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Nova divisão ameaça Europa após muro de Berlim

Donna Abu-Nasr

(Bloomberg) -- O muro que dividiu Berlim separou o mundo em ocidente e oriente durante três décadas. Hoje, o risco é apresentado por uma barreira entre duas culturas.

Na que é conhecida localmente como "rua árabe", mulheres sírias com lenços na cabeça compram as amêndoas verdes e a molokhia, uma folha parecida com o espinafre, para preparar o ensopado que elas faziam em Alepo ou Homs. Homens fumam cachimbos de água em bares de narguilé. Uma confeitaria anuncia especialidades da cidade de Idlib. Pouco mais de um ano após o primeiro grande fluxo de sírios em busca de asilo na capital alemã, o árabe desalojou o alemão e o turco.

"Eu nunca vi uma coisa como essa antes", diz Mohammed Zamout, 40, gerente de um restaurante libanês especializado em frango. Ele morou metade da vida em Berlim e viu Sonnenallee se transformar de relíquia da República Democrática Alemã em um pedaço de Beirute ou Damasco.

Desde os atentados em Paris e Bruxelas, realizados por extremistas islâmicos locais, o choque entre os refugiados religiosos e seus anfitriões laicos tem gerado suspeita e desconfiança mútuas. Embora a cena inofensiva em Berlim reflita a mistura de culturas e culinárias encontrada na maioria das grandes cidades, ela também representa o desafio enfrentado pelas democracias liberais da Europa do pós-guerra para encontrar um equilíbrio entre os objetivos estratégicos e humanitários e as demandas de seus eleitores, cada vez mais preocupados e ressentidos.

Terreno fértil

Vozes críticas pedem que as fronteiras alemãs sejam fechadas, depois da chegada de mais de 1 milhão de refugiados no ano passado, mas a chanceler Angela Merkel disse que a integração é o maior desafio que o país enfrenta.

Entrevistas com muçulmanos em Berlim, Bruxelas e Viena mostraram como muitos não conseguem se integrar, não estão dispostos a isso ou simplesmente não sabem como fazê-lo. Alguns disseram que temem que sua fé se dilua e que seus filhos a percam, o que está gerando uma proliferação de jardins de infância islâmicos em alguns lugares. Outros disseram que sentem que os acusam pelas ações extremistas de alguns poucos.

"Temos que evitar a qualquer custo a criação de subculturas ou guetos porque, no pior dos casos, eles podem se tornar um terreno fértil ideal para o radicalismo", disse Markus Ziener, acadêmico de Berlim, que tem uma amiga que tirou o filho de uma escola primária perto de Sonnenallee porque as outras crianças não falavam alemão. "De certo modo, é algo em que já fracassamos se olharmos para certas áreas de Berlim e outros lugares".

Integração

O que é mais difícil é convencer os que acabam de chegar do mundo árabe que integrar-se não é uma concessão, mas uma necessidade. "Muitos dos que vieram para cá participaram em uma revolução em seu país natal", disse Firas Alshater, 25, que chegou na Alemanha há três anos, enquanto comia em uma cafeteria. "Eles querem liberdade e democracia, mas não querem dar liberdade e democracia ao seu povo".

Um problema importante, segundo os muçulmanos, é que a maioria dos líderes religiosos vem de fora da Europa, inclusive do Oriente Médio, não falam o idioma local e não estão familiarizados com os problemas que os muçulmanos enfrentam no dia a dia na Europa. Problemas que vão desde tolerar demonstrações públicas de afeto até o consumo de bebidas alcoólicas e de drogas em uma sociedade que dá aos refugiados abrigo e uma bolsa mensal de pelo menos 440 euros (US$ 450) por adulto.

Hassan Abied, um educador belga de origem marroquina, disse que vê muitos jovens com os mesmos problemas em Bruxelas. Tomando chá marroquino no distrito Schaerbeek, em frente ao apartamento onde foram encontrados materiais para a fabricação de bombas, Abied disse que há um conflito entre a vida dentro e fora de casa.

Os jovens perguntam se é um problema frequentar escolas mistas, porque em casa lhes dizem que os sexos não devem se misturar. Perguntam se devem sair da mesa quando um amigo pede uma bebida alcoólica ou se eleições são proibidas, como dizem alguns clérigos. Eles então acabam recorrendo à internet em busca de respostas e têm maior probabilidade de entrar em contato com radicais, disse Abied.

"Alguns jovens perguntam se estão em falta com o Islã porque não moram em um país muçulmano e porque fazem coisas que consideram contrárias ao Islã", disse Abied. "Não há diálogo entre os filhos e os pais sobre esse assunto e em seus sermões os clérigos só falam em rezar e fazer jejum, sem tocar questões sociais desse tipo".

Na Áustria, onde o governo exige que os refugiados participem de cursos de orientação, o foco agora é garantir que a educação da primeira infância não alimente a noção de "nós e eles".

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