Espanha amplia aquisições no setor bancário de Portugal

Anabela Reis e Macarena Munoz

(Bloomberg) -- Os bancos espanhóis estão devorando uma fatia cada vez maior do setor financeiro de Portugal, aproveitando a vacilante recuperação do país da crise de dívida da Europa.

O CaixaBank, gigante com sede em Barcelona, é o mais recente a entrar na disputa, com uma oferta de cerca de 900 milhões de euros (US$ 1 bilhão) na semana passada pela parte do banco Banco BPI, com sede no Porto, que não é de sua propriedade.

A transação seria a terceira compra espanhola no setor bancário português em menos de seis meses, e é possível que ela não seja a última.

"Os bancos portugueses precisam reduzir custos e arrecadar capital, mas têm pouca capacidade de fazer isso por conta própria", disse Diogo Teixeira, CEO da Optimize Investments, empresa com sede em Lisboa que administra cerca de 120 milhões de euros. "É melhor ter um acionista sólido".

As aquisições, que geraram indignação em Portugal, são um reflexo da economia espanhola, maior e de crescimento mais acelerado, e também da diferença de rumo dos setores bancários desses países após seus resgates.

A Espanha montou um "banco ruim" e obrigou seus credores mais fracos a passar por uma dolorosa limpeza, mas os bancos portugueses, depois de reconhecerem quase 40 bilhões de euros em baixas contábeis, continuam tendo uma das mais altas proporções de empréstimos de liquidação duvidosa da zona do euro.

As autoridades portuguesas também continuam reparando os danos do colapso do Banco Espírito Santo. Pilar de uma das maiores dinastias familiares do país, o banco precisou ser resgatado em 2014 a um custo de 4,9 bilhões de euros.

Tentar outra vez

Após tentar, e fracassar, vender a unidade que sobreviveu do Banco Espírito Santo - chamada Novo Banco --o Banco de Portugal colocou-a à venda novamente. O maior credor da Espanha, Banco Santander, e o Banco Popular Español indicaram que pretendem analisar a proposta.

Para os bancos espanhóis, Portugal representa um caminho de crescimento em um mercado bancário familiar, voltado ao consumidor, que tem escopo para o fechamento de agências e a economia de custos, disse Arturo Bris, professor da faculdade de Administração IMD, com sede em Lausanne.

"Essa é uma extensão de baixo risco para a gente", disse Gonzalo Gortázar, CEO do CaixaBank, na semana passada, depois de anunciar a oferta pelo BPI. "Essa é a primeira aquisição internacional que fizemos, mas conhecemos o BPI muito bem e confiamos nele". O banco espanhol já é dono de 44% da instituição portuguesa.

Entre outras transações, o Santander comprou o banco resgatado Banif --Banco Internacional do Funchal em dezembro, e o Bankinter, com sede em Madri, arrebatou as operações bancárias do Barclays em Portugal no início deste ano.

Se a transação do CaixaBank for concluída, os bancos espanhóis terão cerca de 27% dos ativos bancários de Portugal, de mais de 400 bilhões de euros.

O Bancopopular-e, um banco on-line que pertence à Varde Partners e ao Banco Popular, anunciou na quinta-feira que decidiu comprar do Barclays as operações Barclaycard na Espanha e em Portugal.

Resistência

A invasão espanhola não passou despercebida em Portugal.

"Precisamos evitar a possibilidade de ter um domínio exclusivo de uma nacionalidade no sistema bancário", disse o primeiro-ministro António Costa ao Parlamento em Lisboa, no dia 30 de março. "Precisamos assegurar a diversidade de agentes no sistema bancário porque ela assegura a concorrência. Essa é uma garantia de independência nacional".

Essas preocupações não impediram que o governo aprovasse, na semana passada, uma modificação legal que poderia favorecer a oferta do CaixaBank. Ela exige que os investidores bancários revisem periodicamente os limites aos direitos de votação.

A eliminação de uma norma que restringe a 20% os direitos de voto dos acionistas do BPI --independentemente do tamanho do ativo-- é crucial para o CaixaBank.

A recente incursão não se limitou às empresas espanholas. A corretora chinesa Haitong Securities adquiriu a unidade de investment bank do Banco Espírito Santo, e a empresa americana de private equity Apollo Global Management comprou a seguradora Tranquilidade no ano passado.

"Vendo o que está acontecendo, seremos um dos únicos dois ou três bancos portugueses que restam em operação no país", disse José Félix Morgado, CEO do banco de poupança Caixa Económica Montepio Geral, em uma entrevista em Lisboa.

As reclamações sobre o recente influxo espanhol "são uma polêmica artificial", disse María Dolores Dancausa, CEO do Bankinter, em Lisboa neste mês. "Para Portugal, o importante é que capital e investimentos entrem no país".

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