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Análise: Traders veem helicópteros cheios de dinheiro

Mark Gilbert

(Bloomberg) -- O mercado de títulos está nos dizendo que o exercício intelectual realizado por Milton Friedman em 1969 -- surgimento de dinheiro recém-criado na conta bancária das pessoas, o chamado dinheiro de helicóptero -- poderia estar mais perto do que imaginamos.

Quase US$ 10 trilhões dos títulos mundiais agora rendem menos que zero, dos quais mais de US$ 6 trilhões são dívida japonesa. De acordo com o jornal Sankei de quinta-feira, o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe foi informado recentemente pelo assessor Etsuro Honda que "chegou a hora de introduzir o dinheiro de helicóptero" e que o assessor especial Koichi Hamada disse que ele deveria se limitar a uma única ocorrência.

"Wo ist der Hubschrauber?", perguntou recentemente o economista Russell Napier, referindo-se à possibilidade de que o Banco Central Europeu, que tem sede em Frankfurt, recorra em breve ao dinheiro de helicóptero. Em vez disso, ele poderia ter perguntado "herikoputaa wa doko?", porque a pergunta "onde está o helicóptero?" está chamando mais atenção em Tóquio.

Ambos os assessores meio que voltaram atrás depois: Hamada disse à Bloomberg News que essa seria "uma aposta muito arriscada", e Honda disse que defende expandir as aquisições de títulos em vez de empurrar os juros para um terreno ainda mais negativo. O chefe de gabinete Yoshihide Suga disse a repórteres que o governo não está considerando o dinheiro de helicóptero. Mas o que mais ele poderia dizer?

A reportagem foi publicada no dia em que o Japão cortou pela metade sua projeção de crescimento para este ano e reduziu a estimativa de inflação para 0,4 por cento, em comparação com a projeção anterior de 1,2 por cento. A flexibilização quantitativa não está conseguindo ressuscitar a economia japonesa. A ideia deixou de soar tão forçada quanto parecia há apenas um mês, quando o presidente do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, sugeriu que não era a favor de uma ação assim.

O ex-presidente do Federal Reserve Ben Bernanke, que popularizou a ideia de dinheiro de helicóptero em um discurso em 2002, se reuniu com autoridades japonesas, inclusive o primeiro-ministro, no início desta semana. Honda, o assessor do governo que organizou as reuniões, disse que achava que "seria útil que o primeiro-ministro entenda que um eminente acadêmico internacional defende claramente o dinheiro de helicóptero".

Não só o Japão está sofrendo. O risco de deflação em muitas economias desenvolvidas ameaça atrapalhar o crescimento global. "O comércio mundial não cresceu nada em 15 meses, o que é raro fora das recessões globais", afirma um relatório publicado nesta semana pelo Centro de Pesquisa em Política Econômica. "O valor total do comércio de bens de capital caiu no primeiro semestre de 2015 e depois se estabilizou. O mesmo aconteceu com os bens de consumo".

As expectativas para a inflação se refletem nos custos do crédito em todo o mundo. Pela primeira vez na história, o governo alemão conseguiu tomar emprestado dinheiro novo por uma década na terça-feira com yield negativo e juro zero. A Suíça conseguiu fazer o mesmo por dinheiro que não terá que devolver até 2058, e a Deutsche Bahn, ferrovia estatal alemã, se tornou nesta semana a primeira empresa de fora do setor financeiro a emitir novos títulos com yields negativos. Nos EUA, os yields dos títulos do Tesouro com vencimento em 10 e 30 anos chegaram a mínimas recorde neste mês.

No mês passado na Europa, 18 membros do Parlamento Europeu escreveram ao presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, para pedir uma análise das políticas que fosse além da flexibilização quantitativa:

"Pedimos que o BCE realize uma análise completa e profunda de políticas alternativas à flexibilização quantitativa através dos mercados financeiros. Entre estas alternativas estão a introdução de um dividendo do cidadão, usando 'dinheiro de helicóptero', e a compra de títulos do Banco Europeu de Investimento como soluções possíveis para aumentar o desenvolvimento econômico através de investimentos diretos na economia real".

Uma pesquisa por "dinheiro de helicóptero" no Google gera cerca de 16 milhões de resultados, o que mostra como uma teoria econômica que era obscura entrou no vocabulário popular de políticas econômicas. A presença do termo nas reportagens publicadas no terminal da Bloomberg disparou em abril e voltou a subir nesta semana.

A psicologia nos diz que as cinco fases do luto são negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Para quem está chorando a morte do crescimento e da inflação, a aceitação da ordem atual se parece cada vez mais com dar as boas-vindas ao dinheiro que cai do céu.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial, da Bloomberg LP ou de seus proprietários.

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