Salário é indicador imperfeito de saúde mercado de trabalho EUA

Jana Randow

(Bloomberg) -- A verdadeira força do mercado de trabalho dos EUA pode estar oculta.

O crescimento dos salários -- descrito como lento e pouco convincente pela cúpula do Federal Reserve, que está planejando o caminho em direção a taxas de juros mais elevadas -- é mais robusto, segundo alguns indicadores, do que o normalmente reconhecido.

O motivo são as mudanças na composição da mão de obra. Com o desemprego perto do nível mais baixo em oito anos, a aceleração dos aumentos salariais forçaria a presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) Janet Yellen, a acelerar sua abordagem gradual para a elevação das taxas de juros caso a inflação começasse a subir.

O banco central identificou os salários como um dos indicadores mais decepcionantes em uma recuperação do mercado de trabalho que viu os maiores ganhos anuais nas folhas de pagamentos em 16 anos, a taxa de desemprego reduzida pela metade e um recente aumento na mão de obra.

Os dados estão sendo distorcidos pela aposentadoria da geração nascida após a Segunda Guerra Mundial, com alta remuneração, justamente em um momento em que os trabalhadores com salários mais baixos estão retornando ao mercado após serem deixados de lado na última recessão, segundo analistas do Fed.

"O sinal é turvo, por isso não deveríamos usá-lo como indicador de que o mercado de trabalho está mais fraco do que observamos quando olhamos para a taxa de desemprego", disse Mary Daly, diretora associada de pesquisa do Fed de São Francisco, em entrevista.

"Na ausência de mudanças na composição da mão de obra, teríamos visto o surgimento de um crescimento salarial mais consistente com o declínio do desemprego".

Inundação de dados

Os indicadores sobre o estado do mercado de trabalho são abundantes e variam da abertura de novas vagas às contratações, das demissões às saídas voluntárias, e das folhas de pagamentos até as várias formas de subemprego e desemprego. A taxa de desemprego permaneceu em 5% no mês passado.

O painel de controle de Yellen contém nove indicadores, mas não inclui a grande variedade de indicadores de crescimento dos salários, como os custos unitários de mão de obra, o índice de custo do emprego, remuneração por hora e ganhos médios por hora.

Esse último, que subiu 2,3% em março em relação a um ano antes, provavelmente seja o melhor critério para a inflação porque monitora a massa salarial -- mas também mascara tendências ocultas nas quais Daly se concentra.

Em um trabalho de pesquisa recente com Bart Hobijn, professor de economia da Universidade do Estado do Arizona, e Benjamin Pyle, pesquisador do Fed de São Francisco, ela argumentou que a demissão desproporcional de trabalhadores com baixos salários durante a recessão de 2008-2009 aumentou os indicadores salariais agregados na época.

O retorno desses trabalhadores ao mercado agora pesa sobre o crescimento dos salários. Essa situação é amplificada pela aposentadoria daqueles nascidos durante o chamado baby boom, entre 1946 e 1964, que respondem por mais de 20% da população americana.

Os indicadores focados naqueles que estão continuamente empregados pode, assim, capturar melhor a dinâmica de salário. O indicador do crescimento salarial do Fed de Atlanta é uma dessas medidas. Em fevereiro, último mês para o qual há dados disponíveis, a medida sinalizou ganhos de 3,2%, contra uma média de 2,8% ao longo da década passada.

Yellen reconheceu a evidência anedótica e disse que "um grande número de relatórios" mostra que os salários estão aumentando, mas os dados agregados não refletem isso.

"Eu realmente vejo uma melhoria de base ampla no mercado de trabalho e estou um pouco surpresa de que não estejamos vendo uma aceleração no crescimento dos salários", disse ela em 16 de março, depois de o banco central ter decidido manter as taxas de juros inalteradas e reduzido suas projeções para a velocidade da elevação dos juros neste ano.

"Isso sugere para mim que continua havendo uma lacuna no mercado de trabalho".

Apesar da estimativa de que a inflação e a produtividade irão acelerar, Daly prevê que os salários continuarão fora do caminho de expansão por mais dois a quatro anos enquanto os trabalhadores de qualificação mais baixa forem sendo integrados ao mercado.

Como esses funcionários provavelmente serão menos produtivos do que aqueles que se aposentam, o mercado de trabalho pode estar se tornando mais restrito do que sugere o crescimento salarial comparativamente morno.

Então, qual é a moral da história?

"Não temos nenhum indicador perfeito de crescimento salarial", disse Daly. "É hora de as pessoas voltarem suas atenções para isso e se aprofundarem. Estamos apenas começando a discutir essas questões".

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