Palavra pode valer 1 milhão de vagas nos EUA

Narayana Kocherlakota

(Bloomberg) -- Dar apoio a um mercado de trabalho robusto é grande parte do mandato do banco central americano, o Federal Reserve. No entanto, os integrantes da instituição interpretam esse objetivo de maneira diferente da maioria dos observadores. Pelo bem da economia, o Congresso precisa ajudar a resolver essa discrepância.

Especificamente, a Lei do Federal Reserve instrui a entidade a promover "máximo emprego" e "preços estáveis". A maioria entende que essas instruções significam que o Fed precisa tentar gerar o máximo de demanda possível por trabalhadores sem causar aumento indesejado dos preços.

No entanto, o website do conselho do Fed traz uma ligeira modificação no mandato referente ao mercado de trabalho: "máximo emprego sustentável". Embora pareça inócua, esta palavra pode fazer toda a diferença.

Como? Suponhamos que a inflação esteja abaixo da meta do Fed de 2 por cento e a taxa de desemprego se encontre em 5 por cento, que as autoridades enxergam como o nível de longo prazo (situação bem parecida com a atual). As autoridades então podem escolher entre duas políticas monetárias, que, teoricamente, resultariam nas seguintes trajetórias para a taxa de desemprego:

Política 1:
Taxa de desemprego de 5 por cento de 2017 a 2021.

Política 2:
Taxa de desemprego de 4,5 por cento em 2017; 4 por cento em 2018 e 2019 e 5 por cento em 2020 e 2021.

A maioria dos observadores escolheria a segunda opção. Sendo mais agressiva, levaria a inflação para a meta mais rapidamente. Melhor ainda, a taxa de desemprego é igual ou menor a cada ano - e em magnitude substancial. Um ponto percentual representa mais de 1 milhão de empregos.

A palavra "sustentável", no entanto, significa que o Fed considera indesejável qualquer desvio da taxa de desemprego de longo prazo - para cima ou para baixo. Quando falam de "superaquecimento" da economia na ausência de pressões inflacionárias, é isso que as autoridades têm em mente. Portanto, considerariam o desemprego baixo demais na segunda opção.

Alguns no Fed temem que um "superaquecimento" possa desencadear uma recessão (eu não entendo o mecanismo econômico que causaria isso, mas deixarei a questão de lado). Eles acreditam que a segunda opção poderia gerar a seguinte trajetória para a taxa de desemprego:

4,5 por cento em 2017; 4 por cento em 2018; 6 por cento em 2019; 5,5 por cento em 2020 e 5 por cento em 2021.

Em 2019 e 2020, a economia entra em recessão. Do ponto de vista do Fed, a trajetória de desemprego é terrível porque a taxa é baixa ou alta demais nos próximos quatro anos.

Mas muita gente estaria disposta a trocar o risco de recessão em 2019 e 2020 pelo ganho de curto prazo em 2017 e 2018. Podem até acreditar que há chance de a segunda opção gerar um excelente desfecho - se, por exemplo, a taxa de desemprego de longo prazo for menor do que o Fed acredita. O cenário seria o seguinte:

4,5 por cento em 2017 e 4 por cento de 2018 a 2021.

A discrepância de interpretações veio à tona no mês passado, quando representantes do Fed se reuniram com o grupo pró-emprego Fed Up. Os ativistas presumiam que o banco central contemplava elevações nos juros no curto prazo para manter a inflação sob controle. Mas as autoridades em geral deram importância menor à inflação e ênfase à necessidade de impedir um aquecimento excessivo da economia (que, alguns dizem, poderia causar uma recessão).

Não creio que a abordagem do Fed seja consistente com a intenção que o Congresso queria expressar na Lei do Federal Reserve. Dito isso, depende dos parlamentares apresentar uma resposta inequívoca, que pode importar muito para a economia americana nos próximos anos.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do comitê editorial da Bloomberg LP e seus proprietários.

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