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Análise: Ilan ganha benefício da dúvida

Josué Leonel e Marisa Castellani

  • Marcelo Camargo/ Agência Brasil

(Bloomberg) -- O novo presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, mostrou que pode adotar uma abordagem flexível ao perseguir a meta de inflação de 4,5%. Após Goldfajn dizer que a convergência para o centro da meta deve ser "crível", o mercado entendeu que o objetivo atual, de atingir o centro da meta em 2017, pode ser prorrogado para 2018 ou ajustado para um número maior.

Goldfajn disse ontem que "é relevante que a trajetória de convergência ao centro da meta seja ao mesmo tempo desafiadora e crível". A expressão "crível" gerou a leitura de que o BC adotará maior flexibilidade no cumprimento da meta, pois o mercado considera quase impossível derrubar a inflação dos 7,2% projetados para este ano para 4,5% até o final de 2017.

O sinal de maior flexibilidade do BC não gerou reações negativas do mercado. A inflação implícita de dois anos, baseada no diferencial entre títulos, está praticamente estável em 6,4% há três dias. Isso sugere que o investidor não está entendendo que o BC ficou mais tolerante com a inflação.

Esse comedimento na reação do mercado é explicada, em parte, pelo fato de a nova equipe econômica ter reputação de ser mais ortodoxa do que a que está saindo, que não conseguiu colocar a inflação na meta em nenhum ano de sua gestão iniciada em 2011. Os resultados serão fundamentais para que esse voto de confiança não seja abalado.

O segundo motivo da tolerância do mercado foi Ilan ter usado também a expressão "desafiadora", sinalizando que o BC não está baixando a guarda na política monetária. Este termo poderia ter dois significados:

  1. Uma convergência "desafiadora" pode significar que o prazo para a convergência ao centro da meta, ainda que fique para 2018, não necessariamente será no final do ano, podendo ser na metade. Ou seja, no final das contas, a flexibilidade sinalizada por Ilan poderia ser limitada a apenas meio ano de prazo adicional;
  2. Outra hipótese é que o novo presidente do BC tenha sinalizado que adotará uma meta ajustada para 2017, como chegou a fazer a equipe de Armínio Fraga, da qual Ilan fazia parte e que comandou o BC até 2002. A expressão "desafiadora", nesse caso, significaria que a meta de 2017 poderia não ser mais 4,5%, como definido pela equipe anterior do BC, mas também não seriam os 5,5% projetados hoje pelo mercado.

Procurado, o Banco Central disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que não comenta avaliações de analistas de mercado.

Uma eventual meta ajustada deve ser um número intermediário, talvez de 5% a 5,2%, diz Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos. Isso significa, diz a economista, que o BC vai esperar que as expectativas de inflação melhorem mais antes de mexer nos juros. Solange espera corte apenas em outubro. "As expectativas precisam cair mais."

Carlos Kawall, economista do Banco Safra, que considera mais provável a convergência em prazo maior do que o ajuste do objetivo de 2017, não vê perda de credibilidade do BC com a sinalização, ainda não confirmada oficialmente, de mudança na convergência. "Isso não significa leniência com inflação."

Srour considera que manter a meta de 4,5% para 2017 não apenas significaria que o BC não poderia cortar a Selic como teria de dar "choque de juros", elevando a taxa. Isso, contudo, não faria sentido dado que, diante da recessão e do desemprego, não haveria pressão de demanda. "O BC certamente vai contar com uma melhora da política fiscal para cumprir a meta em 2018."

O novo presidente do BC se comprometeu com o cumprimento das metas de inflação, mas sem especificar o prazo. Os investidores aguardam novos discursos ou comunicados oficiais do BC que esclareçam detalhes e, sobretudo, que confirmem ou não a mudança sinalizada ontem.

Ilan ganhou o benefício da dúvida, mas deve ser testado aos poucos. O maior desafio deve ser cumprir a meta de inflação sem poder influenciar a política fiscal, que é fundamental para o próprio sucesso da política do BC. "O BC vive um dilema muito forte", diz o economista Paulo Nepomuceno, da Coinvalores.

(Com a colaboração de Mario Sergio Lima e Vinícius Andrade)

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