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Análise: como tudo mais falhou, tente elevar os juros

Mark Gilbert

(Bloomberg) -- Na maioria dos setores da vida, é bastante óbvio que, se o que você está fazendo não estiver dando certo, você deveria tentar outra coisa. No mundo dos bancos centrais, no entanto, a estratégia tem sido fazer mais do que não está dando certo, concedendo trilhões de dólares e euros em liquidez por meio da flexibilização quantitativa e inclusive mandando as taxas de juros oficiais em alguns países para terreno negativo.

Mas e se os juros baixos forem o problema, não a solução? E se os esforços contínuos do banco central para dar mais estímulo acabarem sugerindo que a perspectiva econômica é tão desanimadora que ninguém em sã consciência tiraria proveito dessa generosidade?

Em dezembro, o Federal Reserve elevou sua taxa de juros de referência pela primeira vez desde 2006 e sugeriu que esse movimento seria seguido por mais quatro aumentos neste ano. No entanto, já é quase o meio do ano e o mercado de futuros aposta que o Fed tem mais probabilidade de permanecer inativo nos próximos seis meses do que de aumentar novamente. "Essa divergência entre o que dizemos e o que fazemos talvez esteja causando distorções de preço no mercado financeiro internacional, provocando uma confusão desnecessária para a política futura do Fed e minando a credibilidade", disse o presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, na semana passada.

Um grande problema de engenhar artificialmente custos baixos de crédito é que o capital pode acabar preso nas chamadas empresas zumbi. O que o economista Joseph Schumpeter chamou de "destruição criadora" fica menos provável quando o dinheiro está em liberdade. Isso evita que o darwinismo econômico elimine o fraco.

Gregory Marks, do Citigroup, publicou uma nota técnica na semana passada para criticar severamente os bancos centrais por agirem como médicos autorizados a "realizar procedimentos experimentais em qualquer um que entre no hospital". Ele citou Rudolf von Havenstein, que era presidente do banco central alemão quando o país estava dominado pela hiperinflação entre 1921 e 1923 em grande parte porque ele imprimiu dinheiro sem pensar nas consequências inflacionárias. Seu nome virou sinônimo de um pensamento monetário confuso (um dos feeds mais engraçados do Twitter sobre o mercado leva o nome dele). Marks escreveu o seguinte:

"Deveríamos nos lembrar de Havenstein para identificar a presente falha no pensamento institucional sobre a política monetária atual, especificamente, os juros negativos. Em outras palavras, a lição aqui é que, infelizmente, acreditou-se na eficácia de uma política completamente irracional porque ela foi colocada em vigor por uma autoridade qualificada e experiente - ao invés de questionar o mérito de senso comum de seu possível resultado".

E, em um relatório de pesquisa publicado no início deste mês, intitulado "The ECB Must Change Course" (O BCE deve mudar de rumo), Torsten Sløk, economista-chefe internacional do Deutsche Bank, argumentou que o banco central da zona do euro deverá se preparar para inverter sua postura política:

"Quanto mais a política evitar a catarse necessária, mais ela contribuirá para o crescimento de políticas populistas ou extremistas. A normalização dos juros seria vista como um sinal positivo pelos consumidores e pelos investidores corporativos. Quanto mais o BCE continuar com uma política monetária pouco convencional, maior será o estrago para o projeto europeu".

Se os bancos centrais (e, na verdade, os mercados financeiros) dizem ao mundo que o dinheiro estará liberado no futuro próximo, qual incentivo os consumidores e as empresas vão ter para contrair empréstimos hoje a fim de consumir ou investir, em vez de esperarem um pouco para ver se a demanda aumenta? Imagine, em vez disso, que houvesse um anúncio coordenado de que as taxas de juros nas maiores economias do mundo iriam subir, digamos, para 2 por cento dentro de três meses. Será que isso não iria lubrificar as engrenagens do setor, estimulando empresas a tomar empréstimos para investir?

Eu argumentei anteriormente que o Fed não deveria ter elevado os juros em dezembro. Com base na ortodoxia econômica, eu defendo essa opinião. Mas estou disposto a contemplar a possibilidade de que seja hora de rasgar os livros-texto e experimentar certa heterodoxia financeira. Se os custos mais baixos do crédito não revigoraram o crescimento nem acabaram com o risco de deflação, talvez seja hora de dar uma chance aos juros mais altos.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial, da Bloomberg LP nem de seus proprietários.

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