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Como o banco suíço BSI pegou atalho para a ruína na Ásia

Andrea Tan

(Bloomberg) -- Até mesmo no cruel mundo da gestão de fortunas a notícia de uma deserção em massa no RBS Coutts, o respeitado banco da realeza britânica, foi um choque.

Bancos atingidos pela crise financeira brigavam por veteranos da Ásia que poderiam trazer as lucrativas contas das crescentes fileiras de milionários da região e o manda-chuva do Coutts, Hanspeter Brunner, havia pulado do barco com um desconcertante grupo de 70 colegas. O destino deles? O BSI, um pequeno banco suíço que queria crescer rapidamente.

Este golpe, em 2009, desencadeou uma onda de acontecimentos que agora empurra o BSI para o centro do abrangente escândalo financeiro envolvendo o 1Malaysia Development Bhd. O caso 1MDB se espalhou da Malásia para Cingapura, Abu Dhabi, Suíça, Caribe, Hong Kong e EUA e atingiu os altos escalões das finanças internacionais.

Mas nenhum banco chamou tanto a atenção das autoridades quanto o BSI e sua operação em Cingapura, onde diversos executivos bancários bem relacionados atualmente estão sendo investigados. Entrevistas e documentos judiciais contam uma história de acordos apressados, controles relaxados, bônus de milhões de dólares e enormes somas desviadas para obscuros fundos offshore com poucas perguntas feitas. As investigações deverão somar mais uma peça ao quebra-cabeças sobre o que aconteceu com os bilhões desaparecidos do 1MDB.

A primeira conexão nessa rede é Yak Yew Chee, um dos renegados que desertaram com Brunner do Coutts e o homem que uniu o BSI e o 1MDB. Yak, 57, tinha laços antigos com pessoas envolvidas no fundo estatal malaio, que foi criado no mesmo ano que Brunner deixou o Coutts e foi chamado pelo primeiro-ministro Najib Razak de "corajoso e ousado".

Entre essas conexões estava o extravagante financista malaio Low Taek Jho, conhecido como Jho Low, que frequentava festas com Paris Hilton e era amigo próximo do filho adotivo de Najib, Riza Aziz. Yak era o banqueiro privado de Low no Coutts e levou o relacionamento com ele para o BSI, segundo pessoas familiarizadas com os acontecimentos.

Low, CEO do fundo de investimento Jynwel Capital, com sede em Hong Kong, disse que ofereceu consultoria ao 1MDB, que não violou nenhuma lei e que foi chamado por uma comissão parlamentar malaia para auxiliar sua investigação sobre o fundo.

Low era o titular beneficiário de várias contas no BSI e realizava regularmente grandes transferências entre elas e também entre contas que ele controlava em outros bancos, disseram pessoas informadas sobre as transações. Transferências tão grandes normalmente teriam chamado a atenção se ocorressem entre contas com donos diferentes, disseram as pessoas. Low não estava disponível para comentar, segundo uma mulher que atendeu o telefone em seu escritório.

As conexões de Yak ajudaram a unidade de Cingapura do BSI a abocanhar negócios avaliados em US$ 2,5 bilhões a US$ 3 bilhões com o 1MDB e Low, transformando-o em estrela no banco suíço de 143 anos, disseram as pessoas.

'Sucesso fantástico'

Um memorando de 2011 do CEO do banco na época felicitava Yak por seus "sucessos comerciais fantásticos" e sua "imensa contribuição" ao banco com sede em Lugano, segundo documentos judiciais apresentados por Yak. Yak ganhou 27 milhões de dólares de Cingapura (US$ 20 milhões) de 2011 a 2015 no BSI e em alguns anos ganhou mais que seu chefe, Brunner, disseram as pessoas.

O advogado de Yak, do escritório Legal Clinic, disse que ele não poderia comentar o assunto. O BSI disse que continua cooperando com as autoridades e preferiu não fazer mais comentários. O fundo 1MDB disse que não havia nada a acrescentar às suas declarações anteriores sobre seus laços com o BSI. O banco Coutts também preferiu não comentar.

