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Escândalo no mercado de arte da Europa vem para a América

Keri Geiger e Hugo Miller

09/03/2016 15h01

(Bloomberg) - Pouco a pouco, a obra-prima perdida de Leonardo foi se revelando: a boca da Mona Lisa, a pincelada sutil, o brilho delicado.

Agora, vários anos depois que o mundo descobriu que um quadro que muitos acreditavam ser uma cópia era, na verdade, uma obra de Leonardo da Vinci, a obra-prima de US$ 127,5 milhões, "Salvator Mundi", foi parar no meio de um dos escândalos de arte mais surpreendentes em décadas.

O que começou nos ares rarefeitos de Mônaco e Genebra, com alegações de roubo de Picassos e Modiglianis com preços inflados, agora cruzou o Atlântico e chamou a atenção do Departamento de Justiça dos EUA.

Promotores federais, seguindo o exemplo das autoridades europeias, abriram uma investigação sobre um dos participantes mais conhecidos do mundo da arte, Yves Bouvier - incluindo sua relação com o redescoberto Leonardo, de acordo com fontes familiarizadas com o assunto.

O movimento marca a primeira vez que as autoridades federais colocaram suas vistas em um escândalo que abalou o ecossistema notoriamente privado dos negociantes de arte, intermediários e colecionadores europeus. Embora ainda no começo, a investigação nos EUA também ressalta as preocupações gerais dos procuradores sobre a opacidade do mercado da arte - que, como os imóveis de alto padrão, pode servir como um canal para lavagem de dinheiro.

Quarenta obras

Durante meses Bouvier, 52 anos, esteve lutando contra seu antigo patrono, o bilionário Dmitry Rybolovlev. O oligarca russo, por sua própria conta, gastou mais de US$ 2 bilhões com cerca de 40 obras adquiridas através de Bouvier ao longo da última década.

Bouvier enganou Rybolovlev em muitos milhões por aumentar os preços de várias aquisições e embolsar a diferença, alegou o bilionário russo numa queixa às autoridades de Mônaco. Uma obra em questão é a de Modigliani "Nu reclinado em sofá azul", que Rybolovlev comprou por US$ 118 milhões Stephen A. Cohen, a lenda dos fundos hedges. Rybolovlev descobriu mais tarde, durante um almoço em St. Barts, que Cohen tinha vendido o quadro por US$ 93,5 milhões.

Os promotores do Departamento de Justiça estão agora examinando várias vendas de arte que Bouvier fez em nome de clientes, incluindo transações envolvendo não só o Modigliani, mas também obras de Klimt e Rothko, concentrando-se até quanto ele pode ter enganado os clientes aumentando os preços, disseram fontes familiarizadas com o assunto. Dessas obras, o Leonardo é talvez o mais famoso. Se a investigação avançar, Bouvier poderia enfrentar acusações de fraude nos EUA

Bouvier, que opera a partir do Freeport de Genebra, um vasto depósito, livre de impostos para obras de arte e outros objetos de valor, disse que não fez nada de errado e cobra o que o mercado pode aguentar.

Um porta-voz de Rybolovlev não fez comentários. Um porta-voz do Departamento de Justiça não quis comentar.

Cobertura em Mônaco

Foi em Mônaco em fevereiro passado que a polícia prendeu Bouvier em conexão com a denúncia de Rybolovlev. Bouvier negou as acusações de irregularidades. Em novembro, um tribunal de apelações rejeitou o pedido de Bouvier para retirar as acusações criminais de fraude e cumplicidade em lavagem de dinheiro contra ele, e Rybolovlev disse em um comunicado que estava "satisfeito" que o caso iria continuar.

Uma das obras-primas que Bouvier adquiriu para Rybolovlev não era outro senão "Salvator Mundi", um quadro de Cristo do século XVI. Com sua autoria incerta, o quadro foi adquirido por um consórcio de negociantes de arte que incluía Robert Simon, especialista em Antigos Mestres. Simon, em seguida, trouxe a pintura em 2005 para Dianne Modestini, renomada restauradora e pesquisadora na Universidade de Nova York, em Manhattan.

Verniz amarelado

Modestini lembra de colocar a pintura a óleo em uma armação em seu estúdio no Upper East Side. Estava coberta com verniz amarelado e excesso de tinta de tentativas anteriores de restauração. Modestini começou a restaurar meticulosamente a peça. Somente anos mais tarde que ela teve certeza de que tinha restaurado uma das peças mais raras de arte do mundo.

Então, em 2013, um comprador misterioso adquiriu "Salvator Mundi". Foi Rybolovlev, de acordo com reportagens posteriores. Ele comprou o quadro, via Bouvier, através de um trust. Segundo a denúncia em Mônaco, o bilionário pagou US$ 127,5 milhões pela obra, que foi cerca de US$ 50 milhões a mais do que ele disse mais tarde que o vendedor tinha recebido, alegando que Bouvier embolsou a diferença.