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Análise: Reconciliar 3 narrativas sobre crescimento

Mohamed El-Erian

(Bloomberg) -- Existem três grandes narrativas diferentes sobre o crescimento da economia mundial, e cada uma tem implicações muito distintas para os mercados, as decisões econômicas e a política. Embora esses enredos pareçam se excluir mutuamente no curto prazo, eles poderiam acabar sendo coerentes com o passar do tempo. Além disso, uma combinação entre os três poderia traçar um mapa de ação para o que provavelmente virá pela frente.

De acordo com a primeira narrativa, um número crescente de economistas que vinha resistindo a dados cada vez mais convincentes está passando a defender a noção de um período ainda mais longo de pouco crescimento, o que foi chamado de "nova normalidade", "nova mediocridade" e "estagnação secular". Conduzido por economias avançadas que têm fracassado consistentemente em atingir a velocidade de escape, o crescimento mundial continua baixo, o que também exerce uma pressão decrescente sobre o potencial futuro. Ao mesmo tempo, o fato de que os bancos centrais ativos usem um cardápio cada vez maior de políticas econômicas pouco convencionais continua reprimindo a volatilidade financeira. O resultado é um equilíbrio em nível baixo, que é estável e persistente, mas que também é decepcionante.

A segunda perspectiva envolve dúvidas sobre a continuidade da eficácia dos bancos centrais. Ao observar que a dependência excessiva e prolongada de políticas monetárias pouco convencionais já tomou emprestado retornos produtivos e financeiros significativos do futuro, essa narrativa põe em dúvida a sustentabilidade a longo prazo do crescimento baixo, mas estável. Neste cenário, o crescimento se torna cada vez menos homogêneo e menos estável, e a volatilidade financeira se acentua.

O resultado final - tanto o crescimento alto e contínuo quanto o crescimento mais baixo com recessões periódicas - depende de se os bancos centrais serão capazes de passar o fardo de fortalecer a economia a um conjunto mais abrangente de respostas de política econômica, fornecido pelos ramos legislativo e executivo do governo.

O terceiro ponto de vista deriva da ação do mercado financeiro. Haverá momentos de grandes preocupações com o crescimento, como os últimos meses de janeiro e fevereiro, e haverá épocas de relativa calma e até de complacência, como abril. As flutuações, que levarão a estouros do mercado financeiro, serão provocadas principalmente pela mudança de sentimento em relação à capacidade da China de fazer com que sua economia tenha um pouso tranquilo e pelas evidências de que os EUA continuam se recuperando. Sem uma reposta de política econômica oportuna e mais holística, essas flutuações provavelmente se tornarão mais frequentes e acentuadas, o que aumentará a instabilidade financeira e os ciclos viciosos e, com isso, os riscos de acidentes de mercado e erros de política econômica.

À primeira vista, essas três narrativas parecem contraditórias, particularmente a primeira e a segunda. No entanto, isso não tem que ser assim, se elas se desenrolarem de forma sequencial, e não de modo simultâneo.

Durante um futuro mais próximo, o equilíbrio em nível baixo provavelmente vai continuar, e os bancos centrais ainda terão certa capacidade de reprimir a volatilidade financeira.

Mas, como detalhei em meu novo livro, "The Only Game in Town: Central Banks, Instability and Avoiding the Next Collapse", a situação atual está sofrendo uma pressão cada vez maior; e isso vai se intensificar no período à frente.

Entre os desafios mais visíveis no curto prazo estão as implicações de política e governança do crescimento baixo, como a ascensão dos partidos contrários ao establishment nos dois lados do Atlântico e cada vez mais em economias emergentes, assim como as consequências adversas imprevistas e os danos colaterais das taxas de juros negativas.

Menos visível, mas igualmente instrumental para o colapso da estabilidade econômica e financeira, é o impacto mais profundo de um longo período de crescimento baixo e não inclusivo. Consequências como uma taxa de desemprego alarmante entre os jovens em muitas partes da Europa e grandes aumentos generalizados no trio da desigualdade (renda, patrimônio e oportunidade) estão acentuando uma perda de confiança já notável tanto no 'establishment' público quanto no privado.

Junto com a transformação e a migração do risco financeiro, incluindo o excesso de confiança do investidor na profundidade da liquidez do mercado, essas condições estão tornando o sistema como um todo menos estável e, as políticas monetárias pouco convencionais, menos efetivas. Se você adicionar a coordenação inadequada entre as políticas econômicas mundiais, há verdadeiras dúvidas sobre se um equilíbrio de crescimento baixo, mas sustentável, pode ser mantido por muitos anos mais.

Em vez de enquadrar esses cenários como narrativas excludentes, talvez seja mais adequado e perspicaz combinar os três em um plano de ação para o futuro da economia mundial e dos mercados.

A menos que ocorra um enorme erro de política econômica e/ou um grande acidente de mercado, o futuro imediato promete mais do mesmo: crescimento global lento e relativamente estável e bancos centrais ainda tentando reprimir a volatilidade financeira. Mas, como os mercados sentem cada vez mais a magnitude das tensões e contradições subjacentes, é provável que a instabilidade financeira aumente, o que poderia complicar a situação até nas economias mais bem administradas. Nessas condições, seria mais difícil manter o crescimento lento e estável e calma financeira, e a confiança do mercado flutuaria em uma faixa cada vez maior, com oscilações mais frequentes e mais violentas.

Em um ambiente assim, as políticas dos bancos centrais para reprimir a volatilidade seriam cada vez mais pressionadas, e alguns dos bancos poderiam observar que seu envolvimento se torna ineficaz e talvez até contraproducente. Tudo isso deixaria a economia global mais perto de uma encruzilhada dentro dos próximos três anos: o caminho atual de crescimento lento e estável, junto com a volatilidade financeira reprimida, acabaria, reduzindo as possibilidades a dois caminhos divergentes. Qual deles será seguido - o de crescimento maior e mais inclusivo e estabilidade financeira ou o de recessão e instabilidade financeira - vai depender de se os políticos proporcionarão uma transição bem-sucedida da dependência excessiva dos bancos centrais a uma postura de política econômica mais abrangente.

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