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Análise: Meirelles é o 2º salvador do Brasil? Talvez seja preciso cautela

David Biller

  • Ueslei Marcelino/Reuters

(Bloomberg) -- Há menos de um ano, Michel Temer comparou o então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a Jesus Cristo. Agora, Temer é o presidente interino e seu recém-nomeado ministro da Fazenda tem sido saudado como possível salvador da economia. Talvez os investidores devam ter cautela.

Quem acredita que o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está bem posicionado para ajudar a tirar o Brasil da pior recessão em um século deveria relembrar a situação de um ano atrás para perceber os perigos em depositar confiança demais em um único homem.

Levy assumiu em janeiro de 2015, em meio à certeza de que ele consertaria a economia do Brasil. Não deu certo, e os títulos do país denominados em dólar caíram 17% durante os 11 meses em que ficou no cargo. Desde que a Câmara votou a favor do seguimento do processo de impeachment de Dilma Rousseff, os títulos deram retorno de 1,1%, superando a média dos mercados emergentes.

Reconquistar a confiança dos investidores é um objetivo-chave para Temer, que assumiu a presidência no dia 12 de maio depois de uma votação no Senado que deixou Dilma Rousseff mais perto do impeachment e obrigou-a a se afastar.

Temer nomeou Meirelles poucas horas depois de assumir, apostando que o ex-executivo do BankBoston e ex-presidente do Banco Central durante o boom da década de 2000 será capaz de convencer os investidores de que o governo quer de fato fortalecer as contas públicas, enfraquecer a inflação e voltar a crescer.

"Não interessa o quão forte e dedicado foi Levy, houve forças fora de seu controle que o impediram de entregar", disse Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs. "Se a briga política não acabar, se as condições de governabilidade permanecerem fracas, se houver hesitações ou dificuldades em avançar com a agenda política, o mercado não vai reagir bem".

Decepção

A tendência tecnocrata de Levy foi o motivo de seu fracasso, enquanto que Meirelles sabe como fazer as coisas acontecerem em Brasília, de acordo com Edwin Gutiérrez, diretor do setor de dívida soberana de mercados emergentes da Aberdeen Asset Management em Londres, que administra uma carteira de US$ 11 bilhões.

Meirelles é um operador político mais experiente, disse João Augusto de Castro Neves, diretor para a América Latina em Washington da consultoria de risco político Eurasia.

Mas a situação agora é mais difícil, com crescimento mais lento, polarização política mais acentuada e maiores chances de protestos e greves gerais, o que pode tornar seu trabalho ainda mais difícil, segundo Castro Neves. O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro se contraiu 3,8% no ano passado e deve encolher mais 3,7% neste ano. A inflação está em torno de 10% ao ano.

Antecipando uma mudança no governo, os investidores fizeram com que os títulos do país disparassem, tornaram o real a moeda de melhor desempenho do mundo e fizeram lances a preços mais altos no mercado de ações.

À medida que o governo de Temer anunciar suas propostas ambiciosas, o mercado se tornará ainda mais otimista com o Brasil e depois se frustrará com a realidade, disse Gutiérrez, da Aberdeen.

"A reação inicial será: 'Esse pessoal finalmente vai conseguir consertar o Brasil!'", disse ele. "A decepção vem depois".

(Com a colaboração de Carla Simões)

Em 1º discurso, Temer engasga, perde a voz e pede água

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