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Ex-integrantes do JPMorgan e do Deutsche Bank estão à frente da nova Argentina

Carolina Millan

09/03/2016 14h00

(Bloomberg) - Horas depois que a Argentina fechou um acordo com os fundos de Nova York para acabar com uma disputa feia de dívida que durou 15 anos, os principais representantes econômicos do governo fizeram um discurso em Buenos Aires para usufruir o momento.

O primeiro a falar naquela tarde de fevereiro foi o ministro da Fazenda e Finanças, Alfonso Prat-Gay. Ele é um antigo homem do JPMorgan Chase Co., um estrategista cambial.

À sua esquerda se sentavam Luis Caputo e Santiago Bausili, os dois responsáveis pelo programa de dívida do Ministério. Eles também passaram pelo JPMorgan, e ambos tiveram uma experiência no Deutsche Bank AG. À direita de Prat-Gay estava o vice-chefe de gabinete, Mario Quintana. Ele era do ramo de private equity, o fundador de uma empresa chamada Pegasus Venture Capital.

Wall Street voltou a ter prestígio na nova Argentina, e em grande medida. Desde que assumiu o cargo em novembro, o presidente Mauricio Macri, que também vem do mundo dos negócios, encheu seu governo de traders, financistas, empresários, economistas e diretores corporativos.

Esse não é o tipo de decisão que um líder consideraria atualmente, por exemplo, nos EUA, na Espanha ou na Grécia, lugares onde a oposição aos banqueiros chegou a um tom fervoroso nos últimos anos.

Mas na Argentina - onde uma década de intervenção do governo na economia, salpicada por uma forte inclinação ideológica, fomentou uma inflação galopante e a estagnação do crescimento - a população parece mais aberta à ideia.

Macri quer desfazer essas políticas o mais rápido possível e quer que profissionais experientes nas leis dos mercados livres realizem essa tarefa.

"O povo cansou de viver em um lugar onde o Estado metia o bedelho em tudo", disse Miguel Kiguel, que foi subsecretário do ministério de Economia do país na década de 1990. A pior das regulamentações "absurdas" que irritavam os argentinos, disse ele, era o labirinto de medidas que controlava estritamente o acesso da população aos dólares.

Equipe diferente

No mínimo, essas contratações estão ajudando Macri a transmitir confiança, um passo fundamental para reinserir o país nos mercados de capital internacional mais de uma década depois de ter dado o calote em US$ 95 bilhões em títulos e de ter sumido do radar dos investidores.

Kiguel disse que o grupo "é forte e está qualificado tecnicamente", conformado por profissionais que "têm capacidade para cumprir as expectativas". Siobhan Morden, diretora de estratégia de renda fixa para a América Latina da Nomura Securities, disse que essa equipe econômica é a melhor da região.

"Com certeza é muito diferente da era Kirchner", disse Siobhan.

Não apenas do JPMorgan e do Deutsche Bank vêm os profissionais que dominam os diretórios do governo. Goldman Sachs Group, Barclays e Morgan Stanley também estão representados, e seus ex-funcionários ocupam cargos-chave no banco central e na agência do fundo de pensão estatal.

A equipe de Macri não perdeu tempo para reverter as políticas econômicas herdadas e eliminou as restrições à compra de dólares, permitiu que o peso flutue livremente, reduziu os gastos públicos e negociou o acordo da dívida com o bilionário Paul Singer e outros magnatas dos hedge funds --tudo isso nos três primeiros meses no cargo.

Excesso de intimidade?

As condições desse acordo, que ainda precisa ser aprovado pelo Congresso, foram criticadas duramente pelos aliados de Cristina Kirchner, que as consideram excessivamente favoráveis aos credores internacionais - alguns deles devem ganhar lucros desproporcionais com os títulos do calote.

E aqui reside uma vulnerabilidade essencial da posição de Macri: a percepção de que sua equipe adornada por Wall Street esteja excessivamente reconciliada com os investidores. Assessores de imprensa da Casa Rosada e do Ministério da Fazenda e Finanças não quiseram fazer comentários para este artigo.

Talvez isso se torne uma preocupação maior no futuro, mas se Macri não conseguir estabilizar a economia instável.

Por enquanto, parece que os argentinos estão mais concentrados em ver que uma noção de normalidade volte ao país. Segundo dados mais recentes, a inflação estava em torno de 30%. Se Macri resolver isso, talvez o povo não se importe com quanto dinheiro os estrangeiros estiverem ganhando.