Análise: Monsanto aceita realidade e obtém oferta boa o suficiente

Brooke Sutherland e Chris Hughes

(Bloomberg) -- Chegou a hora.

Após meses de idas e vindas entre Bayer e Monsanto, os dois lados chegaram a um acordo em relação à maior aquisição do ano. A empresa alemã de ciências da vida conseguiu que a gigante americana produtora de sementes aceitasse uma oferta de US$ 128 por ação, que avalia o alvo em US$ 66 bilhões, incluindo dívidas. As novas condições incluem uma taxa de US$ 2 bilhões caso os órgãos reguladores antitruste impeçam a transação.

A Bayer foi inteligente ao elevar a oferta aos poucos durante a negociação da transação -- após ter começado com uma oferta incisiva. A proposta vencedora é apenas 5% superior à oferta inicial, apresentada em maio.

Mas ainda assim trata-se de um negócio bastante grande e caro. A Bayer não quantificou nenhuma sinergia, além do montante anual de US$ 1,5 bilhão originalmente sugerido, que justificasse nem mesmo o pequeno aumento em sua oferta. As sinergias não eram grandes o bastante para respaldar o preço da oferta original.

A direção da Monsanto, por outro lado, merece crédito por ter sido realista. É verdade que a oferta de US$ 128 por ação não é estonteante. Quando o interesse da Bayer surgiu pela primeira vez, alguns analistas disseram que eram necessários US$ 140 a US$ 150 por ação para convencer a Monsanto a abrir mão de sua independência.

Mas o paradigma dessa transação mudou drasticamente nos escassos quatro meses em que ela foi de conhecimento público. O balanço de resultados desanimador do terceiro trimestre e a perspectiva pessimista que a Monsanto ofereceu no fim de junho influíram, assim como os sinais de que a produção excedente e os estoques altos que mantiveram os preços das commodities baixos não estão cedendo.

Uma das referências mais frequentemente citadas para avaliar a aquisição da Monsanto é o múltiplo Ebitda projetado de 16,7 vezes que a ChemChina ofereceu pela fabricante de pesticidas Syngenta. Com base em estimativas de maio, a Bayer teria que oferecer US$ 149 por ação para igualar esse valor, apontaram os analistas Christopher Perrella e Jason Miner, da Bloomberg Intelligence.

Quando se refaz os cálculos usando as projeções atuais, a oferta de US$ 128 da Bayer soma cerca de 16 vezes o Ebitda projetado da Monsanto em 2017 -- não muito distante do que a Syngenta recebeu, mas graças apenas aos lucros baixos que inflaram o múltiplo.

Talvez o crescimento, as margens e os projetos de pesquisa e desenvolvimento em andamento da Monsanto justifiquem a diferença em relação à Syngenta. Mas a perspectiva mais sombria para a empresa e os mercados agrícolas, de uma forma mais ampla, tornam a opção de "pegar o dinheiro e correr" muito mais atraente.

A última vez em que a Monsanto foi negociada pelo preço da oferta foi antes da crise financeira. E os analistas não esperavam que a ação subisse novamente àqueles níveis tão cedo; a meta média de preço deles antes da Bayer entrar em cena (e antes da perspectiva da empresa piorar) era de cerca de US$ 99.

A Monsanto mencionava com frequência negociações com outras empresas misteriosas para um acordo, mas até o momento nenhum outro pretendente se materializou.

A insistência em expectativas de avaliação irreais poderia submeter os investidores da Monsanto a anos dolorosos se os mercados agrícolas continuassem com dificuldades. Fazer o possível para maximizar o valor para o acionista agora e dar aos investidores a opção de capitalizar com o renascimento do setor (se assim o desejarem) comprando uma Monsanto-Bayer combinada e mais forte parece ser uma estratégia melhor.

Quanto à Bayer, seus acionistas ficarão aliviados porque a empresa evitou um preço tão alto quanto se temia. Mas ainda assim trata-se de um negócio caro que coloca a empresa em um novo caminho, que a redireciona rumo à ciência agrícola. O CEO Werner Baumann tem a difícil tarefa de concretizar os benefícios prometidos -- e mais.

Essa coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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