PUBLICIDADE
IPCA
+0,83 Mai.2021
Topo

Milhões se unem ao coro pelo impeachment no Brasil

Anna Edgerton e Raymond Colitt

14/03/2016 15h23

(Bloomberg) -- O futuro de Dilma Rousseff como presidente do Brasil foi colocado ainda mais em dúvida depois que milhões de manifestantes, cansados de escândalos e de recessão, protagonizaram um dos maiores protestos da história moderna do país.

Os brasileiros se manifestaram pacificamente pela saída de Dilma em cidades de todo o país no domingo e algumas estimativas contabilizaram mais de 3 milhões de pessoas nas ruas. São Paulo registrou a maior manifestação política da história, segundo o Datafolha.

Em Brasília, cerca de 100 mil pessoas marcharam até o Congresso, expressando seu apoio à blitz anticorrupção que colocou diversos executivos e políticos famosos atrás das grades.

Muitos brasileiros dizem que já toleraram suficiente corrupção, que está sendo revelada há dois anos pela Operação Lava Jato, a investigação que paralisou o Congresso e aprofundou a pior recessão econômica em mais de um século.

Os protestos de domingo poderiam levar mais parlamentares a abandonar a base aliada e a votarem pela saída de Dilma, segundo Paulo Calmon, professor de Ciências Políticas da Universidade de Brasília.

"Estamos caminhando em meio a uma tempestade perfeita, com um alto nível de incerteza", disse Calmon. "A sensação é de que vamos ter algum tipo de definição nos próximos meses ou até mesmo semanas, que poderia ser a saída de Dilma do cargo ou algum outro acerto político. É isso que torna 2016 diferente de 2015".

Processo de impeachment

Após ficar parado durante meses no Congresso, o processo de impeachment deverá ser retomado no próximos dias, quando o Supremo Tribunal Federal decidir as diretrizes a serem seguidas pela Câmara dos Deputados.

Alguns aliados já começaram a se distanciar de Dilma em um momento em que o PT afunda ainda mais no escândalo de corrupção.

A convenção nacional do maior partido da base aliada, o PMDB, realizada em 12 de março, terminou com a ameaça de rompimento total com a base aliada no mês que vem. No início de março, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) passou para a oposição.

Após afirmar na sexta-feira que não desistiria, nem renunciaria, Dilma evitou fazer aparições públicas no domingo. Em vez disso, emitiu um comunicado no qual disse que a natureza pacífica dos protestos mostra "a maturidade de um país que sabe como viver com opiniões divergentes".

Nas últimas semanas, os mercados financeiros deram as boas-vindas à possibilidade de a turbulência política no Brasil gerar um novo governo mais bem preparado para reanimar a economia, que deverá encolher 3,3% em 2016 após uma contração de 3,8% no ano passado.

O real subiu 12% neste mês, melhor desempenho entre as moedas internacionais, e o Ibovespa atingiu o nível mais elevado em sete meses.

Drama político

O drama político se desenrola menos de cinco meses antes da previsão de início dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

A pressão sobre Dilma começou a aumentar em fevereiro com a prisão de João Santana, seu estrategista de campanha, e com uma reportagem na imprensa com acusações de que ela tentou interferir nas investigações de corrupção.

A crise política atingiu um novo patamar com a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para interrogatório no dia 4 de março.

Para aumentar os problemas de Dilma, o Tribunal Superior Eleitoral está investigando se houve financiamento ilegal à campanha de reeleição da presidente em 2014.

Dilma e Lula negaram irregularidades.

Profunda desconfiança

Com a profunda desconfiança de boa parte da classe dominante do Brasil e a ligação de muitos líderes políticos ao escândalo de corrupção, uma possível saída de Dilma poderia ser complicada.

Alguns líderes de oposição, incluindo o senador Aécio Neves, que perdeu por pouca diferença para Dilma na eleição presidencial de 2014, foram chamados de "oportunistas" durante as manifestações.

"Nós vamos em busca de uma saída para esse impasse através da Constituição", escreveu Aécio no Twitter.

Não são só os críticos do governo que estão tomando as ruas. Os apoiadores do PT, de Dilma, fizeram algumas pequenas manifestações no domingo e planejam novos protestos neste mês contra o processo de impeachment.

Eles também apoiarão Lula, cofundador do PT e antecessor de Dilma, que foi denunciado na semana passada por lavagem de dinheiro e por falsidade ideológica.