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Análise: Talvez rendimentos negativos indiquem prosperidade

Tyler Cowen

(Bloomberg) -- Justo quando parecia que os rendimentos negativos não poderiam se espalhar mais, eles se espalharam. Os títulos corporativos que pagam taxas de juros negativas agora equivalem a cerca de US$ 512 bilhões do valor do mercado, o que deixa o mundo perto de um total de quase US$ 10 trilhões em títulos com rendimentos abaixo de zero. A maioria deles são títulos soberanos.

Há diversas explicações para essa situação estranha e inesperada. Alguns acreditam que esta é uma prova da desgraça econômica iminente. Outros atribuem esse estado à excessiva dependência dos bancos centrais de grandes aquisições de títulos projetadas para estimular economias e às lentas taxas de crescimento refletidas nos retornos dos títulos.

Eu gostaria de sugerir uma perspectiva alternativa mais positiva. Ela sugere que os rendimentos poderiam permanecer negativos por um bom tempo, mas também oferece uma nova orientação sobre o que pode fazer com que eles desapareçam.

Começo com uma visão histórica de longo prazo. Em média, os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA vêm caindo desde 1926 (!) devido, em grande parte, à sua segurança e à sua liquidez. Eles quase se tornaram uma forma de dinheiro, que oferece liquidez e segurança comparáveis às do dinheiro em espécie.

Então, não deveria ser uma surpresa absoluta que os títulos do governo dos EUA com vencimento mais longo e alguns títulos corporativos tenham enveredado recentemente por um caminho parecido, porque isso simplesmente representa um prolongamento da tendência histórica.

Nesta perspectiva, rendimentos muito baixos ou negativos não precisam refletir um grande motivo de preocupação. Os vários anos de rendimentos em queda incluem períodos de crescimento econômico tanto em alta quanto em baixa, então um maior crescimento mundial no futuro talvez não reverta essa tendência.

Na verdade, um crescimento e uma riqueza maiores poderiam elevar, em vez de reduzir, a demanda por segurança e liquidez, e, consequentemente, reduzir os rendimentos.

Talvez o ponto mais ignorado seja que a oferta de títulos com rendimento negativo não é tão grande em relação ao total da riqueza mundial. Uma estimativa recente do Credit Suisse sugeriu que a riqueza mundial poderia chegar a US$ 369 trilhões por volta de 2019, refletindo taxas de crescimento de talvez 7% ao ano.

Esses números costumam ser inexatos porque quem poderia medir o valor de todas as terras da China e construções do Uzbequistão? Contudo, esse número é realmente grande e vem crescendo rapidamente. Em comparação, os títulos com rendimento negativo não parecem tão importantes.

Talvez seja hora de começarmos a pensar nos títulos negativos como o equivalente a um seguro contra incêndio ou terremoto para essa riqueza. Se realmente há US$ 300 trilhões em riqueza mundial, seria tão louco pensar que os investidores pagariam um prêmio por comprar um seguro no valor de US$ 10 trilhões?

Tenha em mente que se você compra títulos com um rendimento de 1% negativo ao ano, e os papéis estão rendendo em média 4 por cento, o custo de seu seguro pelos títulos mais seguros é aproximadamente 5 por cento do investimento inicial.

Então, para US$ 10 trilhões em títulos seguros, esse é um prêmio de seguro de aproximadamente US$ 500 bilhões -- uma fatia relativamente pequena do total de US$ 300 trilhões ou US$ 400 trilhões do total de riqueza mundial. Em termos percentuais é mais barato do que o seguro residencial que muitos de nós pagamos todos os dias.

Os analistas às vezes se perguntam por que existem tantos rendimentos negativos em um momento em que os índices de volatilidade não estão sempre tão altos. Mas o segredo para entender a proteção contra riscos não é que o mundo esteja mais volátil, o que pode ou não ser o caso em determinado momento, mas que a quantidade de riqueza global que seria difícil de assegurar de outro modo esteja significativamente maior do que no passado. Vale a pena observar que tanto na China quanto na Índia o seguro padrão continua sendo um setor subdesenvolvido.

O fator seguro nos dá mais motivos para acreditar que os rendimentos negativos ou baixos de títulos seguros podem continuar por um bom tempo. E não há razão para esperar o apocalipse, embora a existência de qualquer tipo de seguro implique alguma chance de que riscos negativos se materializem.

Quanto ao momento em que os rendimentos negativos poderão desaparecer ou se tornar menos importantes, existe agora uma resposta direta: quando a Ásia e outros lugares se tornarem mais seguros para a riqueza.

Isso exigiria menos risco geopolítico, maior certeza de que o desenvolvimento econômico continuará, mercados de seguros tradicionais melhores e, especialmente para a China, maior facilidade de diversificação da carteira com ações estrangeiras.

Esses acontecimentos dificilmente se concretizarão em breve, mas são plausíveis nas próximas décadas. Mercados de seguros melhores vão acabar surgindo, as demandas por títulos extremamente seguros podem relaxar e os rendimentos desses títulos mais seguros vão aumentar. Mas não imediatamente.

O aumento da riqueza mundial é um acontecimento positivo. O mundo realmente enfrenta alguns riscos sérios, mas os rendimentos negativos poderiam ser simplesmente um sinal de que você deveria estar menos assustado, em vez de mais assustado.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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