A confiança oscilante do mercado na retomada

Josué Leonel

(Bloomberg) -- Depois de os ativos brasileiros liderarem com folga os ganhos no mercado global no primeiro semestre, antes do impeachment de Dilma Rousseff, os indicadores tanto do mercado quanto da economia passam a oscilar.

As reformas de Temer e o corte dos juros do BC - considerados um sinal verde indispensável pelos investidores - ainda não têm um prazo certo para acontecer. E volta do otimismo também depende das decisões dos BCs dos EUA, zona do euro e Japão, até o fim do ano.

A inflação ainda elevada é um fator que limita o otimismo, pois o BC tem condicionado o corte dos juros a um IPCA mais próximo à meta de 4,5%. A Selic está parada em 14,25% há mais de um ano. "A alta inflação continua impedindo um crescimento maior", diz o economista Bill Adams, economista-sênior da PNC Financial Services.

Cortes da taxa de juros poderiam favorecer os gastos dos consumidores brasileiros e os investimentos, ajudando a compensar o aperto fiscal gerado pela redução de despesas do governo e alimentando uma "modesta retomada" da economia em 2017, diz Adams. "A inflação alta mina o poder de compra do consumidor."

Para Roberto Padovani, economista do Banco Votorantim, a maioria do mercado concorda que o Brasil voltará a crescer em 2017 diante da melhora da confiança. A grande dúvida seria o ritmo desse crescimento, se vai ser mais forte ou mais discreto.

Por trás dessa dúvida estaria a questão sobre se a confiança será suficiente para reanimar a economia, apesar do crédito ainda apertado, ou se a combinação de juro alto com elevado endividamento de empresas e pessoas atrasaria a retomada, mesmo diante de uma confiança recuperada.

"A gente nunca viu uma recessão dessa magnitude em meio aos atuais níveis de crédito", diz o economista. Segundo ele, a situação hoje é muito mais grave do que a vivida na crise de 2008. "Naquela época, a crise foi apenas de confiança, não tivemos empresas quebrando. Hoje, mesmo que a confiança volte, muitas máquinas não estarão lá para produzir."

Padovani lembra ainda que a retomada continua exigindo que o governo cumpra as promessas de implementar reformas fiscais. Isso é importante para estabilizar a dívida, ampliando a confiança do credor, mas também para dar o sinal que o BC precisa para iniciar o corte dos juros, diz o economista.

O cenário externo, porém, se tornou ainda mais relevante para o Brasil do que vinha sendo antes, segundo Padovani. O mercado brasileiro teve grande recuperação antes do impeachment, mas após esses ganhos acabou ficando mais parecido, em nível de preço, com os demais emergentes.

Por isso, tanto o câmbio quando a bolsa ficariam mais expostos aos humores do mercado externo, que por sua vez são influenciados pelas condições de liquidez determinadas pelos BCs internacionais.

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