está segurando posições que se beneficiariam com o euro mais fraco, prevendo que os fundamentos econômicos e a política monetária da região derrubarão a moeda.

A taxa de depósito do BCE já é de menos 0,3% e a estimativa média de 58 economistas consultados pela Bloomberg a coloca em menos 0,4% após o fim da reunião de política monetária do banco central, na quinta-feira.

Draghi terá ciência de outro precedente mais próximo de sua casa. Após atingir a maior baixa em oito meses, em 3 de dezembro, o euro deu um salto de 8% até 11 de fevereiro porque em dezembro o BCE introduziu menos estímulos enfraquecedores da moeda do que o previsto pelos investidores.

Somou-se ao avanço uma queda de US$ 5,9 trilhões nas ações globais em janeiro que fez os investidores reduzirem os investimentos em ativos de rendimento mais elevado que envolviam o empréstimo e a venda da moeda comum da Europa.

Menos volátil

Desde então, o euro caiu 3,5%, para US$ 1,0975 às 9h25 desta quarta-feira, pelo horário de Londres. A moeda se desvalorizou em linha com a medida do JPMorgan para as oscilações dos preços do câmbio global, que teve uma queda de 1,4%ponto percentual, para 11,1%, encorajando os negociantes a reiniciarem alguns desses carry trades sensíveis à volatilidade.

O uso de euros baratos para a compra de moedas dos mercados emergentes gerou lucros em 20 dos 22 casos nos últimos 30 dias, com retornos de até 14% para o rublo da Rússia e de 8% para investimentos no rand sul-africano, mostram dados compilados pela agência de notícias Bloomberg.

"As taxas de juros negativas têm o maior impacto quando expulsam investidores avessos ao risco e quando há uma melhor alternativa no exterior", disse Sebastien Galy, estrategista em Nova York do Deutsche Bank, segundo maior investidor de moedas.

"Os mercados emergentes estão mostrando alguns sinais de estabilização, mas seria preciso um período prolongado de calma para que aumentassem os fluxos de saída do euro para partes selecionadas dos mercados emergentes".