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Análise: China pode precisar resgatar bancos

Christopher Langner

(Bloomberg) -- A China está preparando o terreno para um grande resgate bancário, possivelmente acompanhado de uma onda de consolidação do setor. No sábado, a Bloomberg News reportou que a Comissão Reguladora Bancária da China (CBRC) fechou uma brecha por meio da qual alguns empréstimos inadimplentes poderiam estar deixando os balanços.

O órgão regulador enviou uma notificação na semana passada exigindo que os bancos realizassem provisão integral para qualquer direito de empréstimo transferido para outras instituições financeiras, o que em muitos casos incluiu seus próprios produtos de gestão de riqueza. Sim, é isso mesmo. Os bancos criaram fundos que passaram a comprar o direito de receber pagamentos pelos empréstimos que os bancos haviam feito. Esses adiantamentos, então, desapareciam convenientemente dos livros dos bancos. Se não fossem pagos, que pena.

Com a medida tomada pelo órgão regulador, os bancos já não podem evitar a responsabilidade por esses empréstimos.

Não está claro quantas dívidas inadimplentes deixaram de ser contabilizadas por esse método, mas se a CBRC percebeu, deve ser um volume significativo. Outra forma de empréstimo fora do balanço -- a prática de usar trusts ou planos de gestão de ativos para estender o crédito -- poderia resultar em prejuízos de até 1 trilhão de yuans (US$ 154 bilhões), estimou o Commerzbank em fevereiro.

O resultado final é que os bancos chineses terão que aumentar as provisões. Na época de seus próximos balanços trimestrais os investidores poderão ser surpreendidos por um salto ainda mais agudo nos empréstimos inadimplentes. Isto minará os lucros e pressionará ainda mais o índice de cobertura de provisões, que para alguns bancos já caiu para abaixo dos 150 por cento exigidos pela CBRC.

O Industrial and Commercial Bank of China, maior banco do país em ativos, já evitou divulgar uma grande queda no lucro do primeiro trimestre permitindo que as previsões caíssem para 141 por cento do crédito inadimplente existente. O índice do gigante estatal Bank of China também ficou abaixo do nível exigido por lei. A CBRC está avaliando alterar o limite, que é relativamente alto entre os grandes bancos internacionais.

A tendência da China rumo aos empréstimos de fora do balanço mostra o que muitos bancos ocidentais fizeram antes da crise de 2008. Os bancos criaram trusts que compraram hipotecas, que foram fatiadas em títulos negociáveis antes de serem vendidas aos investidores. A retirada dos empréstimos de seus livros permitiu que os bancos continuassem emprestando.

A chamada crise do subprime fez o Conselho de Padrões de Contabilidade Financeira (Fasb) reavaliar as regras e efetivamente forçar os bancos a recolocarem toda essa dívida em seus balanços. O resultado foi um aumento de 88 por cento nos empréstimos inadimplentes nos 20 maiores bancos do mundo (excluindo os chineses) no primeiro ano após a revisão das regras.

Se a China seguir uma trajetória similar, o provável aumento nas provisões e nos empréstimos inadimplentes nos bancos do país poderá exigir mais do que simples retoques nas exigências de cobertura regulatória. Embora alguns trimestres de baixas contábeis e sem dividendos possam reforçar os balanços dos maiores bancos, é possível que as instituições menores não consigam fazê-lo sem intervenção estatal, seja por meio de uma injeção de capital, seja por meio de uma fusão projetada com um banco maior. Os compradores poderão precisar de algum capital do governo para lidar com a bagunça que estão assumindo.

É sempre difícil entender as reais intenções dos órgãos reguladores chineses, mas eles parecem estar abrindo o caminho para um grande resgate e uma reformulação do sistema bancário. Intencionalmente ou não, eles podem se ver pressionados de qualquer maneira. Os problemas dos bancos têm o costume de se retroalimentarem.

Essa coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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