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Das cinzas do Lehman, fundo brasileiro dá retorno de 115% ao ano

Paula Sambo e Josué Leonel

15/03/2016 13h58

(Bloomberg) -- Em 2014, a Jive Investments Holding estava batendo nas portas dos hedge funds dos EUA tentando formar uma parceria para investir em ativos brasileiros distressed.

"Eles não estavam interessados em vir para cá", disse Guilherme Ferreira, cofundador da Jive, de 37 anos. Simplesmente porque o mercado era pequeno demais.

Atualmente, a Jive é a maior compradora independente de ativos distressed no Brasil e aqueles mesmos fundos que ignoraram a chance de se unir a ela estão caçando oportunidades, disse ele. Ferreira preferiu não identificar as empresas, mas disse que o motivo por trás da mudança de atitude é óbvio: a inadimplência está aumentando em meio à pior recessão do Brasil em um século, levando os bancos a se livrarem de empréstimos inadimplentes em troca de centavos de dólares.

"O Brasil todo está distressed", disse Ferreira. "Coisas que não pareciam estar com problemas de repente estão. Investimentos que antes eram considerados de grau de investimento passaram a ter yield alto".

A Jive, que começou abocanhando créditos corporativos inadimplentes e bonds distressed depois que o Lehman Brothers foi à falência, em 2008, entregou aos seus investidores retornos que superam 115 por cento em cada um dos últimos cinco anos, diz Ferreira. A Bloomberg não conseguiu confirmar esse número de forma independente. Em agosto, a Jive fechou o tipo de acordo que vinha buscando durante todos aqueles anos passados, captando R$ 500 milhões (US$ 138 milhões) dos clientes de private-banking do Credit Suisse, segundo comunicados de ambas as empresas.

Fundos de ativos distressed como a Jive adquirem portfólios de crédito com descontos agressivos, normalmente de grandes bancos, e depois lucram recolhendo os empréstimos, renegociando com os mutuários ou reacondicionando a dívida e emitindo títulos.

A Jive comprou o portfólio brasileiro do Lehman -- cujo valor nominal era de R$ 816 milhões -- por apenas R$ 27 milhões em uma venda aprovada pela Justiça, em 2010, disse Ferreira. A empresa já coletou 16 por cento do principal e está em busca de 30 por cento -- ou cerca de R$ 244 milhões -- nos próximos cinco anos, disse ele.

Com a maioria dos economistas dizendo que o Brasil não está nem perto de deixar a recessão para trás, a Jive estima que os bancos poderiam manter R$ 400 bilhões em empréstimos inadimplentes. Em 2014, os compradores dessa dívida fecharam acordos com um valor nominal de R$ 15 bilhões, disse Ferreira. A Jive planeja ampliar sua folha de pagamento para 85 funcionários até o fim do ano, contra 67 atualmente, para atacar mais dívidas distressed e expandir para o ramo de private equity. A empresa também está negociando passivos dos estados e estudando o setor imobiliário.

A economia brasileira deverá encolher 3,5 por cento em 2016, segundo uma pesquisa do Banco Central, após uma contração de 3,8 por cento no ano passado. Enquanto isso, a inflação anual está acima dos 10 por cento e a taxa de desemprego nas seis maiores áreas metropolitanas do Brasil aumentou para 7,6 por cento, contra 4,3 por cento no início do ano passado, mostram dados compilados pela Bloomberg.

Tudo isso está dificultando a vida de consumidores e empresas na hora de pagar as contas. As taxas de inadimplência pessoal subiram para 6,2 por cento em janeiro, contra 5,3 por cento um ano antes, segundo o BC. E o número de empresas que pediram recuperação judicial nos dois primeiros meses do ano duplicou, segundo a Serasa Experian, empresa de classificação de crédito com sede em São Paulo.

Em fevereiro, a Jive adquiriu um portfólio avaliado em R$ 2,2 bilhões do Itaú Unibanco Holding, maior banco da América Latina em valor de mercado, segundo três pessoas familiarizadas com a transação que pediram anonimato porque não estão autorizadas a falar publicamente sobre o assunto.

"De um dia para o outro o Brasil se transformou em uma enorme oportunidade para os compradores de ativos distressed", disse Ferreira. "Bancos que nunca pensaram em vender portfólios de crédito agora estão vendendo".