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Análise: Chega de alimentar o pânico com o Brexit

Ashoka Mody

(Bloomberg) -- A narrativa de calamidade do primeiro-ministro britânico David Cameron, do Banco da Inglaterra, e de seus amigos oficiais ao redor do mundo está criando uma profecia autorrealizável de pânico financeiro.

Eles insistem que a economia britânica ficará permanentemente mais pobre e que os mercados globais serão abalados se o eleitorado do Reino Unido votar pela saída da União Europeia no referendo de quinta-feira.

Essas alegações se baseiam em análises pouco rigorosas. Aliás, são profundamente irresponsáveis. Não há dúvida de que, se os mercados entrarem em pânico, será por causa da histeria que as autoridades alimentaram. Para se redimir, precisam apresentar sinais claros para conter a turbulência financeira.

Se sair da UE, o Reino Unido fará menos trocas comerciais com a Europa e mais com outros países. É possível que o fluxo comercial total diminua um pouco durante a transição. Mas todos os economistas concordam que os custos dessa queda seriam pequenos e breves.

Segundo estudo recente do FMI (Fundo Monetário Internacional), a parcela de bens feitos no Reino Unido que são exportados para a UE encolheu de forma impressionante: de 60% em 2000 para 45% em 2014. Esse distanciamento da Europa, que cresce mais lentamente, e a aproximação de outras partes do mundo tende a continuar, independentemente do Brexit.

Assim, toda a campanha oficial contra o Brexit se baseia na alegação adicional de que a produtividade local desabaria.

Não há evidências que sustentem isso. Uma possível queda pequena e transitória do fluxo comercial não pode causar uma queda tão grande na produtividade. Há casos em que o aumento do comércio é associado ao aumento da produtividade, mas somente quando os países em questão saem do isolamento econômico.

Para as economias avançadas, as evidências apontam para a possibilidade oposta. As empresas mais produtivas são as exportadoras mais ativas e, quando fica mais difícil exportar, as mesmas redobram esforços para melhorar a produtividade.

Por décadas, enquanto o marco alemão se valorizava, os produtores locais conseguiram aumentar a eficiência e evitaram subir os preços dos bens que exportavam.

No mínimo, as consequências econômicas de longo prazo de uma saída do Reino Unido são neutras, dentro de uma margem pequena que economista nenhum pode calcular. Muitos já começam a admitir isso, como o ex-comandante do Banco da Inglaterra Mervyn King.

Sem nenhuma perda econômica fundamental dobrando a esquina, todas as previsões de pânico financeiro se baseiam em histórias com pouca base de sustentação.

O Banco da Inglaterra, por exemplo, argumenta que o temor do Brexit contribui para a desvalorização da libra esterlina desde o final de 2015. Esta conclusão não passa pelo teste mais simples.

A maior parte da depreciação ocorreu no início deste ano, quando as pesquisas de opinião --e especialmente as casas de apostas-- mostravam clara liderança da campanha pela permanência na UE e baixa probabilidade de saída do bloco. De fato, a moeda se estabilizou ao mesmo tempo em que a campanha pela saída ganhou popularidade, no início deste mês.

Mas a narrativa tem tal poder que faz todo analista enxergar o fantasma do Brexit em cada oscilação dos mercados. Dizem por aí que as ações de bancos europeus estão em queda por causa do Brexit.

Mas quem faz uma pausa para pensar reconhece que as ações dos bancos europeus vêm registrando desempenho inferior há anos, à medida que desmontam apostas alavancadas. Os bancos italianos, por exemplo, caminham à beira do precipício.

Da mesma forma, não existe fundamento para o argumento do Banco da Inglaterra de que o crescimento econômico já se desacelerou em antecipação à saída do Reino Unido da UE.

A economia britânica se comportou de forma compatível com o grau de austeridade fiscal: a austeridade gratuita adiou a recuperação a partir da crise financeira, um breve alívio em 2014 proporcionou uma retomada fugaz e a antecipação de mais austeridade está causando desaquecimento econômico. Nenhuma previsão pode --nem deve-- tentar distinguir o efeito do Brexit em meio a esses movimentos bem mais amplos.

A economia mundial está frágil. O comércio global, que é a melhor referência individual da saúde econômica mundial, vem se arrastando. Os últimos dados até sugerem que o comércio mundial talvez não esteja crescendo nada.

Os motivos são conhecidos. A economia chinesa está perdendo fôlego, o que limita o crescimento do Japão e do resto da Ásia. Embora a zona do euro não esteja mais em crise no momento, a economia da região está apenas com o nariz fora d'água. E os EUA deixaram de atuar como motor do crescimento global.

Agora, as autoridades proclamam em coro que os mercados financeiros precisam temer o Brexit. A forte recuperação da libra e das bolsas mundiais após o avanço modesto das pesquisas em favor da permanência na UE durante o fim de semana sugere que a associação do Brexit com o caos financeiro pode ter se firmado.

Já existem razões suficientes de preocupação com a economia global. Acrescentar o espectro de um colapso financeiro induzido pelo Brexit é equivocado e autoindulgente.

Evidentemente, bancos centrais estão tomando precauções de maneira individual. A presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, avisou que o Brexit está no radar dela. E o Banco da Inglaterra aumentou as linhas de liquidez.

Agora é hora de sair de uma rota perigosa.

Os bancos centrais precisam fazer uma declaração conjunta para tranquilizar os mercados, avisando que têm à disposição ferramentas com credibilidade para proteger os sistemas financeiros globais.

Se o Reino Unido decidir sair da UE, um capítulo da história mundial e da Europa no pós-guerra será encerrado. Como esse evento será lembrado dependerá da sabedoria dos atuais responsáveis pelos sistemas econômicos e financeiros do mundo.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do comitê editorial da Bloomberg LP e seus proprietários.

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