Risco de calotes na China ameaça produtos que valem 35% do PIB

Bloomberg News

(Bloomberg) -- O risco de uma reação em cadeia de calotes paira sobre o mercado de produtos de gestão de fortunas (WMPs, na sigla em inglês) da China, avaliado em US$ 3,6 trilhões.

Os WMPs, que tradicionalmente canalizaram o dinheiro de indivíduos chineses para ativos, como títulos corporativos, ações ou derivativos, estão investindo cada vez mais uns nos outros. Esse tipo de ativo pode ter chegado a 2,6 trilhões de yuans (US$ 396 bilhões) no ano passado, segundo estimativas da Autonomous Research publicadas neste mês.

Essa tendência preocupa os analistas do mercado chinês. Para começar, ela significa que um mau investimento de um WMP poderia afetar os outros, provocando a perda de confiança em produtos que desempenham um papel importante no financiamento bancário.

Também indica que os WMPs estão tendo dificuldade para encontrar uma quantidade suficiente de ativos bons para cumprir suas metas de retorno. Caso ocorram perdas generalizadas, a estrutura de propriedade cruzada gerará mais incerteza sobre quem está vulnerável - um fator que provocou pânico em 2008 quando os problemas do setor de títulos hipotecários dos EUA desencadearam uma crise financeira mundial.

Esses temores se intensificaram neste ano porque pelo menos dez empresas chinesas deram calote em títulos do mercado interno, o Shanghai Composite Index caiu 20% e a economia da China mostrou poucos sinais de recuperação depois da expansão mais fraca em 25 anos.

"Há abundância de liquidez no sistema financeiro, mas faltam ativos de yield alto para investir", disse Harrison Hu, economista-chefe para a Grande China do Royal Bank of Scotland em Cingapura. "Todos os riscos estão se acumulando em um sistema financeiro saturado".

Respaldo implícito

A emissão de WMPs, que são vendidos pelos bancos, mas muitas vezes ficam de fora do balanço deles, disparou nos últimos três anos porque os bancos disputavam fundos e comissões e os clientes exigiam retornos maiores que os oferecidos pelas poupanças. Muita gente considera que esses produtos, que oferecem distintos níveis de garantias explícitas, contam com um respaldo implícito de bancos ou de governos locais.

O valor investido em WMPs subiu para 23,5 trilhões de yuans, o equivalente a 35% do PIB da China, no fim de 2015, em comparação com 7,1 trilhões três anos antes, de acordo com a China Central Depository & Clearing Co.

Em média, 3.500 WMPs foram emitidos por semana no ano passado, e alguns bancos de nível médio, como China Merchants Bank e China Everbright Bank, têm uma grande dependência desses produtos para o financiamento.

As posições em ativos interbancários de WMPs chegaram a 3 trilhões de yuans até dezembro, contra 496 bilhões de yuans um ano antes, de acordo com dados publicados pela câmara de compensações no mês passado.

Até 8% desses produtos foram comprados por outros WMPs, de acordo com a Autonomous Research, que fez sua estimativa a partir de dados publicados pelos bancos e de dados de transações interbancárias. A empresa especula que, em alguns casos, os produtos estão sendo "comprados e vendidos com frequência" a fim de gerar comissões para os bancos.

"Estamos começando a ver camadas de obrigações sobre os mesmos ativos subjacentes, assim como aconteceu com os títulos respaldados por ativos hipotecários de alto risco, obrigações de dívida colateralizada (CDOs) e CDOs ao quadrado nos EUA", disse Charlene Chu, sócia da Autonomous Research, em uma entrevista no dia 17 de maio. Chu ganhou notoriedade ao alertar sobre os riscos de inadimplência na China em seu antigo cargo na Fitch Ratings.

--Com a colaboração de Paul Panckhurst 

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