Taxas de juros negativas enfrentam cada vez mais críticas

Finbarr Flynn e Nicholas Comfort

(Bloomberg) -- O coro de líderes financeiros globais que está alertando para os efeitos das taxas de juros negativas está crescendo.

Nobuyuki Hirano, presidente da Mitsubishi UFJ Financial Group, criticou duramente as taxas negativas do Banco do Japão (BOJ, na sigla em inglês) na semana passada por colocar em perigo a estabilidade bancária. Mohamed El-Erian, assessor econômico chefe da Aliianz e colunista da Bloomberg View, disse em uma entrevista para o jornal alemão Frankfurter Allgemeine que o Banco Central Europeu está tentando um "experimento insano" com as taxas negativas. David Hunt, CEO da unidade de gestão de investimentos da Prudential Financial, disse que muitos fundos de pensão terão dificuldades se não abandonarem os investimentos tradicionais.

Como há quase US$ 8 trilhões em títulos soberanos com yields negativos no mundo e devedores que são pagos por tomar empréstimos no Japão, investidores e chefes de bancos estão lidando com as consequências de optar por produtos mais arriscados em busca de retornos. O CEO da BlackRock, Larry Fink, escreveu neste mês em uma carta aos acionistas que a política trará "consequências financeiras e econômicas possivelmente perigosas" e Bill Gross disse que os yields negativos garantem que os investidores perderão dinheiro.

"Se ficar no tipo de alocação que vemos no mundo inteiro, as contas não fecharão", disse Hunt da PGIM, a divisão de administração de recursos da Prudential Financial. "Diríamos que é preciso deixar de pensar nos papéis de governos como uma parte importante da forma de cobrir essas obrigações".

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O presidente do BOJ, Haruhiko Kuroda, anunciou no dia 29 de janeiro uma estratégia de taxas negativas na tentativa de deter a deflação. As notas do governo japonês com yields negativos respondem por cerca de 65 por cento dos títulos do mundo com yields abaixo de zero. O BCE adotou taxas negativas pela primeira vez em 2014.

A queda dos yields ocorre no momento em que os reguladores estão exigindo aos bancos que retenham mais instrumentos líquidos que podem ser convertidos em dinheiro vivo em momentos de dificuldades, segundo Alex Batchvarov, diretor de pesquisa internacional sobre finanças estruturadas do Bank of America Merrill Lynch. Isso significa que "há certos papéis que é preciso reter e que deixam de fato perdas totais" ou yields muito baixos, disse ele.

Confiança afetada

Nove dos dezessete economistas consultados neste mês pela Bloomberg disseram que o BOJ estava errado ao adotar a nova política. O banco deveria abandoná-la porque está afetando a confiança do consumidor e a disposição dos bancos a emprestar dinheiro, segundo Yasunari Ueno, economista-chefe de mercados da Mizuho Securities em Tóquio.

Nem todos os observadores veem efeitos negativos. Kuroda disse nesta quarta-feira no Congresso que as taxas abaixo de zero estão tendo os efeitos desejados sobre os mercados e que o banco central não hesitará em implementar medidas de estímulo adicionais se for necessário. Ele reiterou que os lucros dos bancos japoneses são muito altos e que ele não prevê que as taxas de depósitos individuais se tornem negativas.

Prejuízos maiores com depósitos poderiam levar os bancos a aumentarem as taxas de empréstimos, precisamente o que os bancos centrais não querem, disse em março John Cryan, co-CEO do Deutsche Bank. A relação entre o risco e os retornos está totalmente fora de sincronia, disse Nikolaus von Bomhard, CEO da Munich Re, a segunda maior reasseguradora do mundo.

Indicadores recentes do Japão mostram que as taxas negativas não têm estimulado os bancos a impulsionarem o crédito. O crescimento dos empréstimos desacelerou em março para o ritmo mais fraco em três anos.

"Agora é preciso pensar em investir em ativos nos quais se perde dinheiro?" disse Bonnie Baha, que ajuda a administrar US$ 95 bilhões na DoubleLine Capital. "O desespero inerente a esta situação é algo a ser ponderado".

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