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Saiba como a indústria do açúcar recrutou cientistas nos EUA

Deena Shanker

(Bloomberg) -- A indústria alimentícia financiou pesquisas para tentar influenciar a ciência da nutrição e as políticas de saúde há mais de meio século, concluiu uma nova pesquisa divulgada na segunda-feira (12).

Não é segredo que o setor financia iniciativas desse tipo na atualidade: uma pesquisa de junho, por exemplo, mostrou como a Associação Nacional de Doceiros trabalhou com um professor de nutrição da Universidade do Estado da Louisiana para concluir que as crianças que consomem açúcar são mais magras do que as que não consomem.

Um artigo de pesquisadores da Universidade da Califórnia, publicado na segunda-feira na JAMA Internal Medicine, mostra há quanto tempo essas iniciativas começaram: em 1965, a Fundação de Pesquisa sobre o Açúcar (SRF, na sigla em inglês), precursora da Sugar Association (Associação do Açúcar) de hoje, pagou cientistas de Harvard para que desacreditassem uma ligação que hoje é amplamente admitida entre os cientistas -- que consumir açúcar pode elevar o risco de doenças cardiovasculares. No lugar, o setor e os cientistas de Harvard colocaram a culpa direta e unicamente na gordura saturada.

Usando correspondências de arquivos de bibliotecas médicas, além de relatórios, notas de simpósios e outros documentos, os pesquisadores encontraram preocupações da SRF com a ligação entre o açúcar e as doenças cardíacas em 1962, quando seu conselho de assessoria científica emitiu um relatório que concluiu que "o desenvolvimento de pesquisas no campo [de doenças cardíacas coronárias] deve ser acompanhado de perto".

Em julho de 1965, depois que mais pesquisas apoiando a conexão haviam sido publicadas, o diretor de pesquisa da SRF, John Hickson, bateu à porta de Harvard em busca de cientistas para refutar as descobertas.

E os encontrou.

Naquele verão (Hemisfério Norte), Fredrick Stare, presidente do departamento de nutrição da Faculdade de Saúde Pública de Harvard e à época também membro ad hoc do conselho de assessoria científica da SRF, começou a supervisionar dois colegas de Harvard no chamado Projeto 226.

Por um total de US$ 6.500 -- ou US$ 48 mil, em valores de hoje -- pagos pela SRF, os cientistas publicaram sua própria pesquisa, que consistia em uma análise de trabalhos de pesquisa publicados anteriormente, selecionados a dedo por Hickson, que ligavam o açúcar a doenças cardíacas coronárias, ou DCCs.

Em 1967, a análise em duas partes apareceu na publicação científica New England Journal of Medicine. Ela concluía que "sem dúvida", para evitar doenças cardíacas coronárias, a única precaução necessária em termos de dieta era reduzir o consumo de colesterol e de gordura saturada. Em outras palavras: não se preocupe com o açúcar.

A pesquisa recentemente divulgada não busca afirmar que os estudos que implicavam o açúcar e foram desacreditados pelos cientistas de Harvard eram perfeitos, disse Cristin Kearns, que liderou a pesquisa para a JAMA Internal Medicine. O que ela aponta é que, em comparação com os estudos que culpavam a gordura, os critérios usados foram diferentes.

"É sempre apropriado questionar a validade de estudos individuais", disse Kearns, por email. "Contudo, os autores aplicaram padrões diferentes ao criticar os estudos que ligam o açúcar às DCCs, os estudos que implicavam a gordura saturada e aqueles que indicavam que as gorduras poli-insaturadas podiam evitar as DCCs. Os autores não avaliaram criticamente esses estudos. De fato, eles exageraram a consistência e a qualidade desses estudos".

Em comunicado, na segunda-feira, a Associação do Açúcar disse que "a Fundação de Pesquisa sobre o Açúcar deveria ter exercido uma transparência maior", mas que é "difícil para nós comentar acontecimentos que supostamente ocorreram 60 anos atrás com base em documentos que nunca vimos". A entidade também classificou como um "péssimo serviço que as pesquisas financiadas pelo setor sejam apontadas como contaminadas".

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