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Análise: Dinheiro fácil nos EUA ajudou a inflar setor de energia

Rani Molla e Lisa Abramowicz

(Bloomberg) -- O sucesso e o tombo do petróleo de xisto entraram na lista das consequências inesperadas dos esforços do banco central americano, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), para ajudar a economia.

O método de fratura hidráulica (fracking) de extração de petróleo e gás de rochas de xisto existe há décadas, mas não decolou até logo depois da crise financeira, quando uma confluência de eventos deu a especuladores e pequenos empreendimentos de perfuração acesso a bilhões de dólares em financiamento relativamente barato.

No final de 2008, o Fed embarcou num programa de estímulos sem precedentes para baixar os custos de captação, com a intenção de motivar crescimento econômico.

As políticas de dinheiro fácil conseguiram tirar os EUA da recessão, mas também criaram um ambiente no qual investidores vorazes por rendimento partiram para aplicações mais arriscadas nos EUA, especialmente o mercado de títulos com grau especulativo (junk bonds), que praticamente dobrou de tamanho desde o fim de 2008.

O acesso generoso a financiamento e a disparada dos preços das commodities beneficiaram empresas americanas de energia com grau especulativo, que triplicaram suas dívidas naquele período.

O aumento no endividamento acompanhou a drástica elevação da produção de petróleo pelo método de fratura hidráulica nos EUA. Correlação não é causa e o xisto estava se provando uma forma lucrativa de tornar o país mais independente do petróleo vindo de fora.

Mas essa produção não teria recebido impulso sem tantas fontes de empréstimo. Provavelmente teria sido uma trajetória lenta e consistente de alta, com empresas se provando individualmente para os investidores.

A verdade é que a enxurrada de dinheiro para junk bonds, parcerias limitadas e outros veículos de investimento em energia foi tão imensa que empresas estáveis e instáveis tiveram acesso fácil a financiamento.

A produção de petróleo e gás natural dos EUA deu um salto de 42% entre 2008 e 2014, ajudando a criar uma situação de excedente de oferta que acabou superando de longe a demanda. O barril desabou de mais de US$ 100 para o menor preço em mais de uma década.

Isso deveria ter favorecido a economia americana porque a gasolina mais barata ajuda os consumidores ao reduzir as despesas fixas da casa. Mas a dor das perdas dos investimentos se sobrepôs aos efeitos positivos, porque investidores de varejo, fundos de pensão e fundações colocaram montanhas de dinheiro em empresas de energia com grau especulativo e que estavam ficando mais frágeis.

Alguns desses investidores nem se deram conta disso, porque a dívida do setor energético passou a representar uma parte cada vez maior do mercado geral de junk bonds. Ou seja, quem quisesse aplicar em junk bonds, colocava dinheiro em energia, sabendo ou não. Foi ótimo, até que ficou ruim.

Aí não havia mais interesse em emprestar para essas companhias, e muitas já estavam quebrando. Criou-se uma espiral na qual a falta de financiamento fácil causava mais calotes e diminuía o crédito disponível para empresas de energia.

Esta é a situação atual, com a insolvência e as perdas aumentando, mesmo com a recuperação da cotação do petróleo e a volta de algum interesse por companhias ligadas a commodities.

As empresas de perfuração em rochas de xisto não vão desaparecer. Algumas vão sobreviver e prosperar com a estabilização dos preços do petróleo e a saída de concorrentes do mercado. Mas esse ciclo de ascensão e queda não teria sido tão grande e doloroso se não fosse pela alavancagem dessas companhias.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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