Os órgãos reguladores de Cingapura e da Suíça estão à frente das investigações sobre transações ligadas ao 1MDB. A procuradoria-geral malaia recusou dois pedidos do banco central do país para abrir um processo criminal contra o fundo. O banco central disse que uma penalidade imposta ao 1MDB em abril marcava o fim de sua investigação ao fundo. O 1MDB e Najib sempre negaram qualquer irregularidade.

Os investigadores de Cingapura têm sido especialmente contundentes em relação à forma como o BSI operava. Ravi Menon, diretor-geral da autoridade monetária de Cingapura, disse que este é "o pior caso de falha de controle e falta grave que já vimos no setor financeiro de Cingapura". A reguladora financeira do país disse que multaria o BSI em cerca de 13,3 milhões de dólares de Cingapura e revogaria a licença do banco na cidade-estado.

Embora Yak possa ter ajudado a trazer o negócio com o 1MDB, a investigação sobre o destino do dinheiro se centra, em grande parte, em outro desertor do Coutts: Yeo Jiawei. O executivo bancário de 33 anos foi descrito pelos procuradores como peça central dos fatos que levaram o BSI a perder sua licença em Cingapura.

Yeo era um planejador de fortunas do BSI que aparecia em eventos sociais com Low, 34, e recomendava produtos de investimento ao 1MDB, segundo pessoas informadas sobre o assunto.

Com o desenrolar das investigações, Yeo pediu em março que seu gerente, Kevin Swampillai, informasse falsamente à polícia que o dinheiro transferido à Bridgerock Investment, empresa cujo beneficiário efetivo é Yeo, pertencia a outra pessoa, segundo documentos judiciais.

Lavagem de dinheiro

Yeo foi o primeiro executivo bancário acusado por fatos decorrentes das investigações ao 1MDB. Ele está detido desde 15 de abril com nove acusações, incluindo lavagem de dinheiro, falsificação e fraude ao BSI por esconder um pagamento anual de US$ 1,6 milhão que teria recebido de um fundo das Ilhas Cayman. O fundo recebeu US$ 2,3 bilhões em 2012 de uma subsidiária do 1MDB chamada Brazen Sky, segundo o relatório das audiências parlamentares malaias.

O advogado de Yeo disse à Justiça que pretende rejeitar as acusações.

Cinco outras pessoas que foram do Coutts para o BSI, incluindo Yak, também poderão enfrentar processos criminais após serem encaminhados aos procuradores pela autoridade monetária de Cingapura. Apenas Swampillai, chefe dos serviços de gestão de fortunas, ainda está no banco e foi suspenso, segundo a autoridade monetária. Os advogados de Swampillai, do escritório Aldgate Chambers, preferiram não comentar o assunto.

Yak disse em um e-mail de 14 de agosto, reproduzido em documentos judiciais, que Brunner estava tentando transformá-lo em "bode expiatório dos tipos de coisas que os diretores seniores sabiam e sobre as quais deveriam assumir plena responsabilidade em vez de dizerem que nada havia sido feito ilegalmente".

Um comitê que incluía Brunner aprovava e vetava grandes contas de clientes, incluindo aquelas ligadas ao 1MDB e entidades relacionadas, segundo as pessoas familiarizadas com os fatos. Cidadão suíço, Brunner também havia viajado para se reunir com os clientes, disseram as pessoas.

Yak deixou o BSI em fevereiro e um mês depois o BSI anunciou que Brunner, 64, estava se aposentando, agradecendo a ele pela "agradável colaboração". Advogados do escritório NLC Law Asia que representam Brunner, nomeado "banqueiro privado de destaque" da Ásia pela revista Private Banker International no ano anterior à mudança para o BSI, preferiu não comentar.

Em meio a tudo isso, o BSI como um todo está sendo comprado pelo EFG International. A aquisição, que avança a um preço reduzido, foi aprovada pelos órgãos reguladores suíços em 24 de maio, mesmo data da renúncia do CEO do grupo BSI e do anúncio das autoridades de Cingapura de que sua filial na cidade-estado seria fechada.

O processo criminal foi intitulado Public Prosecutor v Yeo Jiawei, no Singapore State Courts.

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