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Mercado global de títulos é o mais caro da história

Susanne Walker Barton e Liz Capo McCormick

(Bloomberg) -- O atual mercado de títulos está desafiando todas as comparações conhecidas pelo homem.

Nunca antes os traders pagaram tanto para ter trilhões de dólares em dívidas e receberam tão pouco em troca. Jack Malvey, uma das figuras mais respeitadas no mercado de títulos, pesquisou até 1871 e não conseguiu achar uma época em que os yields globais tenham estado nem perto dos valores mínimos de hoje. Bill Gross foi mais longe ainda e tuitou que os atuais yields são os mais baixos em "500 anos de registros históricos".

Um crescimento global sem brilho, taxas de juros negativas e compras extraordinárias dos bancos centrais sustentaram a demanda por dívidas de governos apesar de que os yields para mais de US$ 8 trilhões nos títulos são negativos. Contudo, à medida que os investidores abandonam toda margem de segurança para aumentar cada vez mais os preços com lances, a grande preocupação é que a demanda insaciável os tenha tornado cegos aos possíveis perigos que poderiam resultar em perdas dolorosas - especialmente porque o Federal Reserve cogita aumentar as taxas.

"Sem dúvida, isso deixa os mercados muito mais vulneráveis", disse Torsten Slok, economista-chefe internacional do Deutsche Bank.

Anormalidade

Não poderia haver mais em jogo. A média de yields para as notas com vencimento em dez anos nos EUA, no Japão, na Alemanha e no Reino Unido, que emitiram mais de US$ 25 trilhões em dívida de governos, caiu para 0,69 por cento na semana passada, mostram dados compilados pelo Bank of New York Mellon. É a taxa mais baixa da história, muito inferior à média de 5 por cento ao longo de 145 anos.

Como o nome sugere, normalmente o 'term premium' -- juros extras demandados por investidores para emprestar dinheiro em prazos mais longos -- deveria ser positivo e assim foi nos últimos 50 anos. Porém desde o começo do ano, o prêmio se transformou em um desconto, fato que sugere que os investidores em títulos não podem ver nenhum risco no horizonte que elevaria os yields. O mesmo vale no Japão, na Alemanha e no Reino Unido, onde o 'term premium' se tornou negativo porque os yields de referência nos três mercados atingiram valores mínimos históricos na semana passada.

Pessimismo justificado

Para os pessimistas, há muitos motivos para continuarem pagando pela segurança da dívida dos governos - mesmo a preços astronômicos.

As atuais probabilidades de que os EUA entrem em recessão no próximo ano são as mais altas desde o começo da atual expansão há sete anos, segundo o JPMorgan Chase. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico também advertiu nesse mês que a economia global está caindo em uma "armadilha de baixo crescimento" autorrealizada. Além disso, a votação no Reino Unido sobre a permanência do país na União Europeia neste mês tem sido uma importante fonte de turbulência nos mercados.

Contudo, há quem diga que a flexibilização quantitativa (QE, na sigla em inglês), isto é, o enérgico estímulo à compra de papéis, perseguido atualmente pelos bancos centrais na Europa e no Japão, está fazendo com que muitos mercados de dívida percam as amarras a seu valor fundamental.

Isto poderia ajudar a explicar a demanda recorde nos leilões de dívida do governo americano neste ano. Como quase toda a dívida com yields negativos está concentrada na zona do euro e no Japão, os investidores estão comprando muitos títulos do Tesouro dos EUA, os quais oferecem alguns dos yields mais altos no mundo industrializado. A demanda nas vendas de notas com vencimento em dois, cinco e sete anos disparou e atingiu recordes históricos no mês passado, segundo dados compilados pela Bloomberg. Estrangeiros também compraram a maior quantidade de títulos do Tesouro americano desde 2011 nos leilões realizados em maio, mostraram dados compilados pela TD Securities.

Alarme

Alguns dos mais brilhantes especialistas do mercado de títulos estão dando o alarme acerca das possíveis consequências. Gross, o gerente do Janus Global Unconstrained Bond Fund, de US$ 1,3 bilhão, disse que os yields ultrabaixos de títulos no mundo são uma "supernova que um dia irá explodir".

Malvey, o estrategista-chefe de mercados globais do Bank of New York Mellon, é mais otimista, mas reconhece que "certamente a possibilidade de consequências involuntárias não pode ser descartada".

Seja qual for o caso, uma coisa está clara: nunca houve um mercado de títulos como este.

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