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Impeachment pode dar estímulo a concorrentes agrícolas do Brasil

Gerson Freitas Jr. e Marvin G. Perez

(Bloomberg) -- O provável impeachment da presidente Dilma Rousseff pode ser uma boa notícia para agricultores em lugares tão distantes quando Iowa, nos EUA, e Uttar Pradesh, na Índia.

Isso porque a perspectiva de mudança no governo e a consequente melhora das expectativas em relação à economia têm ajudado o real a se recuperar de suas mínimas históricas. O movimento reverte o estímulo que a forte depreciação cambial do ano passado havia dado às exportações brasileiras de alimentos e que ajudou a ampliar a oferta global e a derrubar os preços internacionais de algumas commodities agrícolas.

Os produtores rurais do Brasil, maior exportador mundial de açúcar, café, soja, carne bovina, frango e laranja, vinham ampliando seus embarques para o exterior depois que o real perdeu 33 por cento de seu valor no ano passado. Mas, desde o fim de janeiro, com o avanço do processo contra Dilma no Congresso, a moeda brasileira subiu 13 por cento e, segundo analistas do Banco Santander e do Rabobank, deve continuar a se valorizar.

"O impeachment parece bem provável e, provavelmente, deve ser visto como um fator positivo para os preços das commodities", disse Paul Christopher, chefe de estratégia internacional do Wells Fargo Investment Institute, em St. Louis, EUA, que administra US$ 1,7 trilhão em ativos.

Boom de exportações

Exportadores brasileiros de commodities como Fibria e JBS vinham ganhando com a desvalorização da moeda brasileira à medida que as empresas faziam mais reais para cada dólar obtido com suas vendas no exterior. O estímulo à oferta do Brasil ajudou a derrubar os preços do café negociado na bolsa de Nova York para o menor nível em dois anos em janeiro. Em abril, os contratos futuros de milho registraram as menores cotações em 17 meses na bolsa de Chicago. 

O dólar era cotado a R$ 3,535 na última quinta-feira, ante R$ 4,172 em 21 de janeiro. Leonardo Monoli, sócio da gestora de recursos Jive Asset Management, a maior compradora independente de ativos sob estresse do Brasil, afirma que a moeda americana poderá chegar a R$ 3 -- um ganho adicional de 15 por cento.

"A contínua apreciação do real pode ser altista para as commodities, uma vez que ela torna o Brasil um exportador menos competitivo", afirma Vinicius Ito, analista do Ecom Agroindustrial Group em Nova York.

Se o dólar cair para R$ 3,10, as exportações brasileiras de soja em 2016 podem cair a 50 milhões de toneladas, de 54,3 milhões no ano passado, com os Estados Unidos abocanhando uma maior fatia do mercado, segundo a consultoria INTL FCStone.

"Isto beneficiaria diretamente os exportadores dos EUA", afirma Thadeu Silva, analista da INTL FCStone em Campinas. Os produtores brasileiros de milho "seriam os mais atingidos", disse ele, "porque os custos logísticos são em reais e respondem por uma grande fatia do preço final".

Deficit do açúcar

O real mais forte também desencorajaria as exportações de açúcar em meio a um deficit crescente na produção mundial. O Brasil responde por mais de 40 por cento das exportações globais do produto.

O Bloomberg Agriculture Subindex, indicador composto por nove preços agrícolas, atingiu a maior alta em oito meses em 21 de abril depois de subir 9,7 por cento em relação ao menor patamar em sete anos, no dia 2 de março. Embora temores relacionados ao clima também tenham ajudado a impulsionar a alta, o movimento em direção ao impeachment no Brasil "foi claramente um fator positivo", disse Ito, da Ecom Agroindustrial.

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