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Agronegócio é último reduto do mercado de crédito do Brasil

Filipe Pacheco e Denyse Godoy

(Bloomberg) -- No combalido mercado de crédito corporativo do Brasil, existe um reduto no qual o volume de novas emissões ainda está cheio e a demanda supera a oferta em até quatro para um: o mercado de notas do agronegócio.

A Fibria Celulose e a Suzano Papel e Celulose, a fabricante de painéis de madeira Duratex e a fabricante de alimentos processados BRF estão entre as empresas que planejam captar mais de R$ 3,3 bilhões (US$ 901 milhões) neste trimestre vendendo certificados de recebíveis do agronegócio, conhecidos como CRAs. Com isso, esse nicho do mercado caminha para seu melhor trimestre desde a criação das notas, em 2004.

Os instrumentos são um sucesso entre os investidores pessoa física, que têm isenção do imposto de renda no Brasil ao comprar os certificados. Também fazem sucesso entre os emissores porque oferecem financiamento a baixo custo em um momento em que outras fontes de crédito, como empréstimos sindicalizados, debêntures e vendas de bonds secaram.

Nenhuma empresa brasileira tomou empréstimo sindicalizado neste ano, contra US$ 12 bilhões em 2015, segundo dados compilados pela Bloomberg. Enquanto isso, as novas emissões de bonds locais caíram 33 por cento, de acordo com a associação dos mercados de capitais, a Anbima.

"Conversando com investidores e banqueiros que estão estruturando essas operações, fica claro que os CRAs estão atraindo a maior parte das atenções no momento", disse Felipe Ribeiro, gerente da empresa de securitização Grupo Gaia em São Paulo. "Obviamente os nomes mais reconhecidos devem chegar ao mercado primeiro, que é o que estamos vendo neste ano. Essa tendência deverá continuar nos próximos meses".

Os CRAs denominados em reais são garantidos por recebíveis relativos a colheitas que já tiveram suas vendas contratadas e são emitidos por empresas locais de securitização.

A BRF está precificando até R$ 1 bilhão em novos CRAs neste mês, com uma taxa de remuneração máxima de 96,5 por cento do CDI, que atualmente está em 14,13 por cento ao ano, segundo documentos regulatórios. Em outubro, a empresa pagou taxa de 96,9 por cento sobre uma emissão de R$ 1 bilhão.

A Suzano também viu os custos dos empréstimos diminuíram usando o instrumento. A produtora de celulose busca captar pelo menos R$ 500 milhões, pagando até 99,5 por cento da CDI, menos que os 101 por cento em uma operação similar fechada em junho.

As empresas que estão recorrendo aos mercados regulares de debêntures do Brasil pagaram em média 119,9 por cento, contra 115,3 por cento seis meses atrás, mostram dados compilados pela Bloomberg.

"O agronegócio brasileiro, com todas as suas dificuldades, ainda está crescendo", disse Moacir Teixeira, sócio da Ecoagro, empresa com sede em São Paulo que securitiza CRAs. "Comparando a produção e a produtividade com a área cultivada com grãos, por exemplo, nosso crescimento ainda é fantástico. É isso que está impulsionando a busca por mais CRAs em um cenário de opções de financiamento limitadas".

Os títulos foram criados em 2004 como uma forma de aumentar as opções de financiamento para os produtores, mas foi apenas em 2012 que a Octante Agronegócio vendeu o primeiro CRA, captando R$ 85 milhões. Embora as notas ocupem posição de destaque na lista de recomendações dos gestores de recursos a clientes de alta renda, os hedge funds e os compradores institucionais, que não se qualificam para a isenção fiscal, normalmente os ignoram.

"Este é um dos poucos segmentos no Brasil nos quais o mercado ainda está otimista", disse Carlos Ratto, diretor comercial e de produtos da Cetip, maior câmara de compensação de títulos do Brasil. "Os investidores estão se acostumando com a estrutura em um momento em que nomes fortes e conhecidos estão chegando ao mercado".

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