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Bancos Centrais, economistas estudam como estimular a inflação

Simon Kennedy

23/03/2016 11h42

(Bloomberg) -- Depois que mais de 600 cortes em taxas de juros e US$ 12 trilhões em aquisições de ativos foram insuficientes para estimular a inflação, os bancos centrais poderão precisar mergulhar ainda mais fundo em território desconhecido.

O caminho para tirar o mundo de sua rotina desinflacionária pode depender do financiamento direto de estímulos ao governo pelos bancos centrais -- uma estratégia conhecida como jogar “dinheiro do helicóptero”, em alusão a uma proposta de 1969 do prêmio Nobel Milton Friedman.

Economistas do Citigroup, do HSBC e do Commerzbank publicaram relatórios sobre o tópico para os investidores nas últimas duas semanas e o titã dos hedge funds Ray Dalio enxerga potencial na ideia. Os representantes do Banco Central Europeu já estão discutindo o que o presidente Mario Draghi chama de “conceito muito interessante”.

“Não sabemos se o ‘dinheiro do helicóptero’ será a próxima bala de prata a ser tentada, mas o tópico está recebendo uma atenção consideravelmente maior”, disse Gabriel Stein, economista da Oxford Economics em Londres. “É razoavelmente alta a probabilidade de alguma variação disso ser implementada em algum lugar”.

A teoria -- nunca tentada por uma grande economia moderna -- consiste em fundir as políticas monetárias e fiscais que atualmente estão ficando sem espaço de manobra. Os governos necessitados de dinheiro vendem dívidas de curto prazo diretamente aos seus bancos centrais em troca de dinheiro recém-impresso, posteriormente injetado diretamente na economia por meio de cortes tributários ou programas de investimentos. Os intermediários normais, como os bancos, são evitados.

A ideia é impulsionar gastos e investimentos diretamente em vez de influenciar os yields dos bonds ou o sentimento. Os bancos centrais podem ser poupados de subscrição permanente pelos governos estabelecendo limites de crescimento ou inflação.

Em um discurso de 2002 que rendeu a ele o apelido “Helicóptero Ben”, o então presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, disse que a medida seria “quase certamente um estímulo efetivo ao consumo e, portanto, aos preços”.

O que está ressuscitando o debate é que a inflação não está acelerando em boa parte do mundo, apesar do cálculo do Bank of America de que até o início de fevereiro os bancos centrais haviam reduzido os juros 637 vezes e investido US$ 12,3 trilhões em ativos desde a crise financeira de 2008. O banco também estimou que 489 milhões de pessoas vivem atualmente em países com juros negativos.

Inflação galopante

Para Dalio, fundador da Bridgewater Associates, de US$ 154 bilhões, isso significa que o próximo passo deveria ser fazer ainda mais para estimular a demanda.

“Se você olha ao redor do mundo, nosso risco não é a inflação, nem o superaquecimento das economias”, disse ele a Erik Schatzker, da Bloomberg Television, em 3 de março. “É preciso chegar de forma mais direta nos consumidores”.

Então, o que há para não gostar? Os críticos dizem que a distribuição de dinheiro poderia ter como resultado uma inflação galopante estilo Weimar e uma dívida pública inchada. A independência e a credibilidade dos bancos centrais possivelmente seriam danificadas. E a política poderia sair pela culatra se as famílias segurassem seu dinheiro.

O presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, já disse que o “dinheiro do helicóptero” faria “enormes buracos nos balanços do banco central” e deixaria para os governos e os contribuintes a tarefa de “pagar a conta no final”.

‘Almoço grátis’

Outra questão é a legislação. O BCE é proibido de financiar os estados e não possui um Tesouro único para trabalhar, enquanto o Fed tem limitação quanto aos ativos que pode comprar.

“A opção helicóptero é simples, fácil de implementar e, para alguns, é o mais próximo de um almoço grátis”, disse Stephen King, assessor econÃ?mico sênior do HSBC. “Se parece bom demais para ser verdade, é porque é”.

Na semana passada, Draghi disse que embora o BCE não tenha estudado o conceito, “ele claramente envolve complexidades, tanto contábeis quanto legais”. Seu colega Peter Praet, no entanto, preferiu não descartar a opção quando indagado a respeito.

Título em inglês: Helicopter Money Takes Flight as Latest Drastic Monetary Idea

Para entrar em contato com o repórter: Simon Kennedy em Londres, skennedy4@bloomberg.net, Para entrar em contato com os editores responsáveis: Telma Marotto tmarotto1@bloomberg.net, Patricia Xavier

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