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Bancos no Brasil reduzem posições em derivativos em R$ 1,3 tri

Cristiane Lucchesi e Denyse Godoy

(Bloomberg) -- Os maiores bancos brasileiros reduziram suas posições em derivativos em mais de US$ 400 bi nos últimos três anos, recuando de apostas que exigem mais capital porque a volatilidade tem amplificado os riscos e as provisões para inadimplência estão fragilizando seus balanços.

O Itaú Unibanco, maior banco brasileiro em valor de mercado, reduziu suas posições em derivativos em 20% desde 2013, para R$ 1,5 trilhão, no primeiro trimestre. O Bradesco eliminou metade de suas apostas no período, para R$ 392,3 bilhões.

O Grupo BTG Pactual encolheu sua posição em 40%, para R$ 840 bilhões, depois que a prisão de seu ex-presidente levantou preocupações sobre a liquidez do banco. Bancos europeus como o Barclays, Deutsche Bank e HSBC abandonaram completamente o mercado de derivativos brasileiro.

A queda representa mais um golpe no maior mercado da América Latina, que já tem sofrido com a pior recessão do país em um século e o aumento da inadimplência de empresas e consumidores.

O recuo se dá também em meio a um movimento global das instituições financeiras para reduzir o risco em seus balanços após os EUA proibirem os bancos de realizarem operações financeiras com recursos próprios -- o chamado trading proprietário -- em 2015 e reguladores elevarem as exigências de capital para posições de derivativos no mercado.

"A alta volatilidade nos preços aumentou o risco e ajudou a reduzir os volumes de derivativos negociados pelos bancos, enquanto novas regras exigem mais capital para esse tipo de atividade em bancos globais, fazendo com que isso seja mais difícil e mais caro", disse Marco Antonio Sudano, diretor da tesouraria do Itaú.

Impostos sobre derivativos no passado levaram parte do mercado de opções de moeda para fora do Brasil já que fundos de pensão e investidores globais conservadores deixaram os mercados locais, disse.

Isso tem sido um entrave para a BM&FBovespa, que já enfrenta uma escassez de aberturas de capital em um mercado que nunca correspondeu ao seu potencial. No Brasil, a bolsa realiza a negociação de cerca de 80% das transações com derivativos, incluindo quase todo o trading proprietário dos bancos.

No segmento BM&F, os bancos repassam os riscos do mercado de derivativos que recebem de uma empresa ou de clientes de fundos por meio de transações de balcão que são registradas pela Cetip.

Os contratos negociados pelos bancos na BM&F caíram 46% desde o início da década, para uma media diária de cerca de 570.000 no ano até maio, de acordo com a bolsa.

O volume total de negócios diários subiu 7%, para 3 milhões de contratos, nos primeiros cinco meses do ano na comparação com o mesmo período do ano passado, mas o aumento se deu apenas por causa dos minicontratos, que representam 20% do valor de um contrato cheio. Isso sinaliza uma possível queda no valor total de derivativos negociados, um dado que a BM&FBovespa não fornece.

Enquanto os minicontratos subiram 78% no volume diário de negociações, os contratos cheios de dólar futuro caíram 15%, de juros futuros em reais caíram 2% e de juros futuros de dólar tiveram queda de 7%.

O número de contratos que permaneciam abertos de um dia para o outro registrou recuo de 16%, indicando que os investidores estão aumentando apostas de curto prazo, mostram dados da bolsa.

"Nos últimos dois anos, houve uma diminuição da atividade das tesourarias locais, tanto dos grandes bancos quanto dos médios e dos pequenos", disse Edemir Pinto, presidente da BM&FBovespa. "Houve uma redução importante do volume."

Segundo as regras da bolsa, os participantes devem ter margem de garantias em reais para respaldar as apostas. Mas, após o país perder o grau de investimento, as provisões de capital necessárias para possuir esses ativos aumentaram para a maior parte dos bancos estrangeiros, tornando o negócio com derivativos brasileiros menos rentável para eles.

A bolsa está negociando com o Banco Central a permissão para o uso de títulos do tesouro dos EUA ou da Alemanha como garantia, disse Cicero Augusto Vieira Nero, diretor de operações da BM&FBovespa. "Todas as grandes bolsas do mundo fazem isso", disse ele.

Ofuscando a queda das posições em derivativos dos bancos, estão investidores internacionais -- principalmente traders quantitativos que usam computadores para realizar ordens -- cuja negociação de contratos diários mais que dobrou desde 2010.

Eles somam hoje 40% de todos os derivativos negociados na BM&F, em comparação a 23% em 2010. A participação dos bancos caiu de 45% para 18%, mostram dados da bolsa.

Taxas de juros reais que estão entre as mais altas do mundo fazem dos títulos do governo do Brasil de curto prazo e das operações compromissadas do Banco Central, equivalentes a dinheiro com o ganho da taxa overnight, investimentos mais atraentes e menos arriscados para os bancos, disse Ricardo Humberto Rocha, professor do programa avançado em finanças do Insper em São Paulo.

"Não é hora de assumir riscos no Brasil", disse Max Bohm, analista da Empiricus Research, em São Paulo. "Os bancos estão mais cautelosos do que nunca, reduzindo crédito, incluindo o que é incorporado em derivativos, e procurando instrumentos menos voláteis para sua tesouraria e posições de trading proprietário."

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