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Bloomberg View: Bancos centrais necessitam de ajuda

Mohamed El-Erian

(Bloomberg) -- Nas resoluções do encontro do Grupo dos Sete nesta semana e na última rodada de negociações entre países europeus sobre a Grécia, ficou claro que autoridades de nações desenvolvidas reconhecem que seus problemas exigem um novo tipo de resposta que substitua o uso prolongado de ferramentas de curto prazo e curto alcance.

Demorou para esse reconhecimento se manifestar. A julgar pela lamentável ausência de planos de ação detalhados e com credibilidade, ainda vai levar tempo para esse reconhecimento se traduzir em progresso na prática.

Antes da reunião do G-7 no Japão, diversos países integrantes do grupo deram a entender que suas posturas individuais e coletivas precisam evoluir. A Alemanha criticou a dependência exagerada dos bancos centrais e alertou para a necessidade de reformas estruturais. Canadá e Japão defenderam o uso mais agressivo e criativo da política fiscal. Os EUA pediram que o Japão resistisse à tentação de intervir para depreciar o iene.

Estagnação secular

No começo da semana, os parceiros europeus da Grécia concluíram que é preciso haver maior ênfase no alívio da dívida daquela economia tão fragilizada. Durante teleconferência com jornalistas na quarta-feira, um representante do Fundo Monetário Internacional, que falou sob condição de anonimato, afirmou haver consenso de que a dívida da Grécia é "altamente insustentável" e precisa ser aliviada. Os envolvidos aceitaram os objetivos em termos do financiamento bruto necessário no curto e longo prazo. Aceitam até mesmo os prazos, muito longos, para cobrir essa dívida até 2060.

Esses desdobramentos notáveis refletem uma evolução importante de perspectiva, na direção de avaliar as condições estruturais e seculares e se distanciando da ênfase excessiva em considerações cíclicas. Essa mudança tem três determinantes: a decepção recorrente com o crescimento econômico apesar do extraordinário estímulo monetário e, no caso da Grécia, apesar dos assustadores pacotes de resgate; temores de que os benefícios obtidos com o envolvimento não convencional dos bancos centrais estão sendo ofuscados pelo acúmulo de riscos de danos colaterais e consequências indesejadas; e reconhecimento de que o contexto político ficou mais complicado com o avanço de movimentos contra o status quo, diante da maior desconfiança da população em relação às "elites" dos setores público e privado.

A esperança é que essa perspectiva leve à implantação de reformas estruturais em prol do crescimento, a reformas tributárias paralelas com a diminuição da austeridade fiscal, a alívio das dívidas para segmentos com ônus insuportável, e à efetiva coordenação global de políticas.

Porém, é frustrante o ritmo de transformação dessa percepção coletiva em decisões confiáveis.

No caso da Grécia, houve reconhecimento atrasado da realidade pelos credores europeus, de que o alívio da dívida é condição necessária (embora não suficiente) para o país ter qualquer chance realista de restaurar sua viabilidade econômica e financeira de forma duradoura. Porém, esse reconhecimento não foi traduzido em ações claras. "Fundamentalmente, precisamos de garantias de que o universo de medidas com o qual a Europa está disposta a se comprometer é consistente com o que acreditamos ser necessário para produzir alívio da dívida", afirmou o representante do FMI que descreveu as negociações na quarta-feira. "Não temos isso ainda."

Consequentemente, o FMI não está disposto a apoiar com empréstimos o entendimento sobre a Grécia logrado nesta semana. Enquanto isso, dificilmente os integrantes do G-7 implementarão políticas muito diferentes quando seus representantes voltarem para casa. A transição crucial de palavras apaziguadoras para medidas efetivas novamente não será concretizada.

Uma conscientização maior é ingrediente essencial para adaptações duráveis e correções de trajetória. Assim, há esperança de que as economias avançadas estejam mais perto de colocar em prática a necessária resposta pública de natureza mais abrangente. Se não for desta vez, quem sabe da próxima. Mas o tempo não corre a favor.

Um aspecto preocupante dos impedimentos estruturais ao crescimento é que, quanto mais demoram para serem tratados, mais se tornam arraigados. Os problemas do crescimento hoje ficam mais difíceis de serem resolvidos porque o potencial de crescimento de amanhã é prejudicado. Isso também enfraquece a eficácia de qualquer plano de resposta.

Essas consequências econômicas indesejadas são amplificadas por condições políticas fluidas. Movimentos contra o status quo se beneficiam da história recente de crescimento insuficiente e que favoreceu principalmente um segmento pequeno (e já abastado) da população. Na espera por medidas, a política tende a retirar ainda mais apoio de partidos políticos tradicionais, o que reduz o potencial de concretização de planos construtivos entre vários partidos. A alternativa - mudança radical na direção de políticas extremas defendidas por movimentos anti-establishment - tende a ser limitada pelas regras do sistema. A experiência do partido Syriza na Grécia ilustra vividamente o efeito limitador dessas proteções institucionais.

Os países avançados devem ser parabenizados pela disposição de incorporar mais considerações estruturais e seculares em suas deliberações econômicas. Mas a cada trimestre que esperam para colocar em prática medidas abrangentes e confiáveis, aumenta a dificuldade de remoção dos impedimentos ao crescimento inclusivo e o contexto político fica ainda mais complicado.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial da Bloomberg LP e seus proprietários.

Título em inglês: Central Banks Can't Go It Alone Anymore

Para entrar em contato com o repórter: Mohamed El-Erian Nova York, melerian@bloomberg.net, Para entrar em contato com os editores responsáveis: Telma Marotto tmarotto1@bloomberg.net, Patricia Xavier

©2016 Bloomberg L.P.

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