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Atraso de salário ajuda a aumentar inadimplência no Brasil

Francisco Marcelino e Cristiane Lucchesi

(Bloomberg) -- O sonho de conseguir um trabalho pode não resolver o problema de milhões de brasileiros desempregados que enfrentam dificuldades para fazer o pagamento de seus empréstimos em dia.

Basta perguntar a Enéas Vinieri, afiador de ferramentas da fabricante de autopeças Mecano Fabril, de Osasco. Vinieri, que trabalha na empresa há 31 anos, começou a receber os salários atrasados no ano passado, quando as vendas da empresa caíram e a sede da Mecano foi tomada em uma batalha judicial. O atraso mais longo durou três meses.

Sem renda, o trabalhador de 53 anos percebeu que iria ficar em dificuldades para honrar um empréstimo de R$ 9.500 feito para construir um novo cômodo em sua casa e, por isso, ele vendeu um carro da família para quitar a dívida. A manobra foi suficiente para mantê-lo fora da lista de inadimplentes até a empresa reiniciar o pagamento dos salários após um acordo judicial que reduziu salários e a jornada de trabalho de todos os funcionários da Mecano. Um representante da empresa de Vinieri não deu retorno aos telefonemas em busca de comentários sobre o atraso de salários.

Muitos brasileiros enfrentam o mesmo problema. Em uma pesquisa deste ano com devedores com dívidas com pagamentos atrasados, 26 por cento culparam os atrasos salariais pela inadimplência, contra 3 por cento no ano passado, segundo a Recovery do Brasil Consultoria, maior empresa de gestão de créditos podres da América Latina. O desemprego foi citado por 24 por cento das 25.000 pessoas consultadas e o descontrole financeiro foi o motivo número 1, com 45 por cento.

Os salários atrasados se tornaram um problema maior no fim do ano passado, disse André Calabró, responsável pela recuperação de dívidas inadimplentes na Recovery. No Brasil, os empregadores normalmente têm custos mais elevados no quarto trimestre, quando são obrigados a pagar décimo terceiro salário. A recessão no Brasil tornou esse pagamento ainda mais difícil para as empresas e os governos locais, segundo Calabró, cuja empresa é controlada pelo Itaú Unibanco.

A indenização obrigatória em caso de demissão sem justa causa protege os trabalhadores no Brasil e ao mesmo tempo atua como desincentivo para que os empregadores reduzam suas equipes. Os pacotes incluem pelo menos 30 dias de salário, mais três dias extras por cada ano de emprego até o máximo de 90 dias extras. Os empregadores também precisam pagar uma multa de 50 por cento do FGTS.

"A situação do país está tão ruim que pode estar contribuindo para atrasar o desemprego. A falta de caixa pode estar segurando o número de demissões, porque as empresas não têm dinheiro para pagar os direitos rescisórios", disse Marco Maciel, economista da Bloomberg Intelligente no Brasil, em entrevista.

Das 5.570 cidades do Brasil, 576 atrasaram os salários dos servidores públicos, segundo a Confederação Nacional de Municípios. O atraso é de mais de seis meses em cerca de 11 por cento dos casos. A legislação brasileira restringe a demissão de servidores públicos.

"Isso é muito preocupante e significa que será mais difícil recuperar dívidas em atraso," disse Calabró, da Recovery. "Você não consegue negociar um pagamento com uma pessoa sem renda, seja por desemprego ou por falta de recebimento de salários."

Título em inglês: A Job in Brazil No Guarantee of Paycheck, Fueling Delinquencies

Para entrar em contato com os repórteres: Francisco Marcelino São Paulo, mdeoliveira@bloomberg.net, Cristiane Lucchesi em São Paulo, clucchesi5@bloomberg.net, Para entrar em contato com os editores responsáveis: Telma Marotto tmarotto1@bloomberg.net, Patricia Xavier

©2016 Bloomberg L.P.

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