Corte da nota da África do Sul para junk pode ser inevitável

Mike Cohen e Sarina Yoo

(Bloomberg) -- Parece que o rebaixamento da nota de crédito da África do Sul para um grau especulativo é mera questão de tempo.

A S&P Global Ratings rebaixará a nota do crédito do país para junk por volta do fim deste ano, segundo 12 dos 13 economistas e analistas consultados pela Bloomberg. Quatro deles projetam um rebaixamento para BB+, que colocará a África do Sul junto com Turquia e Indonésia, já no mês que vem. Os treze analistas preveem que a Moody's Investors Service, cuja nota para o país está um nível acima da estipulada pela S&P, diminuirá sua avaliação em dezembro.

"O motivo de preocupação é que continuamos tendo um crescimento decepcionante que acaba piorando as pressões fiscais", disse Elna Moolman, economista da Macquarie Group em Johannesburgo, em entrevista por telefone na quarta-feira. "Do modo em que as coisas estão agora, acho que vão rebaixar nossa nota".

Tanto o Tesouro Nacional quanto o Banco da Reserva da África do Sul projetam que a economia se expandirá menos de 1 por cento neste ano, o ritmo mais lento desde 2009, porque a queda dos preços das commodities e a demanda baixa dos principais mercados de exportação afetam a produção. Um crescimento medíocre limitará a receita fiscal e tornará mais difícil para o Tesouro atingir a meta de reduzir o déficit orçamentário de 3,9 por cento do produto interno bruto no ano passado para 2,4 por cento nos doze meses até março de 2019 e limitar a dívida bruta para cerca de 50 por cento do PIB.

Turbulência

A turbulência política, que gerou pedidos para que o presidente Jacob Zuma renuncie, está agravando os riscos econômicos. Em dezembro, Zuma substituiu o ministro das Finanças Nhlanhla Nene por um legislador pouco conhecido, o que provocou a desvalorização do rand e dos papéis. Em março, o supremo tribunal do país decidiu que o presidente infringiu a constituição quando se recusou a acatar uma ordem do ombudsman responsável pela investigação de subornos. Na semana passada, o Supremo Tribunal em Pretoria determinou que os promotores se enganaram quando retiraram as acusações de corrupção contra Zuma pouco antes de ele chegar à presidência em 2009.

Os investidores já consideram que a África do Sul é mais arriscada do que alguns países com notas de crédito de grau especulativo. O custo de proteção contra um calote do governo para cinco anos com swaps de crédito é 38 pontos-base mais alto que para a Rússia, que tem nota com grau especulativo da S&P e da Moody's, segundo dados compilados pela Bloomberg. O único mercado emergente importante com contratos mais caros que a África do Sul é o Brasil, que atravessa a pior recessão em um século com a presidente Dilma Rousseff enfrentando um processo de impeachment.

Em março, a Moody's colocou a nota de crédito da África do Sul sob revisão para rebaixamento por causa do enfraquecimento do crescimento e da perspectiva fiscal. Também existe uma "possibilidade real" de rebaixamento da avaliação da dívida do país, disse no mês passado o diretor-gerente da S&P para a África Subsaariana, Konrad Reuss.

Declarações

O banco central disse na terça-feira que a probabilidade de que a dívida da África do Sul seja rebaixada para junk é média ou alta. Isso poderia provocar fluxos de saída de capitais, aumentar o custo do financiamento e fazer com que o spread nos swaps de crédito aumente, disse o banco.

O governo deve trabalhar com as empresas e com a força de trabalho para evitar um rebaixamento, disse o ministro das Finanças, Pravin Gordhan, que foi reconduzido ao cargo que ocupava até 2014 depois que Zuma foi pressionado por líderes empresariais e políticos.

"Ainda confiamos em que as nossas metas fiscais sejam atingidas para o período à frente, porém fica claro que é preciso tomar medidas corajosas para enfrentar as barreiras estruturais para um crescimento mais rápido", disse na quarta-feira Gordhan aos legisladores na Cidade do Cabo.

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