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Conheça a linha que transfere 2,7 bi de euros por minuto

Lorcan Roche Kelly

(Bloomberg) -- Com volume médio de 2,7 bilhões de euros (US$ 3 bilhões) por minuto nos dias úteis, o sistema de compensações da zona do euro chamado TARGET2 é uma das tubulações mais importantes do encanamento financeiro mundial.

Como a maioria das tubulações, fica fora do campo de visão e ? a não ser para quem tem fetiche monetário extremo ? longe dos pensamentos. Isso não significa que as pessoas devam considerar o TARGET2 mera infraestrutura, dado que proporciona entendimento sobre os pontos de estresse do sistema do euro.

Então do que se trata?

O TARGET2 é um sistema de pagamentos para bancos. Se um banco precisar transferir dinheiro para outro banco, o sistema transfere eletronicamente os recursos usando o TARGET2. A transação é bem simples.

Todo banco na zona do euro tem uma conta junto a seu banco central nacional. Se um banco irlandês, por exemplo, quiser transferir dinheiro para um banco alemão, o sistema informa o Banco Central da Irlanda sobre a transação. A autoridade monetária da Irlanda contata sua contraparte na Alemanha, o Bundesbank, junto ao qual o banco de destino tem conta, e a transação é concluída. O Banco Central da Irlanda debita a conta do banco irlandês e o Bundesbank credita a conta do banco alemão.

É tudo simples e rápido, sendo que 99,9% das transações são completadas em cinco minutos. Basicamente, o TARGET2 funciona como uma linha telefônica.

Então por que estamos falando disso ainda?

A coisa começa a ficar interessante quando o Banco Central Europeu acrescenta dinheiro novo à mistura.

Seguiremos o exemplo da transação entre bancos da Irlanda e Alemanha, voltando a meados de 2009. Na simulação, o banco irlandês tomou um empréstimo de 100 milhões de euros com prazo de três anos junto a um banco alemão em 2006, quando os bancos irlandeses pareciam boa aposta.

Em meados de 2009, o cenário era diferente e o banco irlandês tinha uma dívida de 100 milhões de euros prestes a vencer e ninguém no mercado disposto a emprestar.

Por sorte, o BCE havia adotado operações de liquidez de alocação plena, portanto o banco irlandês conseguiu tomar empréstimo do Banco Central da Irlanda e os pagamentos foram realizados.

No entanto, olhando para a transação pelo prisma do TARGET2, algo estranho ocorreu. O dinheiro que foi creditado na conta do banco irlandês para que pagasse o banco alemão não veio de lugar nenhum. Simplesmente apareceu no sistema.

Esse dinheiro começou a aparecer na periferia da zona do euro à medida que a crise causava desequilíbrios no TARGET2, como um crédito criado sem débito correspondente.

É importante notar que os desequilíbrios transnacionais somente existiam porque a crise de financiamento se concentrava em países específicos.

A crise de financiamento dos bancos esfriou após o famoso discurso em que o presidente do BCE, Mario Draghi, declarou que faria o que fosse necessário. Assim, a dependência dos bancos periféricos de liquidez oficial começou a diminuir. À medida que os bancos devolvem esse dinheiro aos bancos centrais nacionais, o desequilíbrio é eliminado.

E por que isso importa hoje?

Os saldos do TARGET2 começaram a aumentar novamente porque o BCE cria dinheiro e adiciona ao sistema bancário no meio de uma transação normal no TARGET2, mas em um ponto ligeiramente distinto e de forma mais direta.

Até meados de 2012, as autoridades monetárias dos países periféricos estavam emprestando aos bancos dentro de seus países e essas instituições então usavam esse dinheiro para pagar dívidas junto a bancos dos países centrais.

Desde que o BCE iniciou o programa de compra de ativos no começo de 2015, os bancos centrais nacionais voltaram a criar dinheiro, mas desta vez não estão creditando as contas próprias dos bancos e sim creditando as contas bancárias dos detentores dos títulos que estão comprando.

Neste caso, é a localização das contas bancárias que causa o desequilíbrio.

Como explicou o economista-chefe do BCE, Peter Praet, em discurso na semana passada, a maioria das contas desses detentores de ativos fica na Alemanha.

Assim, se o Banco da Espanha decide comprar dívida espanhola no mercado, é provável que o vendedor tenha conta na Alemanha. Como o dinheiro é criado no Banco da Espanha e então transferido para o Bundesbank, o passivo não surge na Alemanha, mas sim na Espanha.

Agora já sabemos como tudo funciona.

E finalmente, o BCE poderia se livrar de grande parte da confusão do TARGET2, removendo os bancos centrais nacionais do sistema e colocando-se sozinho no centro de todas as transações - com todos os bancos da zona do euro mantendo suas contas com ele - mas esta pode ser uma reforma muito distante agora.

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