Análise: Venezuela se recusa a dar calote; pouca gente entende por quê

Sebastian Boyd

(Bloomberg) -- Faz quase dois anos que o renomado economista de Harvard Ricardo Hausmann provocou um alvoroço em seu país natal, a Venezuela, ao fazer uma pergunta incômoda.

Por que um país tão descapitalizado continua honrando suas dívidas externas?

Em outras palavras, como se justifica o pagamento da preciosa moeda a ricos detentores de títulos em Nova York quando o país não consegue pagar importações básicas de alimentos e remédios de que seus milhões de cidadãos empobrecidos necessitam desesperadamente? "Eu acho a escolha moral estranha", concluiu Hausmann.

Como era de se esperar, ele foi criticado pelo governo venezuelano --o presidente Nicolás Maduro o taxou de "facínora financeiro" e "bandido" em cadeia nacional-- mas hoje essa pergunta parece mais urgente do que nunca.

Petróleo

Os preços do petróleo, força vital da Venezuela, caíram quase pela metade desde que Hausmann falou pela primeira vez e o aperto financeiro do país piorou drasticamente.

O caos chegou a níveis sem precedentes --racionamento de comida, saques, linchamentos, assistência médica em ruínas-- e, apesar de tudo isso, os investidores de títulos receberam cada centavo do que lhes era devido, bilhões e bilhões de dólares ao todo.

"Existem dois mundos", disse Francisco Ghersi, diretor administrativo da Knossos Asset Management em Caracas. "O mundo dos detentores de títulos e o mundo do que está acontecendo na Venezuela".

O que torna essa abordagem de 'pagar a qualquer custo' ainda mais estranha é que ela surge em um país administrado por gente que se diz socialista, que passou mais de uma década atacando os poderes capitalistas estrangeiros.

Infinitas teorias, em parte produzidas pelo pronunciamento público de Hausmann, tentam explicar por que o governo Maduro aderiu tão obstinadamente a essa política. As principais podem ser divididas em três categorias.

Teorias

A primeira teoria é um argumento que foi lançado publicamente pelo alto escalão do próprio governo. Ela afirma que a Venezuela pode esperar até os preços do petróleo se recuperarem.

Por que gerar distúrbios, segundo esse pensamento, se a salvação pode chegar dentro de algumas semanas? (Os preços têm aumentado ultimamente, subindo para perto de US$ 50 por barril).

O argumento seguinte é uma espécie de teoria da conspiração proveniente, em parte, da natureza obscura das finanças da Venezuela.

Essa teoria pressupõe que sócios próximos ao governo são grandes detentores dos títulos do país e que o governo teme perder esse apoio tão necessário se os pagamentos forem interrompidos. As tentativas de obter comentários dos assessores de imprensa do governo sobre este e outros aspectos da reportagem não tiveram sucesso.

A terceira teoria, que se remonta à primeira ideia, afirma que embora a Venezuela tenha perdido o acesso aos mercados internacionais de capitais há muito tempo, um calote poderia piorar o aperto financeiro do governo, criando a possibilidade de os credores abrirem processos legais que prejudicariam a capacidade do país de exportar.

Se uma quantidade menor de petrodólares entrar no país, as economias decorrentes de um calote poderiam desaparecer, piorando ainda mais a situação local.

Para Hausmann e especialistas jurídicos que estudaram as operações de petróleo do país, o risco de credores zangados impedirem as exportações depois de um calote é, na verdade, pequeno.

O modo que a petrolífera estatal PDVSA estruturou seus contratos de vendas torna difícil interrompê-los com uma contestação jurídica, de acordo com Francesca Odell, sócia da Cleary Gottlieb em Nova York. O que Hausmann e outros veem no calote é a oportunidade de liberar uma grande quantidade de dinheiro que poderia ser redirecionada para as importações.

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